NOTA #5 [04/07/2017] (RJ I)

No conto Durante a construção da muralha da China, Kafka coloca um argumento preciso acerca do motivo de a muralha ter sido construída por partes e não em sequência. Diferenciando os pontos de vista dos mestres de obra nível superior daqueles dos de nível inferior, diz que aqueles “eram homens que haviam meditado muito sobre a construção e não paravam de pensar nisso, que de certo modo se sentiam amalgamados à construção desde a primeira pedra que faziam mergulhar no solo. (…) os mestres de obras mais altos, até mesmo os de nível médio, enxergavam o suficiente do múltiplo crescimento da construção para desse modo conservarem o espírito forte”.  Já para os de nível inferior, “homens espiritualmente muito acima de sua tarefa, na aparência pequena, foi necessário adotar outras medidas. Não se podia, por exemplo, fazê-los assentar pedra sobre pedra, ao longo de meses e até anos, numa região desabitada das montanhas, a centenas de milhas de distância de seus lares; a falta de perspectiva desse trabalho assíduo, mas que até em uma existência prolongada não levaria ao alvo, os teria desesperado e sobretudo tornado mais sem valor para o trabalho. Por esse motivo escolheu-se o sistema de construção por partes.” Em seguida, ao falar da construção de quinhentos metros que constituía cada uma das partes diz: “quinhentos metros podiam ser aprontados nuns cinco anos, naturalmente depois os mestres estavam em regra esgotados demais e tinham perdido toda a confiança em si mesmos, na construção, no mundo; por isso então, quando ainda estavam no entusiasmo da festa de união dos mil metros da muralha, eles foram despachados para longe, muito longe, vendo na viagem sobressaírem aqui e ali partes prontas da muralha, passando pelos alojamentos dos chefes superiores, que os presenteavam com condecorações, ouvindo os gritos de júbilo dos novos exércitos de trabalho de trabalho que afluíam em torrentes do fundo das províncias; vendo ser abatidas florestas destinadas a martelo em blocos de pedra e escutando nos lugares sagrados os cânticos dos devotos que rogavam pelo término da construção. Tudo isso apaziguava sua impaciência.”

Essa impaciência que possuíam os mestres de obras, tanto os de cima quanto os de baixo, me parece ser também a mesma que poderíamos imputar como responsável por certo modo de fazer política. Uma vez que o trabalho de base se revela parcial, lento, espinhoso, cujos possíveis exuberantes e recompensadores resultados talvez nunca veremos em vida,  privilegiar formas mais tangíveis e imediatas como protestos e atos políticos, abaixo-assinados virtuais, o próprio voto etc possui o efeito muito mais próximo de “dever concluído”, de “fiz minha parte”, ainda que, paradoxalmente, não resulte em qualquer êxito. O trabalho político mais cotidiano talvez seja como a construção dessa muralha da China, monumento gigantesco que testemunha também do esforço e labor de inúmeros mestres de nível inferior que jamais viram sua obra de vida completada, inconcebível em sua totalidade. Kafka diz que a construção por partes foi a solução encontrada para manter empenhados trabalhadores que de outro modo teriam se desesperado, trabalhadores que teriam visto, pela falta de perspectiva, tornado mais sem valor seu trabalho.

A cada parte finalizada, e isso me parece crucial, o reconhecimento de uma finalização – ainda que a finalização não tenha de fato ocorrido, quiçá nunca viesse a ocorrer – recebia-se condecorações, ouvia-se gritos de júbilo e os cânticos dos devotos que rogavam pelo término da construção. A questão que proponho é se seria possível tornar esse trabalho político menor um pouco como aquele, por partes, mas ressalto que essas partes tenham um sentido preciso. Se o pouco que se faz tende a parecer muito pouco, muito pouco para alterar substancialmente o quadro mais amplo da política, além de muito poucos a fazê-lo, me pergunto como seria possível tornar mais recompensador, tanto com a finalidade de manter o ânimo dos já envolvidos nesse trabalho pequeno e de nível inferior quanto de cooptar novos sujeitos dispostos a encontrar sentido nesse trabalho sem perspectivas (de alcançá-lo globalmente). Uma recompensa que se alcance, uma que faça a parte ser não apenas uma parte de um todo indefinido, mas também um todo em si mesma. Creio que isso seja pertinente de se pensar tendo em vista que os trabalhos políticos “impacientes” têm se revelado cada vez mais ineficientes, uma vez que parece cada vez mais manifestas a ruptura e o desligamento total das vias de comunicação entre esses “trabalhos” e aqueles a quem se endereçam. Principalmente se tivermos em mente que, como diz Kafka, “a muralha foi pensada como proteção contra o povo do norte” e em nosso caso, o trabalho impaciente, enquanto endereçado principalmente ao Estado, expressa uma exigência ao “povo do norte” para que este edifique uma construção que frequentemente tem como finalidade a proteção contra o próprio povo do norte.

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