Referências 24/02/2015 (RJ)

QUADROS.004

Apresentação sobre texto de Nahuel Moreno

Sobre trabalho funcional:

FELTHAM, O. As Fire Burns: Functional Work and Praxis in Ontology – disponível em inglês

Sobre a relação entre estratégia e tática:

BADIOU, A. Meditação 24: “A dedução como operador da fidelidade ontológica” em Ser e Evento – disponível aqui

 

Audio da reunião: https://soundcloud.com/ideiaeideologia/ceii-rj-24-02-2015

Video da reunião: http://twitcam.livestream.com/gehch

NOTA #3 [05/02/2015] (SP)

Dando continuidade aos trabalhos acerca do evento da Ideia do Comunismo, discutidas algumas questões burocraticas, de mais importante para mim foi chegarmos á conclusão de que seria importante o evento abrir um espaço de discussão e debates que permanecesse aberto, o evento propiciando assim o inicio de ciclos periódicos de estudo, algo como os seminários de Badiou ou Lacan.

Certamente não seria possível manter o nível que pretendemos no evento, mas entendo que poderia ser produtivo e até mesmo ensejar articulações coletivas diferentes. É uma ideia a ser estruturada também.

NOTA #3 [15/01/2015] (SP)

Não é preciso aceitar tudo como verdadeiro, apenas como necessário

Em sua teoria sobre os Aparelhos Ideológico do Estado, Loius Althusser, aponta que a Ideologia ao interpelar o sujeito em sua subjetividade toma o lugar de Sentido e de Verdade, desta forma internalizada a ideologia encontra sua forma de funcionamento e propagação.

No entanto, algo escapa à teoria althusseriana, que na interpelação do sujeito pela ideologia, algo – que é o traumático desta experiência – permanece externo, insimbolizável e principalmente desprovido de sentido. Esse resquício traumático – o qual Zizek chama de a letra morta, o inconsciente psicanalítico – é o que garante a completa submissão do sujeito à fantasia ideológica, não porque está é tomada como justa e verdadeira, mas, antes, pois é necessária. Este excesso sem sentido é que faz com que o sujeito, frente ao enigma do Outro “Che voui?”, na tentativa de conferir um sentido ao traumático, de disfarçar o furo, se submeta à ideologia em sua dimensão Imaginária, isto é, na fantasia.

Seguindo a leitura zizekiana da ideologia, podemos dizer que, no processo de interpelação subjetiva, é onde ela falha em subjetivar, no excesso insimbolizável, que garante seu funcionamento. Voltando a fala do Sr. K no conto kafikiano O Processo, é precisamente isso que ele aponta, não é necessário que a fantasia ideológica assuma o estatuto de verdade – e não estamos aqui caindo na armadilha de dizer que a realidade não existe que é tudo uma ilusão, não – mas apenas que ela seja compreendida como necessária, uma construção imaginário fundamental para nos afastar do Real do nosso desejo.

NOTA #4 [12/02/2015] (SP)

“Quando Lacan diz que o derradeiro esteio do que chamamos “realidade” é a fantasia, isso decididamente não deve ser entendido no sentido de que “a vida é apenas um sonho”, ou “o que chamamos de realidade é somente uma ilusão”

Umas das questões centrais para Hegel é o problema da realidade, na relação entre aparência e essência. Ao contrário de uma metafisica moderna, a proposta hegeliana caminha na seguinte direção: a realidade não pode ser oposta à aparência. Desse modo, não é que há uma ilusão sobre “minha perspectiva” e a realidade em si, mas que a ilusão acontece no interior da própria realidade. Tanto a realidade quanto a aparência emergem de dentro da própria realidade, sob o efeito de uma duplicação. O mundo cria imagens de si mesmo por nossa atividade de criar imagens do mundo. As imagens do mundo não são cópias de uma realidade que tem existência por si, e é disso que se trata a questão do sonho para Lacan. Não é que exista uma distinção entre realidade em si e o fenômeno que acontece como se fosse uma realidade paralela, através de imagens oníricas. O problema do sonho é que ele guarda, justamente, o núcleo de sustentação do Real: a impossibilidade de se ater com o vazio, e é disso que se trata a divisão subjetiva. A impossibilidade humana é que sempre o processo de subjetivação se apresenta ou enquanto excesso ou enquanto falta. O sonho, então, persiste enquanto um núcleo sólido que não se submete ao jogo universal de representações, e é através dele que há uma aproximação em relação à fantasia que determina nosso modo de desejar.

Essa premissa é fundamental para o problema da ideologia. Não é que uma confrontação consciente da ilusão que encobre a realidade em si permite que a ideologia seja dissolvida, mas ao contrário: o único modo de nos confrontarmos com o sonho ideológico é pela aproximação do Real do desejo, que aparece sob a forma de sonho. Todo sonho ideológico acontece na aproximação sem interrupção entre ele e a realidade, ou seja, como se o argumento para o fim do jogo ideológico fosse a confrontação com a experiência cotidiana, como se dissesse: “olhe a realidade, o dia-a-dia, como essas pessoas não condizem com os discursos que fazem sobre elas, e você mudará de ideia”. O que acontece é que o modo o outro é representado no discurso ideológico já parte de uma posição anterior, sendo a experiência cotidiana já antecipada pela fantasia.

NOTA #3 [12/02/2015] (SP)

Ariadne

 

                Já sabemos pelo adágio popular que não é possível agradar gregos e troianos. Quando se trata de questões sociais o agradar nem entra em voga,  oprime-se qualquer expressão subjetiva que fuja dos padrões sociais. A sociedade atual, moldada por ideologias machistas, racistas, homofóbicas e elitistas, criou diversos estereótipos para definir os grupos sociais minoritários.

Os estereótipos são imagens fixas que envolvem a construção de um conjunto de crenças determinadas pela sociedade, pela cultura em que cada sujeito vive. Essas crenças formam imagens distorcidas que não conseguem representar a realidade em sua complexidade. No caso das mulheres, muitos estereótipos foram construídos ao longo do tempo, como podemos observar na tirinha acima.

(…) ao estereótipo masculino parecem associar-se dimensões de instrumentalidade. Dominância, dinamismo e autonomia; o estereótipo feminino é, por sua vez, associado à passividade, submissão, dependência e expressividade de emoções e de sentimentos para com os outros. Todavia, estes estudos não contemplam analiticamente a assimetria na relação entre sexos. É justamente a noção de assimetria que vem desvelar o desigual valor social implicado nos conteúdos atribuídos aos estereótipos sexuais: o estereótipo masculino consegue reunir não só um maior número de traços, mas também uma maior desejabilidade social do que o estereótipo feminino. (Dicionário da Crítica Feminista, pp. 54-57)

A construção da imagem da mulher como frágil, submissa, incontrolável em seus sentimentos, entre outras características dadas ao feminino, demonstra a dominação do masculino e a assimetria de poder entre homens e mulheres, o que gera o não –lugar da mulher na sociedade e sua subalternidade. Essa posição a qual as mulheres foram alocadas define como direito da sociedade o julgamento do comportamento e do corpo feminino, esse direito é dado, principalmente, ao Estado e aos homens, mas também coloca em conflito as próprias mulheres.  A não-existência política dada as mulheres acaba define o corpo feminino como público, logo aberto à opiniões públicas.

Pela análise que Zizek faz do anti-semitismo podemos repensar essas questões sociais,  como a problemática machista. Zizek escreve que o sistema social ao criar determinados padrões e manter certos preconceitos, nada mais cria do que uma forma de manter a ordem social e justificar as incoerências do próprio sistema – “a ideia santi-semita do judeu nada tem a ver com os judeus; a imagem ideológica do judeu é uma maneira de costurar a incoerência de nosso próprio sistema ideológico”-.  Desse modo, podemos considerar que os estereótipos são a fetichização de um grupo social para que esse se torne o bode expiatório do sistema, de tal forma que as incoerências do sistema ideológico não sejam expostas.

Todavia, como podemos observar na tirinha, as incoerências acabam vindo à tona e questionam quais crenças estamos servindo e qual padrão está sendo imposto. Segundo Zizek, “uma ideologia logra pleno êxito quando até os fatos que à primeira vista a contradizem começam a funcionar como argumentos a seu favor”. Então, combater os aparelhos ideológicos do Estado exige não apenas livra-nos do preconceito e aceitar o outro como um desvio que deve ser tolerado- “Não basta dizer que devemos  livrar-nos dos ‘preconceitos anti-semitas’ e aprender a ver os judeus como eles realmente são- desse modo, certamente continuaremos vítimas desses chamados preconceitos”-. Torna-se necessário, então, questionar esses estereótipos, os discursos cotidianos, as mínimas ações do dia a dia e, principalmente, a extrema necessidade da exceção (da imagem fetichizada que criamos das minorias), que apenas serve como álibi para manter a “coerência” da estrutura social-“ Uma ideologia só “nos pega” para valer quando não sentimos nenhuma oposição entre ela e a realidade -isto é, quando a ideologia consegue determinar o modo de nossa experiência cotidiana da própria realidade.”.

Nota #5 [27/01/2015] (RJ)

Para Nahuel Moreno, o papel do Partido não é tanto o de demarcar um espaço de negatividade na militância (tratar o militante como quem está em débito – e, portanto, cobrá-lo!). O papel do Partido para com a base é de uma proposição (positiva) de um espaço para discussão e afirmação de ideias.

Badiou rompe com a noção de finalidade: o discurso judaico é o discurso de uma finalidade (um pertencimento que se confirma com a vinda do Messias). A partir  de Badiou, o Evento passa a ser o fim – sendo que sua localização é anterior.

A morte de Cristo é apenas a universalização da mortalidade – é o que torna Cristo realmente humano e apto para “salvar” a humanidade.

Nota #6 [03/02/2015] (RJ)

A operação da Conta por Um deflagra o múltiplo inconsistente que havia antes.

Pergunta-chave para Badiou: como é possível haver uma regra que não suture a indeterminação (lei sem identidade)?

Para Badiou e Rancière, a igualdade precisa ser axiomatizada e não dada a partir de uma predicação.

NOTA #1 [19/02/2015] (SP)

Penso que o Zizek encerra seu texto com uma crítica bastante relevante para o marxismo, que muitas vezes se utiliza de um conceito de “materialismo” relativamente simplista, relacionando diretamente a evolução das “forças matérias” com alguma espécie de necessidade histórica do Comunismo.

De grande auxílio para a análise deste ponto é o texto de Alenka Zupancic ‘When Surplus Enjoyment meets Surplus Value”. Neste texto, Zupancic analisa as diferentes estruturas do discurso tal como pensado por Lacan no seminário XVII ( O avesso da Psicanalise), para, na análise do discurso Universitário, chegar à seguinte conclusão:

 “A very significant implication of this shift is that, in order for capitalista exploitaition to function, the entropy or loss, the amount of work not accounted for, or simply not counted, has, precisely, to start to be counted (and “value”)”

 Ocorre na sociedade capitalista algo parecido com o “cálculo neurótico do gozo”, ou seja, aquilo que nos outros discursos aparece como um excesso contingente no capitalismo se torna o próprio cerne da atividade dos indivíduos e da sociedade.

 Zizek nos aponta que Marx não soube lidar com os paradoxos do mais-gozar e da mais valia, de algo que, como diz Lacan sobre o gozo, “não serve para nada”, mas é estruturalmente produzido pela linguagem. Não podemos nos livrar desse excesso, que, como diz Zizek, é constitutivo do desejo humano enquanto tal., e talvez seja esta a ingenuidade de alguns visões de esquerda (Badiou aponta algo parecido em sua análise histórica do norma, singular e excrecência em Ser e Evento)

 Não há linearidade histórica nos discursos, o discurso do capitalista é hoje o discurso hegemônico (como o histérico tem sido seu principal discurso “reativo”), de forma que não podemos esperar nenhum tipo de necessidade histórica de sua superação. Somente a prática de discursos que articulem suas impossibilidades (marxismo e psicanalise) poderão engendrar novas formas de vínculo social e de satisfações do desejo no âmbito coletivo.

NOTA #2 [12/02/2015] (SP)

Existe uma ligação direta entre a imagem do “judeu” para a fantasia ideológica nazista e o fetiche na psicanalise. Como aponta Zizek, a verdadeira crítica a ideologia anti-semita não é “os judeus não são realmente assim” ( o que possui o inconveniente de sustentar uma contrapartida de “como os judeus realmente seriam”), mas “a idéia anti-semita do judeu não tem nada a ver com os judeus: a imagem ideológica do judeu é uma maneira de costurar a incoerência de nosso próprio sistema ideológico.”

Desta forma, o importante não é o “judeu” em si, mas o modo como este é fetichizado para que através de sua figura se oculte o antagonismo inerente ao sistema social.

 Com explica Zizek, o fetiche “é um tipo de avesso do sintoma. Ou seja, o sintoma é a exceção que perturba a superfície da falsa aparência, o ponto em que a Outra cena recalcada irrompe, enquanto o fetiche é a encarnação da mentira que nos permite sustentar a verdade insuportável”.

 Assim, quando Zizek diz que em vão tentamos sair da fantasia ideológica, devemos perceber como a figura do “judeu” cria justamente uma exceção (e, na medida ainda que toda Universalidade necessita de uma exceção fundadora) que dá consistência ao universo simbólico do sujeito, permitindo que um objeto-fetiche venha no lugar do Real e oculte a fatal no Outro.