Uma semana em Atenas

23/06/2015

O texto que segue é um relato de uma semana (15-20 de julho 2015) em Atenas, fui participar de um congresso que tinha por objetivo principal discutir uma possível “ascensão da democracia”, mas que pelo andar da carruagem e das circunstâncias históricas se tornou quase uma “frustração da democracia”, além disso é permeado de impressões e escutas de outros participantes, estrangeiros como eu, e de gregos, participantes ou não deste congresso.

XGRECIA

A primeira impressão é que o povo (seja lá o que isto for) estava mais preparado que o governo para qualquer tipo de enfrentamento e encarar eventuais duras consequência. A frustração não era apenas da esquerda mundial que aguardava e acompanhava com ansiedade o desenrolar da história. Uma coisa porém é certa, de forma geral, os gregos nunca entenderam o Syriza como sendo um partido de esquerda radical, no máximo de centro-esquerda. Existe uma herança comunista Grega muito forte e, segundo um amigo taxista, mesmo parcela da direita respeita os comunistas em razão da defesa que os partisans fizeram do país na 2a guerra mundial e, sobretudo, por terem conseguido bravamente expulsar os nazistas. Mesmo os herdeiros da reação monarquista vitoriosa, como bons e mortais inimigos, tem um certo respeito pelo KKE. Dias antes de chegar um amigo me relatou que o clima na cidade estava incrível, todos discutindo política em todos os lugares e horário, estavam todos concientes da importância do momento. Quando cheguei porém o clima já havia esfriado bastante, porém pude ter várias conversas incríveis das quais destaco um camarada taxista filiado ao partido comunista que conhecia muito bem a obra de Jorge Amado e Isabel Allende. Além disso o caos de Atenas lembra os melhores lugares do Brasil e por toda parte haviam pichações e cartazes escrito “OXI”. Aparentemente não era tão fácil assumir abertamente o “NE”.

O KKE foi a coisas mais impressionantes que pude ver em ação na manifestação da quarta-feira 15/07. A sua organização disciplinar e quantidade de membros (20-30mil) – incluindo proletários, mulheres, jovens e crianças –  lembrou bastante as lendas sobre os antigos partidos comunistas italianos ou francês. Por terem desconfiado desde o principio do Syriza, internamente são considerados como um dos vencedores deste processo, porém deles a grande mídia não fala. Não ficou claro porém se existe a possibilidade de algum crescimento efetivo do partido que tem atualmente em torno de 8% dos votantes. Nesta mesma manifestação ficou claro que eles se separam de todo o restante dos movimentos, assumindo uma posição de certo modo arrogante que resulta muitas vezes em brigas internas sobretudo com os anarquistas (me foi relatado que uma das maiores manifestações em anos passados terminou com uma gigantesca briga entre estes dois grupos e enquanto isso acontecia os policiais davam risada). É uma pena pois tamanha organização poderia liderar os demais ou ao menos ajuda-los nos confrontos. Os anarquistas são o segundo grupo mais organizado, contando inclusive com dois distritos em Atenas. É importante frisar que  existem em torno de 50 organizações, das mais diversas tendências, no campo da esquerda na Grécia. Imaginemos o dia em que todas atuarão juntas.

Ouvindo alguns dos principais dirigentes do partido, ficou evidente que faltou teoria na organização do Syriza. Obviamente não um programa fixo e imutável, pois uma aplicação flexível do Thessaloniki já teria sido de bom tamanho. Mas não foi o caso. Como podem vir a público dizer que não sabiam o que fazer e que no final das contas estavam praticamente levando tudo na tora? Ou dizer que o estado era complexo, que não sabiam que a troika era malvada e que dinheiro não nasce em árvore? Não é razoável aceitar ouvir isso a essa altura do campeonato. Não era o objetivo inicial sair do euro? Ok, sem problemas. Mas com o andar da carruagem não teria se tornado a saída o único objetivo viável? Este argumento não tem muito cabimento pois as circunstâncias mudaram enormemente nestes meses todos. Além disso, por que apenas neste aspecto levantam este ponto de não ser o objetivo inicial? O programa Thessaloniki era um ponto de partida que seria modificado ao longo do percurso, não um programa para ser consultado no momento de achar justificativas e desculpas para atitudes tomadas à posteriori. É bom sempre frisar que existe a vários meses um plano econômico, elaborado por Costas Lapavitsas, para uma saída da zona euro. Se daria certo nem mãe Diná sabe, mas ele me pareceu bastante convincente e embasado, além de consciente das evidentes limitações deste. Em todo caso era uma tentativa concreta que ao menos poderia servir como ponto de partida para um plano coletivo. Outro ponto importante, claramente expresso por um dos seus dirigentes, é que o Syriza se tornou um partido antidemocrático internamente. A grosso modo, desde pouco antes de ser eleito vem sendo conduzido por Tsipras e um pequenos núcleo duro. A prova maior é o documento dos 109 dirigentes, pequena maioria, que não aprovaram o memorando e que também não foram escutados. No final das contas, talvez Tsipras fosse o menos à esquerda no partido. O Syriza só esta ai por causa dos movimentos e, no mínimo, eles falharam em atender ao  povo no referendo. Há porém, uma corrente que entende que talvez o próximo passo seja preparar para sair uma inevitável saída do Euro, coisa que não foi feita, mas poderia ter sido feita, desde o início. Outros que “greexit amical” foi em algum momento possível pois, de certa forma, foi proposto “ganhar um dinheiro” para sair. Outro ponto importante é não esquecer que o Euro é moeda e é fiscal. Além disso, muito se falou da Argentina em 2001, vale frisar que a Grécia tem, aparentemente, infraestrutura melhor e até uma população melhor capacitada, sendo ainda mais radical, a grosso modo, ela não precisa mais crescer nesta lógica capitalista. Uma coisa que ficou clara é que estes dias, entre o anúncio do plebiscito e a fatídica reunião, serão material de estudos e reflexão por décadas.

Outra questão que não ficou clara: será que foi traição mesmo? Alguns claramente consideram, mas não a maioria. Nas conversas me pareceu mais presente um sentimento de frustração ou desorientação do que de traição. Outra coisa é que devemos sempre lembrar que o inimigo maior não é o Syriza – não precisamos de mais canibalismo de esquerda – e ficou ainda mais claro que devemos voltar a nomear os bois pois estamos de forma geral esquecendo ou substituindo-os por outras espécies e nomes, não falamos mais do sistema ou superação deste por outro. É como se o nosso limite fosse o capital. Para o futuro imediato porém, existe a possibilidade de suporte crítico ao Syriza? Ou isso, como em outras ocasiões, pode matar a esquerda? Mais uma vez, como Paulo Arantes tem repetido constantemente, a esquerda tem se tornado importante apenas para gerir e coordenar projetos humanitários e estados de urgência social e aparentemente o Syriza virou mais um deste gestores da emergência. Devemos lembrar porém que diferentemente dos operários ingleses, desta  vez foi o governo, e não as massa, que foi o derrotado.

Em uma mesa com os representantes de partidos de esquerda esloveno, italiano, português, irlandês e espanhol, ficou evidenciado que todos compartilham a falta de ideias. Quando descreviam as singularidades de cada situação algumas coisas interessantes apareciam, porém na hora de apresentar algo novo era uma frustração total. Foi mais uma prova de que falta teoria sobre o que realmente está acontecendo. Os mais lamentáveis foram os representantes do Podemos com falas repletas de clichês e lugares comuns. Parecia que tinhamos o próprio Pablo Iglesias na nossa frente, como se eles tivessem decorado as falas deste ou obedecessem uma espécie de manual interno. Chamo a atenção que passava longe de uma rigorosa disciplina interna (o que seria bom), estava muito mais para um discurso vazio e ensaiado que achei muito problemático. Apesar disso a representante deles apresentou uma ideia interessante: focar a luta na questão alimentícia, na soberania alimentar –  foi ao menos um esboço de uma ideia, mas é pouco para o tamanho da expectativa que eles despertam. Se compararmos com o Syriza, observamos que estes ao menos tinham um programa e uma pluralidade de visões e posicionamentos internos. Os italianos nos disseram que  preferiam sonhar e não estavam preocupados com a realidade, o que pode ser bom, mas que também não falavam com as pessoas (confesso que não entendi esse último ponto). Os eslovenos prestam atenção na parcela que se abstém de votar e que convencer essas pessoas a participar pode ser algo interessante, afinal não está claro a posição da maior parte delas e nada impede que ela venha para o nosso campo. Somando estas a outras discussões, me pareceu que há algo interessante acontecendo no leste europeu como um todo, pode ser que por trás da antiga cortina de ferro aparece algo interessante, mas ao mesmo tempo, devido a herança do século XX, existe um enorme problema da esquerda se apresentar como tal nesta mesma região. Outra questão levantada foi a de estudar o momento em que a antiga Iugoslávia, na transição pós muro de Berlim, socializou parcialmente os meios de produção, me pareceu um interessante ponto de partida passível de ser retomado.

Outro enorme problema é o que fazer em países como a Holanda que são totalmente despolitizados? Ao meu ver essa é uma questão que pode ser transposta para as cidades pequenas do Brasil. O que é possível ou não fazer nestas cidade? Por onde começar? Ter uma abordagem mais local ou de cara universalizar o movimento? Fazer os habitantes se tornarem parte do todo ou o todo tomar forma nesta pequena parte? Em outras palavras, tornar os locais parte das lutas nacionais ou encontrar a luta local que possibilite com que eles se mobilizem? Creio ser uma questão menos fácil

do que parece. Com o crescimento da agenda de extrema direita pautando a agenda europeia, outra questão discutida foi a de se é possível e faz algum sentido, dar uma versão à esquerda de pautas facistas. Devemos inverter as pautas deles? Ou não devemos abraça-las de forma alguma? Com o crescimento da direita no Brasil esta tornam-se também nossas questões.

Ao meu ver, um problema enorme da esquerda atual é essa ênfase na solidariedade e em construir redes. Não vão muito mais longe que isso e propõe cada vez menos mudanças radicais na sociedade. Análise conjuntural então, é quase um mito de tão rara. O horizonte está mais no passado do que nunca e o da esquerda europeia é menor que o melhor momento imaginado do Welfare State. Em todo caso, existe realmente a possibilidade desta solidariedade e de movimentos sociais substituírem o estado? Ou isso só é possível em certo nível, por causa da existência deste mesmo estado? Essa ênfase em dois conceitos extremamente vagos como construir redes e solidariedade me parece funcionar como uma neblina que confunde a visão do que está em jogo. Não sou, evidentemente, contra solidariedade. Mas qual solidariedade? Pegar em armas e ir lutar ao lado do outro? Ir trabalhar no país em crise? Fazer passeata na sua cidade? Mudar a foto ou curtir um evento no facebook? Pegando o gancho, houve também um diagnostico geral que a esquerda não sabe usar ainda muito bem as novas tecnologias sociais de forma efetiva e organizada, o que sobressai são ações individuais, talvez com um bom uso, mais sistemático, poderemos conseguir dar mais um passo.

Ao meu ver, o maior problema deles é um “eurofetiche” que permeia a mente de todos os europeus. Obviamente sabemos que a Europa é diferente da União Europeia, mas esta confusão é tão obscena que ambas formam um todo impossível de separar. Melhor seria aceitar a impossibilidade de ambas. Resta a questão fundamental, por que insistir com a União Europeia? Por que insistir com a Europa? Por que não passar a encara-la como um mero acidente geográfico com o quais inevitavelmente terão que lidar? Negar a Europa, para, a partir do vazio criado pela ausência desta ideia, poder construir algo novo, me parece ser o principal movimento a ser urgentemente feito por todos eles. Não é pregar um isolacionismo ou uma prática xenofobica, é exatamente o contrario, construir um internacionalismo que não se atenha a conceitos abstratos demasiadamente carregados de premissas, além de formulados e idealizados pelos adversários e, tendo a refutação destes como ponto de partida, abrir a possibilidade de criar algo novo que desta vez possa englobar todos os povos presentes no “velho continente”. Para isso entendo que eles devem abandonar logo a “Europa”. Outro problema é que eles continuam a fetichizar de forma excessiva o que acontece na América Latina. É quase como se fossemos um modelo possível de ser copiado, uma política do “ctrl+c – ctrl+v” que mascara as singularidades de ambas localidades.

Outro ponto interessante é a confusão que houve na polícia por não saberem o que fazer nos primeiros meses do governo Syriza. É verdade que existe a presença de um espectro da extrema direita no aparelho policial, mas seria ir muito longe chama-la de neofascista. Na pauta atual do governo está a despolitização da polícia, pois o objetivo é tornar a prevenção o mote principal deste aparelho. Prevenção, no entanto, é muitas vezes incompatível com a lei, pois aceita espionagem, tortura, assédios e inevitavelmente termina com seletividade dos alvos, etc. Como ignorar a possibilidade da polícia agir contra a sociedade? Como impedir a seleção dos que serão previamente punidos? O que quer dizer prevenção nesta linguagem? Aparentemente, na Grécia é deter (alguns) imigrantes e anarquistas. Vale ressaltar que a violência polícia grega é similar à brasileira ou à francesa. Não idealizemos as polícias europeias. Uma curiosidade é que o ministro encarregado da polícia é um teórico criminalista, da escola anglo-saxã, e que parte do seu trabalho é inspirado no outro trabalho, e vice-versa. Em relação à questão da imigração, porém, não é internamente claro quais funções cabem ao aparato policial e ao exército e vale lembrar, como este novo memorando inclui um corte de parte do seu orçamento, o exército também estaria interessado em medidas contra a austeridade.

Para um amigo grego, este imbróglio todo é muito mais internacional do que está sendo ventilado. Segundo ele, esta questão Grega pode também ser enxergada sob a ótica da relação entre entre os EUA e a China. No mesmo dia que o acordo sobre a dívida Grega foi aprovado, a China perdeu  três vezes a quantidade dessa dívida em euros relacionado à dívida americana.

Em todo caso, o principal momento de toda esta questão política tem, ao meu ver, sido colocado em segundo plano, e não só no Brasil, mas também na Europa. Falamos sempre do Syriza, das eleições, do memorando, da dívida, mas estamos esquecendo de analisar o que aconteceu entre os dias 27 de junho e 05 de julho, período de 9 dias que comprime o anúncio e o resultado final do referendo. Referendo, um instrumento político utilizado para os mais diversos fins e pelos mais diversos governos, não é em si o mais importante. O mais interessante é que ficou claro a divisão que este evento causou na sociedade grega. Os relatos nos contam que famílias racharam, amizades esfriaram, as discussões políticas se tornaram ainda mais calorosas, além da cidade estar cheia de cartazes e pichações com OXI (nada de NE). Em suma, o referendo rachou o país de uma forma radical. Não podemos aceitar a premissa ventilada de que a questão nele proposta não era clara. Concordamos, é verdade, que as interpretações do OXI são as mais diversas possíveis e nas conversas com os mais diversos populares escutamos várias versões do que este NÃO significou. Mas é exatamente este o ponto da verdade da situação. Mesmo que o OXI possa dizer várias coisas diferentes e mesmo contraditórias, a posição oposta, de quem votou no NE, é clara e única. E ao meu ver, é nesta posição antagônica que devemos prestar atenção. Pode nada acontecer em uma sociedade dividida, mas, nada impede que algo radical venha a emergir. A luta deles continua, aguardemos.

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2 ideias sobre “Uma semana em Atenas

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