Nota #8 [18/08/2015] (RJ I)

Imagino um partido que ao invés de parlamentares, tivesse administradores, advogados, médicos, psicólogos, encanadores, engenheiros, padres, pastores, xamãs, etc. Para um tempo de dissolução dos laços, de incerteza sistêmica, de crise perpétua, um partido revolucionário deveria ser, antes de mais nada, um partido preocupado com a construção de laços e de mecanismos de reprodução social. Uma mistura de arca de noé com igreja – de profecia apocalíptica do velho testamento com o amor cristão. Não precisaria ser um partido político no sentido de disputa de eleições – só quando fossemos capazes de contar, dentre as vocações, mas sem despontar como uma exceção dentre elas, o “político profissional”.

Nota #7 [18/08/2015] (RJ I )

Discutimos rapidamente no facebook e agora é hora de pensarmos com mais calma no assunto: como será o evento lá em São João del Rey? Sabemos a data: dia 24 de Outubro. Agora falta:

1. Trabalhos

Pensamos em três mesas para o evento:

(i) “Comunismo para além do totalitarismo” – essa seria focada no fantasma do totalitarismo e em preparar o terreno para explicar porque a psicanálise e a política emancipatória podem ir juntas
(ii) “Desejo e comunismo” – aqui já apresentaríamos ideias que falam de maneira mais afirmativa sobre o laço entre psicanálise e política, pode ser tanto criticando o presente quanto usando a psicanálise pra imaginar uma utopia, sei lá.
(iii) “Psicanálise e militância” – a ideia aqui é pensar a prática política usando a psicanálise.

A ideia é que cada mesa tenha 3 ou 4 trabalhos – criamos esse documento aqui pra todo mundo ir inscrevendo suas propostas: https://docs.google.com/spreadsheets/d/1AjMs6HigRW-bwg2GCPCD7bldGd3hT3Dt5Hr2dt2P1mQ/edit#gid=0

2. Logística:

A viagem pra lá, saindo do Rio, demora em torno de 5 horas de carro. Olhando rapidamente, vi que passagens de ônibus saem em torno de 90 reais. Avião sai uns 250 reais. Além disso, seria preciso resolver a lista de quem vai de antemão, para podermos nos dividir entre quem vai de carro, quem vai de ônibus (saindo do Rio ou de São Paulo) e quem vai de avião. E aí ver quem pode ajudar os camaradas com o preço da passagem também.

Teríamos que ver onde ficar também. Se formos em 9 ou 12 pessoas, pode ser que seja mais em conta alugarmos uma casa pra ficar pelo fim de semana.

Assim que soubermos os trabalhos, o número de participantes e de onde cada um vêm, podemos pedir ajuda financeira para a Universidade também.

3. Propaganda

Uma vez confirmado tudo isso, aí é hora de pensarmos (a) como divulgar o evento antes e (b) como criar material a partir dele para divulgar a conferência internacional depois.

Nota #6 [18/08/2015] (RJ I)

“O ‘POLITICISMO’ ATRAVESSA O RUBICÃO OU A RECEPÇÃO DA CRÍTICA DO VALOR NO CEII”

(Diretrizes de pesquisa para um Subconjunto de Prática Teórica em formação)

Slavoj Žižek, um dos nomes próprios que subsidiam o Círculo, colocou um problema cujo enfrentamento é nada menos que crucial para a teoria e a prática anticapitalista de nosso tempo. Trata-se da paralaxe marxista entre economia e política (Žižek, 2006). Este problema pode ser retomado por outro ângulo quando nos deparamos com a abordagem da Nova Crítica do Valor (Jappe, 2006). Com efeito, mais do que apenas um ângulo distinto, este encontro pode ser ainda mais iluminador dos impasses atualmente vivenciados na teoria e na prática anticapitalista quando colocado sob os efeitos catalisadores da crise econômica e ecológica de nosso tempo, tema candente de ambos os ângulos que aqui se pretende espreitar.

Pois bem. Na produção interna e externa do CEII, subsidiada pelos nomes próprios de Giorgio Agamben, Alain Badiou, Jacques Rancière e Slavoj Žižek, há um intenso engajamento crítico com a Nova Crítica do Valor, e especialmente com Moishe Postone, Robert Kurz e Anselm Jappe, constantemente lidos e citados por diversos membros do Círculo – portanto, a Nova Crítica do Valor também “circula” no CEII. Isso é curioso, pois os autores que subsidiam o Projeto não mantêm em suas obras um “diálogo” com a Nova Crítica do Valor – com a exceção de um capítulo da prolífica obra de Žižek.

Haveria neste curioso fato algo além de uma casualidade? Ou, para além disso, teria a atividade teórico-crítica do CEII começado a construção de uma ponte, larga o bastante para permitir o trânsito em duas vias, entre a crítica do valor e as filosofias políticas da organização comunista? Esta ponte é (ou será) segura, promissora, necessária, estratégica?

Nossa hipótese inicial é a de que a crítica feita por Kurz ao “politicismo” do marxismo tradicional (2007), não se aplica a uma abordagem que leve em consideração a crítica do fetichismo das formas sociais da produção sistêmica de mercadorias como a que circula no CEII. Além disso, com efeito, a noção de “antipolítica” ensaiada pelo próprio Kurz (1997/2002) é insuficiente para a transição entre as “lutas imanentes” e a “desvinculação” emancipatória do Estado e do Mercado por ele defendida. Isso nos leva a pensar e agir seriamente na construção de uma ponte entre a reconstruída crítica da economia política postulada pela Nova Crítica do Valor e as filosofias política de organização comunista, ponte cujo delineamentos iniciais já começaram a “circular” no CEII.

Já cruzamos o Rubicão e não há mais volta: Alea jacta est

 

 

REFERÊNCIAS INICIAIS

JAPPE, Anselm. Aventuras da Mercadoria. Lisboa: Antígona, 2006.

KURZ, Robert. Cinzenta é a árvore da vida e verde é a teoria. Disponível em: http://obeco.planetaclix.pt/rkurz288.htm (2007)

___________. Antieconomia e antipolítica. Disponível em: http://obeco.planetaclix.pt/rkurz106.htm (1997/2002)

ŽIŽEK, Slavoj. A visão em paralaxe. IN SADER, Emir. Contragolpes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.

Nota #5 [18/08/2015] (RJ)

Sou a favor de pautarmos logo que o CEII tem uma relação não exclusiva com o PSOL. Até hoje pautamos essa questão dividida em três partes: temos relação com a forma partido? temos relação com partidos realmente existentes? temos relação com o PSOL? Hoje acho que a resposta deveria ser: sim, por favor! Deveríamos promover atividades no PSOL, no PSTU, no PCB, bem como levar a sério a tarefa de inventar novas apresentações da forma-partido. Pessoalmente, me interesso cada vez menos pelo PSOL e cada vez mais pelo trabalho com o pessoal do Maré Vive, que parece mais capaz de pautar as questões econômicas da classe trabalhadora do que nossa atividade junto a US ou o BE no PSOL.

Nota #4 [18/08/2015] (RJ I)

A atividade intelectual funciona bem dispersa – a pesquisa teórica pode ser solitária e é inclusive nesse formato que normalmente ela se mostra mais consistente (pelo menos para o próprio autor) –  mas a ação política precisa ser coletiva. Sinto que o CEII ainda encontra muita dificuldade em organizar ações coletivas, mesmo que pontuais. Até mesmo atividades acadêmicas em grupo são muito difíceis de coordenar – quiçá a atividade em núcleos de base. Sinto que é preciso pautarmos isso de uma nova maneira, pois motivamos os membros do CEII no caminho da prática coletiva, mas na maioria das vezes não somos capazes de dar consistência a essa motivação, que acaba sendo levada a cabo por indivíduos dispersos.

NOTA #3 [18/08/2015] (RJ I)

Editora é uma idea legal. Por sinal a editora francesa La Fabrique tem uma série totalmente dedicada à edição “independente”: http://www.lafabrique.fr/catalogue.php?idMot=6

Posso tentar desenrolar alguns desses livros e transmitir o conteúdo deles. Ou se não, caso a ideia vá para frente, acho que vale a pena eles serem adquiridos pelo CEII.

Lembrando que, além de traduções é possível também editar os livros/teses dos companheiros do CEII.

NOTA #2 [18/08/2015] (RJ I)

389. Ideia, comunismo, erro, ficção[1]

 

“Se você age como se fosse verdade,

não importa se você sabe que é mentira.”

“…a História sempre nos dá uma nova oportunidade de errar.”

(Rafael Oliveira, Secretário-Geral do CEII)[1]

“Tudo desde sempre.

Nunca outra coisa. Nunca ter tentado.

Nunca ter errado. Não importa. Tentar outra vez.

Errar outra vez. Errar melhor.”

(Samuel Beckett, Pioravante Marche)[2]

 

O trabalho procura pensar a relação que Badiou estabelece entre “comunismo” e “Ideia”. “Ideia” é uma operação que formaliza o encontro entre universal e singular, eterno e temporal, infinito e finito. “Comunismo” é o nome dessa operação na política (emancipatória) concebida como (processo de) verdade. Contudo, o comunismo não seria o télos necessário da História, preconizado em certas interpretações marxistas. Pois a (criação de) verdade(s) depende da dupla contingência do evento que a propicia e da militância que, declarando o evento, trabalha disciplinadamente nas consequências deste. E se “trabalhar” significa aqui propor/viver uma vida estruturada pela Ideia e diversa do “capital-parlamentarismo”, pergunta-se: que vida (coletiva) propõe o comunismo (da Ideia)? Assim, cabe perguntar: 1) O que é Ideia? Que operação acontece aí? 2) O que é Ideia de comunismo? Que peculiaridade essa operação tem na política? 3) O que é comunismo da Ideia? Que significa viver (coletivamente) por uma Ideia?

 

(…) o que, para nós, significa perguntar: o que a Ideia de comunismo tem a ver com o comunismo da Ideia? A resposta direta é: a Ideia de comunismo é (também) a Ideia de um comunismo da Ideia. Vejamos, em linhas gerais, o que isso pode significar.

 

Badiou denomina a convicção que domina o mundo contemporâneo de “materialismo democrático”; ela poderia ser resumida no encunciado: “Não há mais que corpos e linguagens”. A essa máxima, ele opõe a que sintetizaria seu pensamento, que ele denomina “dialética materialista”: “Não há mais que corpos e linguagens, senão que há verdades.” O estranho “senão que” (sino qu’) que introduz o suplemento que promove a “transfiguração” do materialismo democrático em dialética materialista faz eco à estranheza mesma denotada pelo suplemento – sobretudo da perspectiva da convicção contemporânea. Ao falar da Ideia (de comunismo), vimos, posto que sumariamente, o que tal suplemento quer dizer.

 

Ora, se a operação da Ideia está ligada às verdades e se materialismo democrático não há verdades, isso quer dizer que para este não há Ideias. É por isso que Badiou pode dizer que a máxima dessa convicção (e, assim, da contemporaneidade, isto é, do capital-parlamentarismo) é: “Viva sem Ideia”. A isso, a dialética materialista oporia a compreensão de que o viver em sentido próprio, e não meramente sobreviver enquanto animal humano, é viver por uma Ideia. Nesse sentido, se o comunismo pensa uma vida outra que a do capital-parlamentarismo, o que dá a alteridade desse outro é precisamente a operação da Ideia.

 

Todavia, como há verdade na arte, na ciência e no amor, aí também há Ideias. A diferença é, entre outras coisas, a de que a Ideia de comunismo, enquanto nome da política como processo de verdade, não só é universal no sentido de que é para todos, mas também no de que ela é (potencialmente) o pensamento de todos – de que é próprio a esse procedimento que todos sejam, em potência ao menos, militantes da verdade que está em questão aí. Não é isso que ocorre, e.g., na ciência: um teorema matemático é virtualmente destinado a todos, mas não é preciso que todos o confirmem – bastaria um outro matemático (Badiou, 2005, p. 142). É isso que significa, em última instância, dizer que a política (e propriamente só ela) diz respeito ao coletivo – que ela é, em verdade, construção do coletivo, pelo coletivo e para o coletivo. Fica em aberto se e de que maneira uma tal construção poderia se relacionar com os demais processos de verdade – se, e.g., ela poderia contribuir em algum sentido para o “acesso” à verdade dos demais processos.

 

Outra dificuldade se refere a uma nuance (ou mesmo uma ambiguidade) que parece haver no termo “Ideia” quando se fala aqui de “Ideia de comunismo” e de “Viver por uma Ideia”. Essa nuance é assinalada por Badiou quando ele nota que a Ideia tem um “valor operatório” e uma “forma imperativa” e que viver “em Sujeito”[3] pode querer dizer “como se fosse” (como na máxima “Viver em Imortal”, de Aristóteles, e viver “no” corpo-sujeito de uma verdade (2012, p.131, n.1; p.136, n.6). Se, quando explica a operação da Ideia de comunismo, ele parece insistir no seu caráter de “como se”, de ficção, quando ele fala da vida segundo a Ideia a operação aí em jogo parece antes o aparecimento mesmo da exceção no mundo do que um “como se”:

 

Se concordamos em chamar “Ideia” àquilo que, a cada vez, se manifesta no mundo – dispõe o ser-aí de um corpo – e constitui a exceção a sua lógica transcendental, diremos, seguindo a linha do platonismo, que experimentar no presente a eternidade que autoriza a criação desse presente é experimetar a Ideia. (2008, p. 560)

 

Todavia, a ambiguidade talvez possa ser aqui uma ambivalência: e se o “mesmo” aqui não for senão uma ficção – sem que isso queira dizer que ele seja “menos” que uma “verdade”? Nesse caso, teríamos uma ocasião para repensar o papel positivo da ficção, da fantasia e de suas “mentiras” naquilo que seria a nossa vida mais própria, isto é, a nossa vida na sua relação com aquilo que é eterno e universal. Aqui, uma boa companhia talvez seja mais uma vez a de Platão, na medida em que ele não apenas deu cidadania filosófica ao universal e ao eterno como fundamento de uma forma de vida mais própria; na medida em que ele não só talvez tenha sido o primeiro a pensar o melhor lugar desta vida como um comunismo (conquanto restrito) – mas também, e quiçá sobretudo, na medida em que ele escolheu fazer tudo isso na forma da ficção.

 

[1] Epígrafes, resumo, trecho de trabalho do Niep-Marx 2015



[1]              A primeira máxima se encontra em “MATERIALISMOHISTÓRICOOBJETIVO”, postagem no facebook de 08.03.15 a respeito da sentença “a prática como critério de verdade”. p. Única Cf. https://www.facebook.com/compay.oliveira/posts/846673562036972?pnref=story. A segunda se encontra em: https://www.facebook.com/groups/ideiaeideologia/permalink/485573018264014/.

[2]     Beckett, 1988. (adaptado) O “Tudo desde sempre” é a Ideia de Bem, em Platão, ou a Verdade, que Badiou põe no lugar da Ideia de Bem na sua transcriação da República de Platão (Badiou, 2014) – isto é, aquilo em direção a que a gente sempre erra.

[3]     A essa altura, dada a relação entre sujeito e Ideia, talvez convenha assinalar que a tradução do eidos platônico por “forma” não só não é casual, mas pode vir bastante a calhar. Pois o pensamento de e sobre um sujeito talvez só possa ser formal, ao menos na medida em que o traço deste é a singularidade. A coisa começa a decair quando se pensa em formular conteúdos substantivos a partir daí. Temos então uma curiosa (e perversa) reinversão hegeliana: é o sujeito (forma) que se torna, “decai em” substância (conteúdo). Por sinal, talvez seja essa a perversidade capitalista típica: os (possíveis) sujeitos tendem a ser reduzidos a mera substância, “coisa” reduzida a suas propriedades identificáveis e, em sua diferença, trocáveis, porque no fundo constituídas de uma mesma substância: “valor”, nos termos de Marx e da economia política. Nesse sentido, ser/ter (apenas) valor seria justamente a degradação mais baixa… Note-se que a perversidade está no “apenas”, e não propriamente no valor; na “decadência” que é o domínio exclusivo da substância, e não no ser substância enquanto tal. O valor ou, ao menos, a substância são fundamentais para o sujeito, mas o decisivo é não reduzir este àqueles – nem que o sujeito seja essa diferença mínima, propriamente de nada, entre a substância e ela mesma ou, mais precisamente, entre a substância e o (seu) ser. Esse nada, ou menos que nada, é que decide tudo aí. O segredo do “mais” do mais-valor talvez esteja justamente aqui: esse mais, que não é nada demais ou de outro (é e continua sendo valor), esse mais que, com o tempo, surge como que “do nada”, é o signo do sujeito.). Sobre a relação entre sujeito e singularidade, cf. anexo 1.