Referências [28/07/2015] (RJ)

CEII logo

Sobre a concepção de capitalismo contemporâneo em Negri:

GURGEL, Clarisse e MENDES, Alexandre Negri, Leitor de Marxdisponível aqui

Sobre o individualismo neoliberal:

HARVEY, David O Neoliberalismo: historia e implicaçõesdisponível aqui

Sobre o sofrimento de ter que ser único:

HONNETHAxel Sofrimento de Indeterminação – disponível aqui 

SAFATLE, Vladimir Grande Hotel Abismo – disponível aqui

Sobre a alienação da alienação – ou o “proletariado libidinal”:

ZIZEK, Slavoj Viver no fim dos tempos – disponivel aqui

Sobre a normatividade plural nas comunidades periféricas no Brasil:

FELTRAN, Gabriel Sobre periferias: Novos conflitos no Brasil contemporâneo disponível aqui

Sobre a relação entre opressão e exploração:

ARUZZA, Cinzia Considerações sobre gênerodisponível aqui 

WOOD, Ellen “Capitalism and Human Emancipation” em Democracy against Capitalism disponível aqui em inglês

 

Audio da reunião: https://soundcloud.com/ideiaeideologia/ceii-28-07-2015-rj

Ata da reunião: https://app.worklife.com/meetings/55b576c275c6636528c04a43

NOTA #4 [18/06/2015] (SP)

O espaço da ignorância

Dentro os mecanismo de participação do CEII, talvez um dos mais fundamentais seja a nota de trabalho, pois ela produze uma forma de engajamento através de uma produção prática – no que diz à forma – , além de possibilitar que a ignorância ganhe seu espaço devido – conteúdo, que também é forma. É interessante esse mecanismo, por justamente demarcar o lugar por excelência do CEII. Essa ignorância não diz respeito a conteúdos do que estão sendo discutidos, mas é uma forma posicional, pois a ideia é que quando se está diante do objeto em que se efetivamente se atua, em vez de se construir princípios pressupostos dentro dessa relação, o interessante é que o elemento da indeterminação possa continuar a insistir na própria inscrição do sujeito na ação.  Além disso, inscrever efetivamente essa ignorância em alguma lugar – no caso, as notas de trabalho – gera a possibilidade dessas mesmas questões serem retroativamente inseridas no próprio círculo. Por isso, a figura do Círculo é tão fundamental, pois refere-se ao modo como o coletivo tenta organizar sua relação com o outro. Outra aspecto importante que a nota de trabalho oferece é a disciplina. A crença em modelos de rigor institucionais também é outra marca do Círculo, pois a ideia é que o engajamento não se dê apenas por uma dimensão individual, em que o sujeito encontre no partido os elementos dos quais lhe interessam. Esse é somente um dos pontos. Pois a questão principal é como a instituição possa mediar a relação de um sujeito com outro sujeito, e essa relação possa ser de fato emancipatória.

 

NOTA #4 [16/07/2015] (SP)

Negri faz uma crítica aos autores que acreditam que é possível voltar a uma realidade pré-capitalismo (podemos assim chamar). Isto é, antes de o dinheiro controlar todas as relações, não apenas de troca, mas também entre as pessoas como faz hoje. Para além disso, e eu diria até mais complicado de se defender, o autor afirma que a experiência do comum está hoje no dinheiros, ou seja, na primazia do valor-de-troca em detrimento da falência das outras maneiras de se relacionar.

Por conta dessa predominância absoluta do valor-de-troca, para o autor, não é possível retornar ao um estágio pré-capitalista, é preciso para construir uma sociedade comunista, e para ele isto tem que se dar dentro da luta de classes, para ser comunista é preciso que se conquistar de volta o terreno dominado pelas forças capitalista com a ciência que o retomaremos como estão hoje, completamente “contaminados” pelo valo-de-troca. Tal retomada só é possível dentro da luta de classes.

Uma semana em Atenas

23/06/2015

O texto que segue é um relato de uma semana (15-20 de julho 2015) em Atenas, fui participar de um congresso que tinha por objetivo principal discutir uma possível “ascensão da democracia”, mas que pelo andar da carruagem e das circunstâncias históricas se tornou quase uma “frustração da democracia”, além disso é permeado de impressões e escutas de outros participantes, estrangeiros como eu, e de gregos, participantes ou não deste congresso.

XGRECIA

A primeira impressão é que o povo (seja lá o que isto for) estava mais preparado que o governo para qualquer tipo de enfrentamento e encarar eventuais duras consequência. A frustração não era apenas da esquerda mundial que aguardava e acompanhava com ansiedade o desenrolar da história. Uma coisa porém é certa, de forma geral, os gregos nunca entenderam o Syriza como sendo um partido de esquerda radical, no máximo de centro-esquerda. Existe uma herança comunista Grega muito forte e, segundo um amigo taxista, mesmo parcela da direita respeita os comunistas em razão da defesa que os partisans fizeram do país na 2a guerra mundial e, sobretudo, por terem conseguido bravamente expulsar os nazistas. Mesmo os herdeiros da reação monarquista vitoriosa, como bons e mortais inimigos, tem um certo respeito pelo KKE. Dias antes de chegar um amigo me relatou que o clima na cidade estava incrível, todos discutindo política em todos os lugares e horário, estavam todos concientes da importância do momento. Quando cheguei porém o clima já havia esfriado bastante, porém pude ter várias conversas incríveis das quais destaco um camarada taxista filiado ao partido comunista que conhecia muito bem a obra de Jorge Amado e Isabel Allende. Além disso o caos de Atenas lembra os melhores lugares do Brasil e por toda parte haviam pichações e cartazes escrito “OXI”. Aparentemente não era tão fácil assumir abertamente o “NE”.

O KKE foi a coisas mais impressionantes que pude ver em ação na manifestação da quarta-feira 15/07. A sua organização disciplinar e quantidade de membros (20-30mil) – incluindo proletários, mulheres, jovens e crianças –  lembrou bastante as lendas sobre os antigos partidos comunistas italianos ou francês. Por terem desconfiado desde o principio do Syriza, internamente são considerados como um dos vencedores deste processo, porém deles a grande mídia não fala. Não ficou claro porém se existe a possibilidade de algum crescimento efetivo do partido que tem atualmente em torno de 8% dos votantes. Nesta mesma manifestação ficou claro que eles se separam de todo o restante dos movimentos, assumindo uma posição de certo modo arrogante que resulta muitas vezes em brigas internas sobretudo com os anarquistas (me foi relatado que uma das maiores manifestações em anos passados terminou com uma gigantesca briga entre estes dois grupos e enquanto isso acontecia os policiais davam risada). É uma pena pois tamanha organização poderia liderar os demais ou ao menos ajuda-los nos confrontos. Os anarquistas são o segundo grupo mais organizado, contando inclusive com dois distritos em Atenas. É importante frisar que  existem em torno de 50 organizações, das mais diversas tendências, no campo da esquerda na Grécia. Imaginemos o dia em que todas atuarão juntas.

Ouvindo alguns dos principais dirigentes do partido, ficou evidente que faltou teoria na organização do Syriza. Obviamente não um programa fixo e imutável, pois uma aplicação flexível do Thessaloniki já teria sido de bom tamanho. Mas não foi o caso. Como podem vir a público dizer que não sabiam o que fazer e que no final das contas estavam praticamente levando tudo na tora? Ou dizer que o estado era complexo, que não sabiam que a troika era malvada e que dinheiro não nasce em árvore? Não é razoável aceitar ouvir isso a essa altura do campeonato. Não era o objetivo inicial sair do euro? Ok, sem problemas. Mas com o andar da carruagem não teria se tornado a saída o único objetivo viável? Este argumento não tem muito cabimento pois as circunstâncias mudaram enormemente nestes meses todos. Além disso, por que apenas neste aspecto levantam este ponto de não ser o objetivo inicial? O programa Thessaloniki era um ponto de partida que seria modificado ao longo do percurso, não um programa para ser consultado no momento de achar justificativas e desculpas para atitudes tomadas à posteriori. É bom sempre frisar que existe a vários meses um plano econômico, elaborado por Costas Lapavitsas, para uma saída da zona euro. Se daria certo nem mãe Diná sabe, mas ele me pareceu bastante convincente e embasado, além de consciente das evidentes limitações deste. Em todo caso era uma tentativa concreta que ao menos poderia servir como ponto de partida para um plano coletivo. Outro ponto importante, claramente expresso por um dos seus dirigentes, é que o Syriza se tornou um partido antidemocrático internamente. A grosso modo, desde pouco antes de ser eleito vem sendo conduzido por Tsipras e um pequenos núcleo duro. A prova maior é o documento dos 109 dirigentes, pequena maioria, que não aprovaram o memorando e que também não foram escutados. No final das contas, talvez Tsipras fosse o menos à esquerda no partido. O Syriza só esta ai por causa dos movimentos e, no mínimo, eles falharam em atender ao  povo no referendo. Há porém, uma corrente que entende que talvez o próximo passo seja preparar para sair uma inevitável saída do Euro, coisa que não foi feita, mas poderia ter sido feita, desde o início. Outros que “greexit amical” foi em algum momento possível pois, de certa forma, foi proposto “ganhar um dinheiro” para sair. Outro ponto importante é não esquecer que o Euro é moeda e é fiscal. Além disso, muito se falou da Argentina em 2001, vale frisar que a Grécia tem, aparentemente, infraestrutura melhor e até uma população melhor capacitada, sendo ainda mais radical, a grosso modo, ela não precisa mais crescer nesta lógica capitalista. Uma coisa que ficou clara é que estes dias, entre o anúncio do plebiscito e a fatídica reunião, serão material de estudos e reflexão por décadas.

Outra questão que não ficou clara: será que foi traição mesmo? Alguns claramente consideram, mas não a maioria. Nas conversas me pareceu mais presente um sentimento de frustração ou desorientação do que de traição. Outra coisa é que devemos sempre lembrar que o inimigo maior não é o Syriza – não precisamos de mais canibalismo de esquerda – e ficou ainda mais claro que devemos voltar a nomear os bois pois estamos de forma geral esquecendo ou substituindo-os por outras espécies e nomes, não falamos mais do sistema ou superação deste por outro. É como se o nosso limite fosse o capital. Para o futuro imediato porém, existe a possibilidade de suporte crítico ao Syriza? Ou isso, como em outras ocasiões, pode matar a esquerda? Mais uma vez, como Paulo Arantes tem repetido constantemente, a esquerda tem se tornado importante apenas para gerir e coordenar projetos humanitários e estados de urgência social e aparentemente o Syriza virou mais um deste gestores da emergência. Devemos lembrar porém que diferentemente dos operários ingleses, desta  vez foi o governo, e não as massa, que foi o derrotado.

Em uma mesa com os representantes de partidos de esquerda esloveno, italiano, português, irlandês e espanhol, ficou evidenciado que todos compartilham a falta de ideias. Quando descreviam as singularidades de cada situação algumas coisas interessantes apareciam, porém na hora de apresentar algo novo era uma frustração total. Foi mais uma prova de que falta teoria sobre o que realmente está acontecendo. Os mais lamentáveis foram os representantes do Podemos com falas repletas de clichês e lugares comuns. Parecia que tinhamos o próprio Pablo Iglesias na nossa frente, como se eles tivessem decorado as falas deste ou obedecessem uma espécie de manual interno. Chamo a atenção que passava longe de uma rigorosa disciplina interna (o que seria bom), estava muito mais para um discurso vazio e ensaiado que achei muito problemático. Apesar disso a representante deles apresentou uma ideia interessante: focar a luta na questão alimentícia, na soberania alimentar –  foi ao menos um esboço de uma ideia, mas é pouco para o tamanho da expectativa que eles despertam. Se compararmos com o Syriza, observamos que estes ao menos tinham um programa e uma pluralidade de visões e posicionamentos internos. Os italianos nos disseram que  preferiam sonhar e não estavam preocupados com a realidade, o que pode ser bom, mas que também não falavam com as pessoas (confesso que não entendi esse último ponto). Os eslovenos prestam atenção na parcela que se abstém de votar e que convencer essas pessoas a participar pode ser algo interessante, afinal não está claro a posição da maior parte delas e nada impede que ela venha para o nosso campo. Somando estas a outras discussões, me pareceu que há algo interessante acontecendo no leste europeu como um todo, pode ser que por trás da antiga cortina de ferro aparece algo interessante, mas ao mesmo tempo, devido a herança do século XX, existe um enorme problema da esquerda se apresentar como tal nesta mesma região. Outra questão levantada foi a de estudar o momento em que a antiga Iugoslávia, na transição pós muro de Berlim, socializou parcialmente os meios de produção, me pareceu um interessante ponto de partida passível de ser retomado.

Outro enorme problema é o que fazer em países como a Holanda que são totalmente despolitizados? Ao meu ver essa é uma questão que pode ser transposta para as cidades pequenas do Brasil. O que é possível ou não fazer nestas cidade? Por onde começar? Ter uma abordagem mais local ou de cara universalizar o movimento? Fazer os habitantes se tornarem parte do todo ou o todo tomar forma nesta pequena parte? Em outras palavras, tornar os locais parte das lutas nacionais ou encontrar a luta local que possibilite com que eles se mobilizem? Creio ser uma questão menos fácil

do que parece. Com o crescimento da agenda de extrema direita pautando a agenda europeia, outra questão discutida foi a de se é possível e faz algum sentido, dar uma versão à esquerda de pautas facistas. Devemos inverter as pautas deles? Ou não devemos abraça-las de forma alguma? Com o crescimento da direita no Brasil esta tornam-se também nossas questões.

Ao meu ver, um problema enorme da esquerda atual é essa ênfase na solidariedade e em construir redes. Não vão muito mais longe que isso e propõe cada vez menos mudanças radicais na sociedade. Análise conjuntural então, é quase um mito de tão rara. O horizonte está mais no passado do que nunca e o da esquerda europeia é menor que o melhor momento imaginado do Welfare State. Em todo caso, existe realmente a possibilidade desta solidariedade e de movimentos sociais substituírem o estado? Ou isso só é possível em certo nível, por causa da existência deste mesmo estado? Essa ênfase em dois conceitos extremamente vagos como construir redes e solidariedade me parece funcionar como uma neblina que confunde a visão do que está em jogo. Não sou, evidentemente, contra solidariedade. Mas qual solidariedade? Pegar em armas e ir lutar ao lado do outro? Ir trabalhar no país em crise? Fazer passeata na sua cidade? Mudar a foto ou curtir um evento no facebook? Pegando o gancho, houve também um diagnostico geral que a esquerda não sabe usar ainda muito bem as novas tecnologias sociais de forma efetiva e organizada, o que sobressai são ações individuais, talvez com um bom uso, mais sistemático, poderemos conseguir dar mais um passo.

Ao meu ver, o maior problema deles é um “eurofetiche” que permeia a mente de todos os europeus. Obviamente sabemos que a Europa é diferente da União Europeia, mas esta confusão é tão obscena que ambas formam um todo impossível de separar. Melhor seria aceitar a impossibilidade de ambas. Resta a questão fundamental, por que insistir com a União Europeia? Por que insistir com a Europa? Por que não passar a encara-la como um mero acidente geográfico com o quais inevitavelmente terão que lidar? Negar a Europa, para, a partir do vazio criado pela ausência desta ideia, poder construir algo novo, me parece ser o principal movimento a ser urgentemente feito por todos eles. Não é pregar um isolacionismo ou uma prática xenofobica, é exatamente o contrario, construir um internacionalismo que não se atenha a conceitos abstratos demasiadamente carregados de premissas, além de formulados e idealizados pelos adversários e, tendo a refutação destes como ponto de partida, abrir a possibilidade de criar algo novo que desta vez possa englobar todos os povos presentes no “velho continente”. Para isso entendo que eles devem abandonar logo a “Europa”. Outro problema é que eles continuam a fetichizar de forma excessiva o que acontece na América Latina. É quase como se fossemos um modelo possível de ser copiado, uma política do “ctrl+c – ctrl+v” que mascara as singularidades de ambas localidades.

Outro ponto interessante é a confusão que houve na polícia por não saberem o que fazer nos primeiros meses do governo Syriza. É verdade que existe a presença de um espectro da extrema direita no aparelho policial, mas seria ir muito longe chama-la de neofascista. Na pauta atual do governo está a despolitização da polícia, pois o objetivo é tornar a prevenção o mote principal deste aparelho. Prevenção, no entanto, é muitas vezes incompatível com a lei, pois aceita espionagem, tortura, assédios e inevitavelmente termina com seletividade dos alvos, etc. Como ignorar a possibilidade da polícia agir contra a sociedade? Como impedir a seleção dos que serão previamente punidos? O que quer dizer prevenção nesta linguagem? Aparentemente, na Grécia é deter (alguns) imigrantes e anarquistas. Vale ressaltar que a violência polícia grega é similar à brasileira ou à francesa. Não idealizemos as polícias europeias. Uma curiosidade é que o ministro encarregado da polícia é um teórico criminalista, da escola anglo-saxã, e que parte do seu trabalho é inspirado no outro trabalho, e vice-versa. Em relação à questão da imigração, porém, não é internamente claro quais funções cabem ao aparato policial e ao exército e vale lembrar, como este novo memorando inclui um corte de parte do seu orçamento, o exército também estaria interessado em medidas contra a austeridade.

Para um amigo grego, este imbróglio todo é muito mais internacional do que está sendo ventilado. Segundo ele, esta questão Grega pode também ser enxergada sob a ótica da relação entre entre os EUA e a China. No mesmo dia que o acordo sobre a dívida Grega foi aprovado, a China perdeu  três vezes a quantidade dessa dívida em euros relacionado à dívida americana.

Em todo caso, o principal momento de toda esta questão política tem, ao meu ver, sido colocado em segundo plano, e não só no Brasil, mas também na Europa. Falamos sempre do Syriza, das eleições, do memorando, da dívida, mas estamos esquecendo de analisar o que aconteceu entre os dias 27 de junho e 05 de julho, período de 9 dias que comprime o anúncio e o resultado final do referendo. Referendo, um instrumento político utilizado para os mais diversos fins e pelos mais diversos governos, não é em si o mais importante. O mais interessante é que ficou claro a divisão que este evento causou na sociedade grega. Os relatos nos contam que famílias racharam, amizades esfriaram, as discussões políticas se tornaram ainda mais calorosas, além da cidade estar cheia de cartazes e pichações com OXI (nada de NE). Em suma, o referendo rachou o país de uma forma radical. Não podemos aceitar a premissa ventilada de que a questão nele proposta não era clara. Concordamos, é verdade, que as interpretações do OXI são as mais diversas possíveis e nas conversas com os mais diversos populares escutamos várias versões do que este NÃO significou. Mas é exatamente este o ponto da verdade da situação. Mesmo que o OXI possa dizer várias coisas diferentes e mesmo contraditórias, a posição oposta, de quem votou no NE, é clara e única. E ao meu ver, é nesta posição antagônica que devemos prestar atenção. Pode nada acontecer em uma sociedade dividida, mas, nada impede que algo radical venha a emergir. A luta deles continua, aguardemos.

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NOTA #15 [28/04/2015] (RJ)

Baseado nas notas deste encontro e no seu áudio disponibilizado na internet, é possível perceber uma constante tentativa de realizar apreciações ou mesmo sínteses com a ideia de comunismo. Houve quem recorresse a Filósofos como Kant e Hegel.

Em outra oportunidade uma nota me chamou a atenção afirmando que o CEII perdia muito em delimitar sua orientação teórica a Badiou Ranciére, Zizek e Agambem deixando de fora pensadores como Deleuze e Foucault.

Acredito que não, no entanto, minha nota tem a ver curiosamente com um aspecto da postura de Zizek em seu artigo sobre os atentados contra o Charlie Hebdo e um texto de Michel Foucault em seus “ditos e escritos” entitulado  Q’est que le lumière (o que são as Luzes) onde ele realiza um debate a cerca da questão do iluminismo a partir de uma carta ou texto de resposta de Kant em um Jornal. O texto de Kant ficou conhecido como Was ist Aufklärung?

Neste texto Foucault defende a Aufklärung, não como um momento em que o homem sai de sua minoridade para a maioridade, buscando a verdade por si só, sem a necessidade de um intermediário, mas como uma atitude que se toma no presente. Aqui creio ser possível encontrar um ponto de encontro entre esta noção foucaultiana de Aufklärung com a posição de Zizek no blog da Boitempo sobre os atentados ao Charlie Hebdo. Neste post Zizek afirma ser necessário tomar uma posição naquele momento, e não esperar a situação “esfriar” para fazermos um diagnóstico. Assim como sua ideia central em seu livro “Primeiro como tragédia depois como farsa” onde Zizek diz ser necessário agir agora em relação a esquerda, por que as consequências de não se pensar nisso agora, podem ser catastróficas.

Nesse sentido podemos encarar a atitude de pensar uma forma alternativa de organização social como se faz no CEII e em outros lugares faz dessa atitude uma autêntica Aufklärung.

NOTA #7 [14/07/2015] (RJ)

Gostaria de pedir uma elucidação sobre o conceito de julgamento infinito do Hegel. Encontrei um trecho que ajudou, do texto : “Por ser a consciência-de-si um conceito relacional, seus atributos maiores no campo prático (como determinação, autonomia, liberdade e imputabilidade) só podem ser pensados em seu verdadeiro sentido quando abandonamos a crença de que a experiência da ipseidade está assentada na entificação de princípios formais de identidade e unidade. Até porque, a consciência-de-si não se funda na apreensão imediata da auto-identidade, mas naquilo que nega sua determinação imanente. Se quisermos utilizar um vocabulário contemporâneo, diremos que a consciência-de-si hegeliana é o locus de uma experiência fundamental de não-identidade que se manifesta através das relações materiais do sujeito ao outro. Relações essas que são pensadas a partir das figuras do trabalho, do desejo e da linguagem.” 

 

NOTA #11 [23/06/2015] (RJ)

O que pode ser o comunismo da palavra de Nancy?

Desde os filósofos do CEII, mantenho uma divisão entre ideia e ideologia. Na minha elaboração, de bate-pronto, frente ao argumento do Nancy, diria que a ideologia é um ideal que você constrói, persegue etc. e a ideia é aquilo que sobrevive quando você fracassa nesse exercício. Manter uma ideia que não morre à sua ideologia é uma tarefa semelhante à construção de um ideal, é claro. Nancy e os filósofos que o CEII escolheu fazem um mesmo movimento prático, com uma diferença teórica. Todos filiam-se à palavra comunismo, mas Nancy parecer querer mantê-la subtraída de seu sentido histórico. Ou seja, não quer o fracasso da ideia, mas seus ideais. Acho que por isso Nancy é um bom teórico para a esquerda, não para o CEII.

NOTA #6 (14/07/2015) RJ

O que pode ser o comunismo frágil de Vattimo?

A meu ver, a ideia do Vattimo nos sugere uma prática já conhecida. Creio que a “fraqueza” que ele argumenta, ao pensar sobre o comunismo pós-URSS, esteja referida tanto à constatação de uma atual “correlação de forças” quanto uma proposta para superá-la. Penso que ele sugere algo como a necessidade de se admitir que comunismo é uma ideologia sem força, embora capaz de moldar-se às circunstâncias atuais. A fraqueza que ele nomina para qualificar o comunismo, nesse caso, teria haver com dotações à flexibilidade e adaptação. De fato, são propriedades de valor para política porque qualquer experiência política precisa realizar em algum nível ajustes entre um projeto e seu processo. Mas exatamente porque isso é próprio à política, refutável apenas por aquele que não quer realizá-la nem na prática nem na teoria, é que não vejo sua contribuição filosófica à ideia do comunismo. Acho que ele é um bom teórico para esquerda, não para o CEII.

NOTA #8 [14/07/15] (RJ)

O que quer dizer comunismo fraco?

Para Gianni Vattimo, a afirmação de um comunismo fraco contrapõe-se a uma suposta existência de um comunismo forte – para além de uma redundância: significa dizer que o comunismo forte existiu (e existe) e é necessário enfraquecê-lo. Vattimo usará os termos da situação, deixando espaço para breves confusões: ele falará de uma situação fraca, de um mundo onde a política é exercida de forma enfraquecida, mas que, estranhamente, para combater um mundo tão “fraco de política” não é preciso um comunismo forte, mas um comunismo fraco.

Mas o que quer dizer comunismo fraco

Fraco está aqui em contraposição à uma posição histórica da metafísica como poderio destrutivo do mundo. Muito já se disse sobre como a metafísica, que não morreu em Kant, travestiu-se de técnica (e ciência), tentando dominar a realidade, o ente, obstruindo espaços de abertura do Ser. Forte, então, significaria a presença dominadora da metafísica. Um comunismo forte guardaria em si um rasgo de metafísica, de avanço da técnica, de esquecimento do Ser.

Segundo Vattimo, é preciso sermos comunistas, mas de forma enfraquecida – isto é, apagarmos os vestígios da metafísica na luta que travamos.

NOTA #10 [23/06/2015] (RJ)

Por um resgate sincero do camarada _001: Hegel!

Nos dias 14 a 17 de julho de 2015 aconteceu o VIII Colóquio Internacional Marx e Engels na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Ali, foi proposta uma mesa-redonda chamada “A relação Hegel-Marx: uma recepção crítica” promovida pelos professores Eduardo Chagas (UFC), Jadir Antunes (UNIOESTE) e Jesus Ranieri (UNICAMP) (disponível em: http://www.ifch.unicamp.br/formulario_cemarx/selecao/2015/index.php?texto=mesa9&menu2=on). Quanto à apresentação, (não estávamos presente na apresentação de Jesus Ranieri) vale a pena fazer alguns apontamentos:
– O Saber Absoluto apesar de defender a ideia de um retorno a Hegel para a obra marxiana (isto quer dizer ler a Fenomenologia do Espírito com O Capital), em certo momento da exposição apareceu a necessidade de explicar o Saber Absoluto, um custoso conceito hegeliano que é, antes de mais nada, a meta da introdução que se pretende ser a Fenomenologia. Falou-se que, algo existe e vai incorporando de saberes (ou, há um saber ilimitado e um saber de grau muito pequeno e esse gap seria a busca e legitimação de toda a obra humana) até chegar a um Saber Total, ou um Saber-que-sabe-de-tudo. É preciso entender que esse saber não se mede quantitativamente, mas sim como um campo de possibilidades que tal momento humano (talvez) pode conquistar (isto é, uma noção clara da objtividade, subjetividade, conceitos, interrelações, contradições, identidades etc.). Portanto, podemos perceber essa recepção marxista de um Hegel muito literal, ou, um Hegel aritmético esvaziado de seus momentos dialéticos no campo de um marxismo apto a recebê-lo. (isso traria alguns problemas teórico fundamentais como, por exemplo, a inegável necessidade de contrapor Marx a Hegel, que, no fim das contas a relação Hegel-Marx seria a relação Hegel vs. Marx);
– O Espírito como sujeito da história. Não há maneira de perceber o Espírito como sujeito a não ser aceitando-o como subject (assunto e não sujeito – aquele que age) de um ponto de vista explicativo e teórico. Fazer qualquer analogia diferente parece distorcer em certa medida Hegel; fazer uma analogia do Espírito como Classe Operária ou como Consciência da Classe Operária que deve ser “desenvolvida” com o passar do tempo para também ser uma operação da mesma natureza;
– Experiência, Consciência, Figura, Espírito e Conceito. Tratar esses nomes como sinônimos também seria tão reduzido quanto reduzir o proletariado em toda a obra marxiana ao trabalhador operário manual fabril. Há, sem dúvida, certas sutilezas na filosofia hegeliana que devem ser levadas a sério, principalmente quando tais nomes aparecem em momentos diferentes da Fenomenologia. A noção de figura não aparece na Certeza Sensível. A noção de Consciência (de modo completo) não aparece na parte do Espírito (este mais como um éter que propriamente como um algo);
Diante desses três pontos, gostaria de reclamar a importância do pensamento de Hegel e, se tivermos algum espaço para discernir com mais paciência esse sistema, estabelecer nosso “grupo informal de Hegel” como um modo de resistência de tais leituras. Acredito ser ele o nosso camarada número _001, ele merece nossa atenção!