Nota CEII SP #4 [23/06/2016]

Na última reunião tocamos na relação forma partido com a qual o ceii se relaciona.
Não tenho uma posição elaborada sobre isso, mas proponho algumas indagações:
– um projeto de revolução comunista envolve vias eleitorais?
– Mesmo que não seja uma mera questão eleitoral, é condicionado a uma forma partidária?
– Se sim, como é dada a escolha do partido com o qual nos referenciamos?

Nota CEII SP #3 [23/06/2016]

Naquele debate sobre o que achamos do Ciro Gomes muitas coisas me vieram na cabeça. Fiquei pensando sobre o porquê do nome dele estar circulando com tanta simpatia por vários setores da esquerda. Um aspecto que me chamou atenção foi algo que há muito vinha latejando na cabeça e que só se ajeitou quando um amigo, de quem gosto muito e por quem tenho muita admiração, me disse admirar a Marilena Chauí; por quem nutria pouca ou nenhuma simpatia.

A Marilena, pra mim, esta dentro daquele grupo de pessoas que aparentemente não fizeram o luto do PT. É mais do que comum ouvir – desde as alcovas da esquerda até o Manhattan Connection – que o PT acabou. Comecei a pensar qual tipo de racionalidade existe na inclinação afetiva do meu amigo em direção à Marilena. Já que a simples ingenuidade não me parecia suficiente pra explicar tal inclinação, comecei a pensar, naquilo que a Marilena dizia, o que poderia estar atraindo esse meu amigo.
Comecei a pensar que a simpatia com o discurso da Mariela, de que “aquele outro PT acabou, mas não o meu PT”, é um discurso que também ta presente no discurso do Ciro Gomes e, acredito eu, que essa articulação é fundamental pra boa circulação do nome dele.

Dessa elaboração arrisco a conclusão de que reconhecer-se como legatário do PT funciona menos como peleguismo do que como um posicionamento dentro de uma série: a série de apostas do campo popular brasileiro. A crítica que nós da esquerda radical frequentemente recebemos é de que parecemos “querer acabar com tudo sem por nada no lugar” que, por mais que a gente entenda que apontamos para o vazio necessário à criação de um poder popular, desde um ponto de vista estratégico, essa crítica me parece relevante. A possibilidade de diálogo com os setores da esquerda reside na capacidade de (como nos propomos no projeto do CEII) transformar “a falta de saber individual em falta de saber coletiva”. Quem sabe podemos contribuir com a falta de saber relativa a o que do projeto do PT sanamente não queremos nos desvincular.

Nota CEII SP #2 [23/06/2016]

A destrutividade da esquerda e o CEII – na última reunião lemos um parte do texto do Badiou em que ele relata certa impulso da revolução cultural chinesa a destruir tudo o que existia para se construir tudo do zero. O autor cometa tal parte em tom de crítica. Penso que cuidado similar temos que ter para com o CEII, não é porque determinada experiência fracassou ou mesmo porque um membro saiu que precisamos demolir tudo e iniciar do zero. Precisamos aprender com nossos fracassos, é claro, mas não precisamos cultivar uma melancolia em relação a eles.

Nota CEII SP #1 [23/06/2016]

Conversando com um camarada do blog, comentei que uma das considerações que tirei de nossa leitura do texto sobre a Revolução Cultural de Badiou é que provavelmente parte do prestígio de Mao, e aquilo que o contrapunha à Stalin, era que Mao lutava contra as próprias figuras do alto escalão do partido, ao mesmo tempo que incitava o povo a não limitar suas atividades revolucionárias à forma “partido-estado”. Daí este camarada lembrou que Zizek chama Mao de “senhor do desgoverno”.

Entretanto, se não podemos confiar na forma “partido-Estado” (e aqui já temos um problema, pois não é certo se podemos reduzir o partido e o estado à mesma estrutura burocrática, pelo menos não em todos as circunstâncias históricas e sociais), quais seriam os procedimentos ou ações que “formalizariam” o processo revolucionário? Não acho que podemos prescindir da formalização, de sorte que somente repelir qualquer tentativa nesta direção como simples processo de burocratização não me parece suficiente. Para mim Badiou está bastante ciente desta tensão, e muitas de suas considerações ontológicas sobre o sujeito e procedimento falam deste problemas em termos muito interessantes. Assim, além da leitura de textos, nos pudessemos também elencar “pontos de investigação” sobre aquilo que lemos e assim aprofundar os temas que nos aparecem.

NOTA #1 [21/06/2016] (RJ I)

Nota_CEII_20/06/16-RJ-I-CIP-DF

 

 

Marques Neto (1996), ao mencionar a possibilidade de articular os campos teóricos, psicanálise e direito, afirma que eles por si mesmos não comportam qualquer espécie articulação prévia, e, pressupõe uma insistência mais na aposta da indagação do que a dimensão do que pode vir como resposta (momento da pergunta que não a resolve nem a esgota, mas a ela se acrescenta).

Para ele, relacionar entre si disciplinas teóricas supõe que se defina a partir de onde, de que recorte e visada epistemológica tal relação se estabelecerá. Assim, as particularidades dos estatutos da psicanálise e do direito tendem a promover deslocamentos de sentido na noção de epistemologia, apontando para um além (ou aquém) de sua acepção habitual de crítica do conhecimento cientifico (princípios, métodos, hipóteses, resultados).

Nesse rumo, para Marques Neto, a psicanálise e o direito não são ciências (acepção neopositivista), mas discursos teóricos rigorosos, pois uma ciência não existe por si mesma, mas dentro de uma comunidade de saber, da qual depende, e a interdisciplinaridade só existe na medida em que é construída. Portanto, não é uma panacéia científica que pudesse de antemão garantir resultados, e, do êxito de um empreendimento interdisciplinar, somente a posteriori se pode falar.

Assim, uma articulação interdisciplinar se faz mediante recortes, e cada recorte abre a possibilidade de campos epistêmicos novos e imprevistos. A noção de interdisciplinaridade comporta o que o discurso e o campo de uma disciplina teórica podem afetar pelo discurso de outras disciplinas, mas essa relação não deve ser entendida como sendo recíproca e simétrica.

A atitude fundamental de investigação consiste em indagar da possibilidade de discursos, questões, enfoques, perspectivas oriundos do campo de uma dessas disciplinas, afetarem o campo da outra. E, isso pode ser feito de várias maneiras.

Por trás do cogito ergo sum [penso, logo existo], qual o núcleo subversivo capaz de fornecer um ponto de apoio indispensável para um novo projeto de esquerda que o próprio sujeito cartesiano guarda como o grau zero radical da política emancipatória?

 

NETO, Agostinho Ramalho Marques Neto. Et ali Direito e Neoliberalismo – elementos para uma leitura interdisciplinar, Curitiba: EDIBEJ, 1996

 

NOTA #3 [20/05/16] (RJ II)

Sobre a discussão de frentes e formas de luta: Não concordo com a premissa de que temos que lutar por um projeto desenvolvimentista e reformista em busca de trabalho para os não-rentáveis e redistribuição de renda. Não há mais possibilidade de retomar uma luta por trabalho e contra a desigualdade crescente de renda entre as classes sociais. Historicamente essa luta já se demonstrou perdida. Na década de 80, com o declínio do Welfare State europeu e o desenvolvimento tecnológico, há uma ascensão cada vez mais aniquiladora da concentração de renda e do desenvolvimento tecnológico que desengata um implosão de indivíduos sem formação e sem emprego em razão da ausência de demanda por mão de obra, ainda mais as desqualificadas e não técnicas. Devemos acordar desse sonho reformista, pois essa já é uma luta perdida. Nesse sentido realmente a história acabou. As crises de 1971 e 1973 e o desmantelamento do Estado de Bem-estar Social nas últimas 4 décadas está sacramentando, de fato, o Fim da História. É preciso romper com essa determinada linha histórica e fundar uma nova História. O Espírito do Tempo agora só caminha para o desastre e não há reforma ou algum tipo esquizofrênico de desenvolvimentismo que o tire dessa rota.
Como foi dito no Colóquio em São Paulo: ou o futuro será comum, ou não haverá futuro de forma alguma.
Só teremos um futuro se houver revolução. Nos engatarmos nos mecanismos de reprodução da lógica do Capital para operacionalizarmos essa revolução talvez seja justamente um movimento contrarrevolucionário e catastrófico.
Precisamos pensar em formas alternativas de organização da estrutura social para pensarmos numa conjuntura de transição.
PS: À camarada Priscila, obrigado por ter nos contado brevemente sobre a sua reunião com o Alysson Mascaro. Confesso que fiquei surpreso de saber que o “jurista da esperança” tem um pé – ou quiçá o corpo inteiro – no pessimismo (realismo?).