NOTA CEII SP [25/05/2017]

Na última reunião a gente papeou um bom tempo sobre regras e seguir as regras. E curioso, o que estava em voga era a escuta, me parece que a gente estava falando da importância da escuta, justamente porque a gente já sabe que a gente segue as regras do projeto. Esse prazer legislativo não tava sendo questionado, mas o timing dele não parece tanto ser o que a célula passa agora e sendo assim, parece que um dos participantes sentiu-se frustrado com isto. Acho que seria importante a gente conversar melhor com ele sobre isto. Até porque, acho que não soubemos ouvir o que o mesmo estava apresentando e também, acabamos sendo um tanto resistentes ao processo. Novamente, não é um caso de ‘o que’ mas, um caso de ‘como’. Talvez, fosse legal a gente conversar um pouco mais sobre como isto rolou na última reunião.

NOTA #2 (13/10/16) PR

Muito boa a reunião do curso do ceii na UENP. Observamos no mesmo dia a realização da assembleia para mobilização dos estudantes contra as diversas investidas golpistas e a questão orçamentaria da universidade. Porem tal sensibilização não esta presente em grande parte dos alunos, que acredita que suas vidas não serão afetadas pela pec 241 e a saúde orçamentaria da uenp não é a tragédia que tentam pintar. Diante disso, incide a reflexão do porque grande parcela discente tende a menosprezar as motivações da mobilização e apenas uma minoria possui o ânimo de tentar mudar a realidade. Egoísmo? falta de sentimento coletivo? desinformação? esteriótipos e rótulos? Talvez um pouco de cada, somado com cursos que não perceberam que estão em uma universidade, comportando como se fossem faculdades agregadas. Enquanto isso, os pagamentos mínimos para a manutenção de toda a estrutura universitária continuam a atrasar, estamos caindo em um abismo com nossa velocidade acelerada em progressão geométrica a cada dia de nossa inércia. De certa forma, as investidas que nos atingem diariamente, ocorrem porque as políticas públicas, que pela lógica deveriam ser em prol da população, estão submetidas ao poder econômico, negociadas por uma classe política suína, detentora do poder político, na busca pela propagação e intensificação do poder econômico. Um ciclo de tragédias.

Nota #1 (06/10/2016) PR

A primeira reunião do curso de extensão sobre o Zizek foi bem bacana.
Concordo que uma chave importante para entendermos o marxismo, o hegelianismo e a psicanálise hoje está na premissa de pensarmos esses três autores em “nós”.

NOTA #1 [26/08/2016] (RJ II)

O impeachment me deixou triste na hora, como se fosse uma espécie de consumação de um receio de meses pelo desastre histórico pro qual a gente parece se encaminhar (o impeachment, por isso, acaba sendo um por menor na aparente tendência do estado de coisas).

Mas isso me fez pensar sobre essa vontade que as pessoas estão tendo de sair à rua e fazer alguma oposição. Mas não sei, me parece que essa oposição de rua não possui a capacidade de surtir efeito algum. Na verdade eu tô sempre tendendo a pensar que não em qualquer situação. Parece que a reação acaba sendo muito mais um simbolismo, uma reação de fazer algo para não sofrer com a culpa de não ter feito coisa alguma. Mas isso não parece uma internalização narcísica de uma angústia coletiva? Um sentimento coletivo que não move o coletivo por um comum, mas que move indivíduos desconectados entre si por um particular: a vontade de elidir a culpa/angústia. O “Fora Temer” e a vontade de um retorno da Dilma – um retorno ao passado – pode ser uma negação do presente; um recalque talvez? Não é aí que que mora o sintoma da angústia e da melancolia?A incapacidade de lidar com a perda do objeto? E aí é que está…essa negação do que aconteceu conosco, é um recalque? Ou é uma elaboração do luto? Nos enlutarmos não pressupõe digerirmos o acontecido com as devidas críticas e ressalvas e nos preparar para um presente orientado ao futuro? Agora noto que só trago questionamentos…mas acho que talvez o CEII, ou a própria militância como um todo, vai eventualmente ter que enfrentar esses problemas.
Encararmos que estamos num ponto de não retorno implica colocarmo-nos perante essas questões. E a principal delas: o que fazer agora, considerando que, pela História, toda a crise é sempre capturada pela máquina do Capital?

O post com curta que o camarada Gabriel colocou no EnCEIIclopédia foi bastante interessante e muito oportuno, e me fez pensar que realmente não dá pra saber quem somos nesse momento, ou talvez, quem devemos ser…aqueles que sobrevivem ou aqueles que já morreram. Quem é o CEII: o quê sobrevive ou o quê já morreu?

 

NOTA #9 [19/07/2016] (RJ I)

Nota 2 CIP-DF

 

Daniel Bell, em seu livro “As contradições culturais do capitalismo” (1992) também salienta que a ética protestante e o temperamento puritano foram os códigos que exaltavam o trabalho, a sobriedade, a frugalidade, o freio sexual e uma atitude proibitiva da vida. E, que essa ética protestante e o temperamento puritano foi a visão de mundo de um modo de vida agrário, de pequena cidade, mercantil e artesanal. Ressalta que a vida e o caráter da sociedade norte-americana foram moldados pela pequena cidade e suas religiões, que foram necessárias para impor enérgicos códigos de sanções comunitárias em um meio hostil, davam sentido e justificação ao trabalho e as restrições, em uma economia de subsistências. Deste modo, destaca a influência do pensamento teocrático puritano na história da mente norte-americana, onde os principais intelectuais americanos eram clérigos até meados do século XVIII. Assim, a comunidade era governada por uma moralidade racional em que a lei moral era uma fria e virtuosa necessidade, e uma vez despojado da casca teológica, o núcleo do puritanismo era um intenso zelo moral pela regulação da conduta humana, não porque os puritanos foram rudes ou lascivos, mas porque haviam fundado uma comunidade como um pacto em que todos os indivíduos compartilhavam responsabilidades. Isso porque dados os perigos externos e as tensões psicológicas de viver em um mundo fechado, o indivíduo não deveria se preocupar somente por sua conduta, mas também pela da comunidade, pois os pecados de uma pessoa não só a punham em perigo, mas também o grupo todo, e, ademais, ao não se observar as exigências do pacto, se podia atrair a cólera de Deus sobre a comunidade. Deste modo, os puritanos americanos haviam firmado um pacto que comprometia a cada homem levar uma vida exemplar cujos termos fazia todos conscientes dos pecados da tentação e das tentações da carne. Nesse rumo, o puritanismo norte-americano se converteu numa ideologia, num meio para mobilizar a comunidade, reforçar a disciplina e um conjunto de controles sociais, que funciona como fonte de conservadorismo ao perdurar e, até se fazer mais forte muito depois de desaparecer sua congruência com o movimento social. Isso porque leva consigo a autoridade e as sanções do passado, é instilada na mente das crianças e se converte num esquema conceitual de mundo e das normas morais da conduta, mesmo sendo seu conteúdo sutilmente redefinido ao longo do tempo para justificar os códigos sociais estabelecidos e os controles sociais que sustentam o poder social da classe dominante (conceito funcional de ideologia). Para Bell, este foi o destino do puritanismo, pois muito depois de mitigar-se a dureza do ambiente que promoveu a ideologia original, subsiste a força de sua crença. Deste modo, a regra da abstinência havia formado parte da moral pública da sociedade norte-americana e foi um recurso para assimilar o imigrante, o pobre e o desviado ao status da classe média, já que não à sua situação econômica. Contudo, no final do séc. XIX essa regra já não era voluntária, mas uma arma coercitiva de um grupo social cujo próprio estilo de vida já não tinha autoridade moral. E, uma vez que os novos grupos urbanos não aceitavam de bom grado a temperança como forma de vida, então, tinha que ser imposta pela lei e convertida em assunto de deferência cerimonial para os valores da classe média tradicional. Assim, a moralidade se converteu em moralização e a proibição converteu-se em uma saída para as perturbações de toda libido freiada. Durante o movimento de proibição, a lascívia e o temor foram explorados por aqueles que se detinham no vínculo do sexo com o álcool, o temor da loucura e da degeneração racial e da autoafirmação do negro. Se não podiam converter o pecador, se poderia suprimir o pecado e o pecador também. A proibição foi mais do que uma questão de álcool, foi um problema de caráter e um momento de alteração no modo de vida.

NOTA #6 [12/08/2016] (RJ II)

De fato, são muito angustiantes esses debates que tivemos em nossa célula sobre o comunismo.

Ás vezes eu fico com o impressão de que  a gente pode – talvez – só estar criando uma versão marxista daquela solução do colibri na floresta em chamas. Tipo: “cada um faz a sua parte”, “seja você a revolução que você deseja ver no mundo”, “recicle seu lixo”… aquele papo do Zizek.

O que eu acho que é potente no CEII – e que parece dialogar com a crítica (e a proposta) do Agamben – é o fato de a gente ser laboratório, embrião. Comunismo em estado de latência.

É claro que, para nós que vivemos o cotidiano da nossa organização, ela não é um embrião, nem apenas uma latência. Sim, para nós, e na medida em que o estado e todas as outras formas sociais do capitalismo ainda nos permitem um ponto mínimo de fuga, o CEII é o comunismo que acontece. E isso não é pouca coisa. Mesmo. É justamente por reconhecer o tamanho disso que eu to no CEII.

Mas ainda tem peça faltando aí…

NOTA #4 [12/08/2016] (RJ II)

Tenho entendido que “forma-de-vida” é o modo como o Agamben nomeia aquilo que excede a vida baseada na forma política atual. Quer dizer, “forma-de-vida” é aquilo não está contido no conjunto dos direitos civis, políticos, sociais, nos direitos humanos etc. Por isso a ideia de forma-de-vida serviria para ilustrar seu argumento por uma política não-estatal, já que, por óbvio, o avatar estatal de cada um de nós, isso é, o cidadão, que tem é todo direito, é o que permite que possamos existir socialmente. É como se sem a abstração estatal sobre o indivíduo, o indivíduo, enquanto tal, fosse impossível.

Eu sei que o direito à propriedade privada parece anular todos os outros direitos. Mas é curioso, e também quase inteligível para mim sem elaborações como essas que o Agamben oferece, a maneira como o Marx, em 1844, fala sobre o lugar da propriedade privada no contexto da miséria social a que estão submetidas as pessoas nessa sociedade. Ele diz que a oposição “sem propriedade” e “propriedade” é insuficiente para descrever, de baixo para cima, como esse quadro está montado sobre cada um. Eu tenho a sensação de que toda política consciente dessa miséria social tem procurado lidar com o fato de que o direito à propriedade privada, como marca da igualdade entre as pessoas, não basta para que todos possam usufruir do que é socialmente produzido, de modo que arranjos e mais arranjos políticos/jurídicos são forjados para lidar com esse fato – para fora do espectro marxista e sua imaginação política, em que “abolir a propriedade privada” é uma ideia comum, quase sem pensamento, acredito que toda política atenta aos seus efeitos sociais termina, ainda que sem o saber, tencionando com esse direito em particular.

Falo disso para poder especular sobre como poderia ser pensado a questão da propriedade privada sob esse argumento de Agamben. Eu acho que, aqui, haveria uma afinidade entre ele e o Marx, no sentido de que o dito por uma política não-estatal [que não me parece ser “contra o Estado”, mas indiferente a ele] e uma vida social em que “propriedade” não serve para determinar o campo da “desativação do poder”, me parecem associáveis.

NOTA #2 [17/06/2016] (RJ II)

Um ponto importante para entendermos o que é a biopolítica na obra de Agamben está no conceito de Dispositivo apresentado de maneira bem didática na obra “O que é o Contemporâneo e outros ensaios”, logo no segundo item da obra, denominado “O que é um dispositivo”. Para definir o que é dispositivo para ele, ele parte de uma definição que atribui a Foucault, e a partir da qual elenca três pontos que significam o que é um
dispositivo: “a. É um conjunto heterogêneo, linguístico e não-linguístico, que inclui virtualmente qualquer coisa no meio do título: discursos, instituições, edifícios, leis, medidas de polícia, proposições filosóficas, etc. O dispositivo em si mesmo é a rede que se estabelece entre esses elementos. b. O dispositivo tem sempre uma função estratégica concreta e se inscreve sempre numa relação de poder. c. Como tal, resulta do cruzamento de relações de poder e de relações de saber”.
A partir desse excurso, podemos entender que os dispositivos são praticamente qualquer coisa que produza alguma espécie de subjetividade, formas de se viver e de ver a vida. Não é à toa que ele usa uma série de exemplos concretos variados do que é um dispositivo, elencando elementos desde os mais óbvios como a televisão e o celular até alguns outros mais enigmáticos como o cigarro, a escrita e a língua.
O dispositivo é um mecanismo de captura da vida, uma coisa que produz um assujeitamento do ser vivente. Por essa razão é que Agamben descreve mais à frente, na obra em comento, que existem então duas grandes classes: os seres viventes e os dispositivos. E é a partir da relação entre esses dois que surge o sujeito. O sujeito é, então, o resultado da relação entre o vivente e o dispositivo, a forma resultante da captura da substância (ser vivente) pelo dispositivo.
O dispositivo determina o sujeito.  Por consequência, ele determina toda a forma de vida.
A biopolítica se operacionaliza, portanto, através dos dispositivos. E é desvendando o modo de funcionamento e a finalidade dos dispositivos que se torna possível compreender a totalidade em sua concretude.
PS: Acho que poderíamos entender o dispositivo como qualquer elemento presente no mundo (linguisticamente ou não-linguisticamente) que reproduza significados, e que produza e reproduza, portanto, dessubjetivações, subjetivações, visões de mundo, ideologias e formas de vida em geral.