NOTA #4 [17/02/2017] (RJ II)

Sobre o tempo em Agamben, há uma obra bastante ilustrativa: “História em Infância”.
No capítulo “O País dos Brinquedos: reflexões sobre a história e sobre o jogo”, Agamben trata de dois “regimes de temporalidade”: sincronia (rito) e diacronia (jogo). Dessa forma, o rito é “uma máquina para transformar diacronia em sincronia, o jogo é, opostamente, uma máquina para transformar sincronia em diacronia.” (p. 90).
Mas essa transformação nunca é completa; essas duas “máquinas” servem ambas para “produzir resíduos diferenciais entre diacronia e sincronia, embora esta produção resulte de um movimento que é inverso nos dois casos.” Na verdade, “podemos considerar rito e jogo não como duas máquinas distintas, mas como uma única máquina, um único sistema binário que se articula sobre duas categorias, que não é possível isolar, e sobre cuja relação e sobre cuja diferença está fundamentado o funcionamento do próprio sistema.” (p 91).
Esse resíduo diferencial entre diacronia e sincronia é o que Agamben entende como história: tempo humano.
A diacronia seria a sucessão de eventos, um regime de temporalidade kairológico, de temporalidade circular. A sincronia é o regime da estrutura, da “repetição calendárica”, da temporalidade linear.
Mas, para Agamben, ambas estas formas nunca se apresentam de modo puro; a história, por isso, é sempre o resíduo dessa mistura entre rito e jogo, sincronia e diacronia, linearidade e circularidade.
Assim, “se a história se revela, nesta perspectiva, como o sistema das transformações do rito em jogo e do jogo em rito, a diferença entre os dois tipos de sociedade (sociedades quentes e frias; de jogo e de rito; de história cumulativa e de história estacionária) não é tanto qualitativa quanto quantitativa: somente o prevalecer de uma ordem significante sobre a outra define o pertencimento de uma sociedade a este ou àquele tipo. Em um dos extremos de uma tal classificação se colocaria o caso (cuja realidade é puramente assintótica, pois não conhecemos exemplos de semelhante sociedade) de uma sociedade na qual todo o jogo tivesse se tornado rito, toda a diacronia fosse transformada em sincronia. Em uma sociedade como esta, na qual o intervalo diacrônico entre o passado e presente seria totalmente preenchido, os homens viveriam em um eterno presente, ou seja, naquela eternidade imóvel que muitas religiões designam precisamente como morada aos deuses. No extremo oposto se colocaria o caso (também este ideal) de uma sociedade na qual todo o rito tivesse sido erodido pelo jogo e todas as estruturas esfareladas em eventos: é o ‘país dos brinquedos’, no qual as horas correm como faíscas, ou, na mitologia grega, a absoluta diacronia do tempo infernal, simbolizada pela roda de Íxon e pela faina de Sísifo. Em ambos os casos viria a faltar aquele resíduo diferencial entre diacronia e sincronia no qual identificamos o tempo humano, isto é, a história.” (p. 95)
Então, arrisco: o “Juízo Final”, o Apocalipse, não é, na verdade, o “fim da história”? A efetivação da impossibilidade do presente absoluto como paradigma temporal inescapável? O fim do tempo humano como resíduo entre diacronia e sincronia, já que não há linearidade, nem ponto extenso, nem intervalo ou duração mas pontualidade infinita. Um tempo sem “tempo” (Chronos), puro “Kairós”…não é esse o tempo messiânico?

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