NOTA #3 [21/01/2016] (SP)

O debate acerca da criação de uma associação do CEII tem levantado questões importantes a respeito de nossa organização
Chamou-me atenção a ampla demanda do grupo por respaldo jurídico, por formalização. Como advogado, de esquerda, aprendi a desenvolver repulsa pelo zelo jurídico e a descartar as falsas esperanças de que o direito burguês possa nos oferecer algo de util. Se é que não nos oferece precisamente o contrário do que uma esquerda comunista possa querer…
Entretanto, é patente a demanda por juridicização. E eu a entendo. Há ai para o grupo um prestigio, uma “segurança”, uma formalização. Sobre esta ultima, aqueles que estudam Badiou, sabem o valor.
Porém, que tipo de formalização queremos? É necessário nos inclinarmos às formas jurídicas? Elas por si resolvem algum problema? Para mim, é ai que reside a questão.
Um coletivo necessita de seus ritos, formalidades e práticas para que seja um coletivo, para que essa miríade de particularidades se afinem sobre uma universalidade tal. Porém, quais são as consequências de um coletivo incluir em seus ritos, formalidades e práticas, um conteúdo jurídico? Que sujeitos vêm dai?
Parece-me que uma boa relação com o direito, só pode ser uma que o subverta, que lhe arranque os propósitos, e acima de tudo, que preserve as formalidades de uma organização, para que possa preservar seus sujeitos, enfim, seu processo de subjetivação.
O conteúdo jurídico busca sempre o sujeito de direito, que é o anverso da mercadoria. Isso é uma formula. Quando criamos um contrato social, indicamos sujeitos para cargos de gerencia e representação. Para o direito é impossível que um coletivo faça sua gestão coletivamente. É preciso individualizar os homens…
Assim, minha defesa, é no sentido de que devemos manter o direito longe de nós. Ou o mais longe possível. Com as menores implicações possíveis para o grupo, sob pena de modificar o processo de subjetivação do CEII, e assim de seus propósitos: ser um laboratório de experiencias em organização

NOTA #2 [21/01/2016] (SP)

Novamente saio da reunião com a sensação de que as coisas estão andando, o debate acerca da questão financeira sem dúvidas proporcionou um salto muito grande para o coletivo. No entanto, acho que é tempo de retomarmos nossa leituras, essas são importantes não só para guiar nossas organização, como orientar os nossos debates, como foi o caso da última reunião em que nos debruçamos sobre o tema das manifestações do MPL.
Pós-reunião tivemos a notícia da possibilidade de nos reunirmos em uma sala, sem custos, na região central de São Paulo – penso que esta é uma oportunidade que não podemos deixar passar.

NOTA #1 [21/01/2016] (SP)

Na reunião do dia 21.01.16 discutíamos os modos de financiamento da nossa célula. Faltava uma quantia em dinheiro e pensávamos nas saídas possíveis para o impasse. Foram sugeridas algumas: a) que quem se voluntariasse pudesse contribuir com uma quantia a mais no mês que fosse necessário; b) uma contribuição compulsória a mais que fizesse render um pouco o dinheiro no tempo/poupança; c) abrir para o coletivo em busca de um modo coletivo-nacional de encontrar alguma saída ou d) se seria possível buscar outros modos de sustentação financeira. Alguns dos nossos membros se disponibilizaram a arcar com um pouco mais dos custos para que o espaço pudesse se manter e, então, as reuniões fossem realizadas. Durante a semana aconteceu de um camarada ter conseguido um espaço sem custo para que as reuniões se realizem. Entretanto, um dos camaradas havia marcado que a solução financeira não poderia ser permanente ou um modo de nos acomodarmos e não buscarmos outras alternativas de espaço ou de saída coletiva para o levantamento financeiro. Seguindo, discutimos que o principal seria termos um financiamento somente voltado para a sala. Dentro disso, fico pensando que diante da possibilidade de encontrarmos um local sem custo, chegaria ao fim o problema da arrecadação financeira de nossa célula e, então, a ‘tarefa’ dos custos estaria finalizada. Neste sentido, o que seria um problema financeiro estaria resolvido com a solução de termos uma sala sem custos? Estariam suspensas nossas contribuições? Não é importante que a célula tenha algum dinheiro em caixa para qualquer problema financeiro eventual? Se não, quais são as razões para isso? E se mantivermos as contribuições, como encaminharemos o destino do dinheiro arrecadado?

NOTA #7 [14/01/2016] (SP)

As questões de ordem prática voltaram a tomar todo o tempo da reunião o que reforça o momento do grupo, de passagem, amadurecimento.

Foi, para mim pelo menos, estranha a proposição do secretário geral acerca da anistia geral nas notas em atraso, aprovado no CEII RJ, e reprovado – por votação –  nesse grupo. Não ficou claro o motivo, subjacente, à reprovação. Trata-se de marcar uma posição de reforço da necessidade de mais disciplina dos membros? Um momento de dissidência em relação ao CEII RJ? Uma questão política?

Penso ser importantíssimo ler mais, principalmente tomar mais contato com o pensamento de Gramsci antes de me aventurar com Badiou e Zizek. Essa “ficha” meio que caiu quando escutei as bombas do outro lado da paulista.

Para pensar em organização política, ou como se pode levar adiante a hipótese comunista em uma sociedade que preza o individualismo, muito bem disseminado pela mídia hegemônica?

Teriam os comunistas que abandonar um projeto de poder e se aliar a algum projeto já existente? Recente em nossa história, o PT ousou levar seu projeto de poder às últimas consequências. Bem, foi o único a fazer, correndo o risco de errar – e errou feio – mas experimentou.

Mais dúvidas ainda…

NOTA #6 [14/01/2016] (SP)

Será interessante notar qual será a relação entre a “fachada jurídica” trazida pela criação de um estatuto social para o CEII.

Apesar de o tom da reunião dos participantes envolvidos na confecção do documento ser de que o CEII manterá uma certa autonomia frente ao seu estatuto jurídico, alguns pontos necessariamente demandaram uma deliberação, principalmente, primeiro, a necessidade de uma nomeação para cargos e posições, e, segundo, aqueles que forem efetivamente nomeados responderam juridicamente pelas obrigações assumidas pelo CEII.

NOTA #6 [26/11/2015] (SP)

A criada culta do capital-parlamentarismo: política, filosofia e fracasso em Badiou

A noção de fracasso na política adquire, de forma genérica, certa semelhança aos “processo de verdade” quando esbarram em “obstáculos históricos”. Esse “ponto” de ignição (grifo meu) é, na verdade, o momento de um “processo de verdade”, resultado de uma escolha binária, que decide, por sua vez, o curso de todo movimento em que o processo está sujeito.

Todo fracasso, a princípio, remete a uma interpretação equivocada sobre um determinado ponto. Todos podem ser encontrados em alguns desse pontos. Ele, o fracasso, é uma lição incorporada à universalidade, sempre positiva, na construção de uma verdade. Pode-se reconstituir o ponto no qual encontra-se a escolha inadequada. Em outras palavras, podemos encontrar este ponto, no qual o fracasso está situado, na “correlação entre uma decisão tática e um impasse estratégico” (pg. 13).

Devemos pensá-lo, segundo Badiou, de maneira topológica, ou seja, colocando o exemplo do “léxico militar” à parte, nas raízes do conceito de ponto (temporal e histórico) encontramos seu enunciado primeiro: o fracasso só ser pensado topologicamente, pois, “os pontos de um mundo formam um espaço topológico”.

NOTA #5 [14/01/2016] (SP)

A questão financeira tem embaralhado os centros de operação do ceii, permitindo, assim, uma revisão das nossas formas de funcionamento, por conseguinte, tornando possível pensar as organizações institucionais e os impactos subjetivos que o grupo produz nos participantes. Não me parece ser da ordem de uma circularidade imprópria, que gira em torno de si mesma, incapaz de produzir novas formas de sentidos grupais. Na verdade, acho que os tateios do grupo tem sido fundamentais para pensar questões do tipo: institucionalizar o ceii, a partir da criação de um CNPJ, para abertura de conta e descentrar o recebimento das contribuições. A insistência de que o ceii não esteja no nome de ninguém, é um passo importante para resolver, pelo menos a princípio, as recorrências do duro processo de rotacionar cargos. Se estes eram justapostos em um nome próprio, talvez o grupo consiga fomentar recursos subjetivos para novas formas de inscrição política no coletivo. Distingue, assim, a ordem econômica do grupo e a questão política. A primeira se refere aos aspectos objetivos necessários para que o ceii funcione como um coletivo: arrecadamento de dinheiro, aluguel de sala, a ocupação e interesse de ao menos duas pessoas nas funções do ceii, etc., e a última é o caráter propriamente inovador do coletivo, que internamente, tem tentado dissolver certos impasses, que não tem nenhuma identidade como substrato institucional, mas ao contrário, a própria “institucionalidade” é de que ele seja plástico e movível.
Acho que sustentar esse aspecto de movimentação seja um importante índice de salubridade do próprio grupo.

NOTA #5 [17/12/2015] (SP)

Sofirmento Psiquico versus Falácias ideológicas: Discurso da Adaptação e perpetuação da desigualdade por Rodrigo Gonsalves

Sentado em um café enquanto pesquisava para o meu mestrado, dois homens, um de blazer e calças sociais e o outro, de camisa social e calças sociais, passam a papear sobre alguns problemas que habitualmente chamam minha estúpida e curiosa atenção. O jovem sem blazer dizia algo como: “Ah! O fulano começou a ficar com depressão, estava sem animo e sem propósito em sua vida, dizia que queria ir para a Austrália e lavar pratos buscando uma vida melhor”, que fez, quase como automaticamente saltar os olhos do rapaz de blazer que entoa em monotonicamente suas premissas: “Você viu só! Que desperdício este tipo de coisa, a pessoa está querendo abrir mão de si mesmo e ir para a Austrália! Austrália! E para lavar pratos! Não, completamente enganado!” e seguido assim, das suas máximas doutrinadoras: “É justamente por isso que ele realmente precisa deste Coaching – o fulano está sem metas – é isto que ele precisa, encontrar as suas metas para poder produzir”. É quando o jovem aponta para um outro elemento, até então, velado da conversa: “Mas o fulano disse que estava passando por uma crise existência, que estava sofrendo justamente como as coisas estavam para ele”. O coach oportunista vê nesta fala o convite para o seu pitch de negócios: “Ah! Crise existencial, essas aí são as minhas favoritas para tratar! É só colocar as regras do coaching, estabelecer quais são os são padrões e objetivos, definir quais são as metas para que ele possa sentir-se apto novamente à conseguir produzir, conquistar essas metas. Fácil! Fácil!”

O rapaz mais jovem, não desaprova as enérgicas colocações do homem do blazer entretanto, não às opõe forçosamente, apenas colocar mais informações que, de algum modo, pareciam não fazer caber diante do que ele mesmo estava ouvindo deste “mestre da realidade”. Ele então coloca: “Não sei se ele está conseguindo fazer isto, ele não sabe o que quer… estava pensando em procurar por uma ajuda psicológica…” Mas como sabemos, um ardiloso mestre, não abre mão da fantasia de sua coroa com tamanha facilidade, o artífice de blazer lhe diz: “Psic-quê? Bobagem! Isso é coisa para louco! Ele não está louco – só precisa achar o que fazer da vida. Então o problema dele nada tem a ver com o Coaching, ele está precisando mesmo é de um Mentoring! Ele está buscando alguém que possa lhe passar quais são os seus objetivos de vida e não só as suas conquistas profissionais. Bem, esta é outra função que eu executo muito bem!”. É quando o homem de blazer saca dos seu kit-RH o seu cartão de contatos e com todo o ar impetuoso de quem não questiona em momento algum ter todas as respostas da verdade humana, diz ao jovem: “Peça para ele me ligar, combinamos um preço bastante camarada e assim, seguiremos.” Ambos se levantam, se cumprimentam e partem.

Bem, o homem de blazer ao sair do café conseguiu quase derrubar uma mesa ao não conseguir “caber” dentro do próprio recinto (nem dele mesmo), conquistando assim um strike de algumas xícaras e talvez, se lembrando mesmo que por uma hiância de sua própria incongruência e humanidade… Entretanto, ao invés de me satisfazer com essa pequena demonstração kármica, penso que a situação como um todo tem alguma possibilidade reflexiva extremamente mais prudente e notória. Trago aqui alguns dos pontos dos quais podemos tomar como criticamente fundamentais na situação em questão: 1. O discurso vigente da compreensão do sofrimento psíquico; 2. Adaptação moral x Subjetivação e Singularidade; 3. Reiteração dialética ou tamponamento emergencial da sutura.

Enquanto o ponto número um, é claramente o mais trabalhoso dos três, mas podemos prescrever claramente como a escola frankfurtiana, em especial o texto de Theodor Adorno, Ensaios sobre psicologia social e psicanálise (2015) e outro de sua parceria com Max Horkheimer, a Dialética do Esclarecimento (2006); já possuem grande parte dos ingredientes necessários para alcançarmos o caldo crítico que nos ajudaria a termos um insight vital desta situação em questão. Entretanto, para suplementar tal mistura, se faz necessário também o uso dos ‘anti-oxidantes’ e ‘radicais livres’, do métier lacaniano que encontramos ao longo da obra de Slavoj Zizek.

Bem, agora que definimos a nossa cozinha, vamos ao prato do dia “o discurso vigente da compreensão do sofrimento psíquico”. Corriqueiramente se confunde ideologicamente no cotiano humano atual, dois termos filosoficamente fundamentais: ser e ter. Podemos resgatar a compreensão do fetichismo com que podemos denotar como as coisas passam a adquirir esta força maior do que si mesmas – mas também, como aponta Zizek (2001) em sua leitura de Marx, há uma relação mais complexa que se afirma no consumir humano. Entram aqui os elementos da fantasia, do ideal de eu que se imprime no adquirir e no consumir, melhor diznedo, uma forma de ser que se vislumbra atingir por meio do ter – e tão logo essa equação se apresenta, o que temos é a receita da alienação na modernidade. Onde aqueles de caso sabido, fazem o que fazem, parafraseando a inversão de Zizek à famosa máxima de Marx (op.cit, 2001).

Sendo assim, a maneira de expressão de satisfação está imbuída das máximas mercadológicas e da satisfação mercadológica, são aquelas boas e velhas receitas prescritas pela moral vigente para se viver uma vida em estado semi-vegetativo (ou zumbificado) que tem como objetivo maior responder as seguintes perguntas: “como eu posso obter viver uma vida só tendo prazer?” ou “como eu posso viver a minha vida sem precisar sofrer?” Nada como mais um mestre que possa dizer exatamente o que eu preciso e assim, me alienar um pouco mais. Entretanto, no campo político e ético do desejo, há um risco nefasto desta subserviência voluntária. Se apagam os traços de possibilidade singular em nome da discursividade placada da moral vigente. O que se torna fundamental é apenas atender ao chamado do que é esperado daquele trabalhador, daquele consumidor e se perde o que poderia haver ali de humano ou com valência emancipatória.

Todos os instantes passam a ser coptados pela organização administrada, a lógica do condomínio (DUNKER, 2015) já implica no modo placada do como se deve viver, no como se deve relacionar, no como se deve… São as novas redomas que aprisionam hoje, mas não sem a vontade dos indivíduos em questão – são estes que fazem questão delas. Não se quer ver, não se quer entrar em contato, não se quer se saber absolutamente nada sobre isto, não se quer ouvir nada disto. É justamente a aplicação do “eles lá e nós aqui”, um joguete dialético que tenta materialmente escamoteiar a luta de classes e acaba apenas intensificando a sua própria lógica. Os traços subjetivos disto apenas podem se extremar, tanto para os que estão confortáveis com a invisibilidade, quanto para os que apenas querem poder ser aqueles que um dia poderão também fechar os olhos.

ADORNO, T.W. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo. Unesp, 2015.

ADORNO, T.W.; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro. Editora Zahar, 2006.

DUNKER, C. Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma. São Paulo. Boitempo, 2015.

ZIZEK, S. Mapa da Ideologia. 2001.

NOTA #4 [14/01/2016] (SP)

“A grandeza de Freud, tal como a de todos os pensadores burgueses radicais, consiste em que ele deixa tais contradições irresolvidas e recusa pretensão a uma harmonia sistemática onde a própria coisa encontra-se cindida em si mesma. Ele torna evidente o caráter antagênico da realidade social, até onde é possível à sua teoria e à sua praxis no interior de uma divisão de trabalho predeterminada. A incerteza da própria finalidade da adaptação, a desrazação da ação racional, que a psicanálise revela, refletem algo da desrazão objetiva. Elas se tornam uma denúncia da civilização” (ADORNO, 2015, pp. 68-9).
De um pensador burgues radical, para outro. Adorno consegue perceber em Freud o que é marcante enquanto um de seus pontos cegos, mas o próprio também não localizou grande parte de sua própria incongruência. Enquanto os terrores da USSR estava ocorrendo, nenhuma palavra fora proclamada por parte deste. Nenhuma obra tomou sua atenção aos eventos da união soviética, apenas um sintomático silêncio, postura completamente distinta deste que por tantas vezes problematizou, denunciou, criticou e desmantelou o nazismo. Esse movimento não é sem problemas, há algo na esquerda de não conseguir lidar com algumas questões e alguns de seus pontos cegos. Este é um caso típico desta situação. Não por um movimento de silenciar por apontar suas intenções diante dos eventos, é simplesmente um silêncio destes que ao se horrorizarem, apenas sente o frio em suas espinhas, mas as palavras faltam. Pois bem, quando Adorno se cala, nós que não consentimos aprendemos. O que podemos aprender com o silêncio de Adorno? Bem, algumas coisas, a primeira e mais importante é sempre tentar fazer valer o trabalho “Ghostbusters” que é a nossa caça aos fantasmas, que poderiam realmente colocar em questão ou apenas, permitir que algo seja dito em relação aos eventos dos quais a própria esquerda sente tanta dificuldade em falar. Mas gerar este espaço não garante que o movimento de re-significação simbólica consiga se fazer – a auto-crítica por si só não garante que se dissolvam as questões sintomáticas do autoritarismo ou das paixões. Há sim um trabalho à ser feito. Este trabalho para além do espaço produzido para que se possa se versar sobre estes fantasmas, é justamente o mitigar lendo da organização, que já ciente dos riscos do autoritarismo – não tem medo de que ao juntarem mais de 4 pessoas – já há um proto-stalinismo prestes a se desencadear. Entretanto, esse movimento não se dá por ingenuidade em pensar que isto nunca irá acontecer, mas por se saber que isto já acontece ou que acontece o tempo todo. Não se trata aqui de um risco por marcar o fingimento de que todos são iguais, mas por não se enganar acreditando nisto. Não somos todos iguais. O ponto é trabalhar com que essas diferenças não congelem o caminho em nome daquilo que é comum: justamente pois, como nos coloca Badiou, se faz necessário dar uma sólida existência subjetiva à hipótese comunista (Badiou, 2012). Justamente nessa experimentação dos fragmentos de verdades (locais e singulares) e universalmente transmissíveis, encontramos os meios de garantir a nova existência da hipótese comunista, da Ideia comunista, nas consciências individuais. É o que está justamente se desenhando como os desafios da subjetivação atual e, uma aposta é justamente na possibilidade de tratarmos as diferenças e os pontos cegos, como questões de análise que precisam ser dissolvidas coletivamente uma vez que são gerados exatamente desta maneira.

ADORNO, T.W. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo. Unesp, 2015.
BADIOU, Alain. A hipotese comunista. São Paulo, Boitempo. 2012

NOTA #3 [14/01/2016] (SP)

Na última reunião fomos interrompidos por conta de explosões, são os tempos atuais dentro das condições atuais de SP, a polícia fazendo o que é esperado dela enquanto este braço do Estado, agindo enquanto AIE (Althusser, 1996) e então, os manifestantes estavam lá, se manifestando. Mas o que estava sendo manifestado lá? Como hoje se consegue separar legitimidade em uma reinvindicação de uma possibilidade de um flashmob pseudo social (se é que algo assim existe…)? Entretanto, se as condições atuais e o espírito do tempo nos permitem colocar uma questão assim, logo, há muita coisa em jogo. As operações ideológicas apenas se intensificaram. Os órgãos de mídia televisiva perpetuam a lógica da dominação em nome da perpetuação de sua própria existência e o ciclo vicioso do controle ideológico apenas cumpre sua própria agenda. A política hoje tem todas as instruções necessárias, tem o treinamento necessário para dispersar, para dissipar e desmantelar uma manifestação. Os movimentos sociais ao seguirem a cartilha dos anos 60, 70, 80 e 90 do manifestar, não tem condições de escaparem do óbvio desfecho desses encontros em massa: serão rechaçados pelo estado. E ao leitor que leu isto, já começou a se coçar com os pensamentos: “Ih! Que papo mais reaça!” ou aquele niilista mais razo “Então, devo desistir de tudo e ver uma tevêzinha” – Não! Não é este o ponto dessa reflexão, o que está sendo posto em questão aqui é para além do pensamento binário que habitualmente é aplicado para pensar a política. Há um problema complexo no cenário atual, com camadas de questões que precisam ser pensadas: 1- Como operar com essa fauna ideológica que hoje temos no cenário político? 2 – Como pensar as relações entre movimentos sociais e partidos políticos? 3 – Como pensar o sucesso de um movimento social? 4 – Como pensar a derrota de um pensamento político? 5 – Haveria um modo diferente para pensar a reinvindicação política?
E é justamente em nome disto que a reflexão se dirige, as perguntas estão sendo postas em nome daquilo que está é claro como cristal nas manifestações atuais e que, Stalin já sabia em seus tempos de Koba, este modo de manifestar não atinge nenhuma das camadas das quais deveria. Não implica em mudança nem para as camadas menos privilegiadas e pobres, que apenas vêem os malefícios de não conseguirem voltar para casa depois de um dia infernal de trabalho e menos ainda, aos detentores dos meios de produção que estão satisfeitos em seus escritórios, em seus carros/helicópteros e simplesmente, não se afetam com as raves populares. Obviamente que o pensamento crítico e a insatisfação são necessárias, mas é mais óbvio ainda que o ato de ir de casa para apanhar da polícia, não está resultando em nada. Enquanto o Movimento Passe Livre brinca de satisfazer a esquerda ovo frito e os uspianos que leram muito Gramsci, talvez pudessem colocar um pouco em perspectiva se as suas táticas estão realmente mobilizando as frentes da qual a estratégia versa. O se fazer manifestar precisa mudar, não se trata de questionar à luta, mas o modo de lutar. O que podemos pensar sobre isto em nossa próxima reunião?
Althusser, L. Aparelhos Ideológicos do Estado. 1996