Nota #5 [18/11/2014] (RJ I)

“Pode-se dizer tudo de Paulo, menos que ele era um moralista”. Badiou

Badiou se esforça em seu texto sobre Paulo para livrá-lo da pecha de moralista severo, destacando que o amor a Deus nos liberta do círculo da lei e do pecado, em nome da graça. A lei estaria do lado do particularismo e da servidão, rebaixando o homem ao que ele tem de pior. A lei obtém resultado pelo medo do castigo e não pela compreensão serena do bem. Só a graça, portanto, é verdadeiramente universal e livre das divisões. ela é a vida sem a morte.

No entanto, um aluno meu versado em teologia reparou que no caso de Paulo não se trata tanto de uma recusa da lei mas de sua interiorização. Ele teria arrematado um movimento que teria se iniciado com Jesus, que já dizia que não é preciso cometer o adultério, basta pensar nele que já estamos no pecado. Tratar-se-ia, no caso do cristianismo, de uma subjetivização da lei, antes que sua abolição.

Esse aluno fala também da “lei da fé” proposta pelo apóstolo em Romanos. Em Levíticos o texto da lei diz que “com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é”.  Outro mandamento paulino, dedicado à mulher, afirma que “vós, mulheres, estai sujeitas aos vossos maridos, como convém no Senhor”, o que aos nossos olhos modernos parece  um comando bem machista. Em Gálatas há um conjunto de proibições bem claras relativas à conduta humana:

“Porque as obras da carne são manifesta as quais são: adultério, fornicação, impureza, lascívia, Idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a essas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus”.

Segundo esse meu aluno, que “aprendeu a ler com a Bíblia”, Paulo recorre diversas vezes à lei para determinar o que os cristãos convertidos deveriam fazer em suas práticas de vida. Para o que se tornou o cristianismo paulino, a liberdade deve ser regrada. Esse aluno não compreende a tese de que a lei “instaura” o pecado. Para ele, a lei foi feita para limitar o pecado, que é reconhecido como o estado natural da vida.

Por fim, este aluno elencou 21 mandamentos de Paulo à Igreja, entre os quais:

– Não seja homoafetivo, 2 – A mulher deve se sujeitar ao marido 3 – Contra o adultério, etc

A pergunta que eu levantaria é: como sustentar a posição badiousiana de um SP anti-moralista diante de tantos preceitos formulados por ele em nome da Igreja?

NOTA #4 [04/11/2014] (SP)

Zizek, ao analisar a questão da ideologia em Marx, recupera uma importante máxima marxista: disto eles não sabem, mas o fazem. E nos propões uma pergunta fundamental: onde o desconhecimento opera, no fazer ou no pensar?

O autor avalia que classicamente as analises da ideologia procuram mostrar como esta opera no nível do saber, isto é, os sujeitos o fazem o que fazem, pois desconhecem a realidade como tal, estão como que iludidos por este véu, esta mascara perversa que é a ideologia – e neste sentido a razão cínica de Sloterdijk vai na mesma linha, pois aponta que os cínicos sabem muito bem o que estão fazendo e ainda assim o fazem, apontando, portanto, que a ideologia está no nível do saber. Zizek ressalta que se formos por esta via de análise, concluiremos que estamos frente a um mundo pós-ideológico, e que está já não opera mais da forma que Marx descreveu.

Porém, corremos o risco de nos apressarmos e tirarmos conclusões precipitadas, pois, para Ziezek, a ideologia ainda opera, só que ao contrário do que apontam as  analises, ela está no campo do fazer. O que acontece é que os sujeitos desconhecem que no seu ato de troca estão agindo guiados por uma ilusão fetichista. Portanto, a noção de vivemos em um mundo pós-ideológico não resiste a uma análise mais precisa de como está, pelo fetichismo da mercadoria, ainda opera na atualidade.

NOTA #3 [11/11/2014] (SP)

A verdade (ilusão) ideológica

A reunião de hoje contou com a presença de alguns convidados. Após uma longa explanação sobre a rotina e a dinâmica do grupo, demos continuidade à leitura da semana anterior.

Dando continuidade à “Fantasia Ideológica”, Zizek nos apresenta uma nova maneira de ler a fórmula marxista: “eles sabem muito bem o que estão fazendo, mas fazem assim mesmo”. Essa “ilusão” não mais está do lado do saber (o que num primeiro momento aparentava), mas inserida na própria realidade social das pessoas. Ela não deixou de ser “ideológica”.

A rigor, o que “eles” desconhecem (ou fingem desconhecerem) não é a realidade em si, mas uma ilusão, uma representação da realidade constituída a partir de sua “atividade social”. A ilusão, argumenta Zizek, consiste em atropelar a ilusão que estrutura a relação “real e efetiva” com a própria realidade. E é exatamente essa ilusão, “desconsiderada e inconsciente”, que podemos chamar de “fantasia ideológica”.

Não se trata mais de uma ilusão que oculte o estado verdadeiro das coisas, mas sim de uma “fantasia” que estrutura e constitui a própria realidade social. Se essa ilusão estivesse realmente atrelada ao “saber”, a atitude seria cínica, seria, em outros termos, “pós-ideológica”, ou seja, “sem ilusões”, pois “eles sabem o que estão fazendo e o fazem”. No entanto, se esta ilusão encontra-se no campo do próprio “fazer”, a fórmula deve ser lida de maneira totalmente diferente:

[…] eles sabem que, em sua atividade, estão seguindo uma ilusão, mas fazem-na assim mesmo. Por exemplo, eles sabem que sua ideia de Liberdade mascara uma forma particular de exploração, mas, mesmo assim, continuam a seguir essa ideia de Liberdade.

NOTA #3 [04/11/2014] (SP)

A fantasia (ilusão) ideológica

Onde está situada essa “ilusão (ideológica)”? Para compreendermos a distinção que existe entre sintoma e fantasia, não é mais suficiente ter em mente apenas a fórmula marxista “disso eles não sabem, mas o fazem” ou ainda “eles sabem, mas, ainda assim, o fazem”, mas sim formular-nos a pergunta “onde se situa a ilusão ideológica, no “saber” ou no fazer”?

Para Zizek, a definição de “ideologia” está no próprio fato de as pessoas “não saberem o que estão realmente fazendo”, ou seja, as pessoas têm uma falsa representação daquilo que está sendo feito e da realidade social a qual estão inseridos. No entanto, afirma Zizek, o mais intrigante é o fato de tal representação ser fruto de uma distorção causada pela própria realidade social. Para entendermos melhor esta afirmação, devemos retomar o que Zizek define como “clássico exemplo marxista do chamado fetichismo da mercadoria”.

O dinheiro é, na verdade, uma “incorporação” ou “materialização” de uma rede de interação social. Nesta rede, ele (o dinheiro) funciona como um equivalente universal de todas as mercadorias (que regulam esta interação em vez de ser regulado por ela) e está condicionado por sua posição nela. Para os indivíduos desta trama, a função do dinheiro surge como uma propriedade “imediata e natural”, como se ele fosse a própria encarnação da riqueza (reificacão). Contudo, essa “formulação marxista”, explica Zizek, acaba ocultando uma ilusão que já está em funcionamento na própria realidade social. Mas, quando os indivíduos desta rede usam o dinheiro, eles sabem que não ha nada de metafísico nessa relação comercial, pois a espontaneidade do cotidiano o reduz a um símbolo que “dá ao individuo que o possui o direito a uma certa parte do produto social” que ele mesmo produz e que a própria realidade distorce seu valor e significado. Em resumo, diz Zizek, “eles são fetichistas na prática, e não na teoria”, pois, em teoria, eles não sabem e por isso não se veem como fetichistas.

NOTA #6 [11/11/2014] (RJ I)

(Pré)Nota sobre a burocracia:

O que seria esse estranho monstro criado pelos homens (ou por divindades, talvez)?  A divisão de tarefas seguindo o princípio jurídico da estrita legalidade seria sua essência? Se sim, a burocracia somente pode ser jurídica. Mas ela pode ser considerada somente como jurídica? Seria uma questão moral da modernidade? Então é moral? E se não for nada além disso, ou apenas um espectro… Assim como na literatura de Kafka, em que o ser do Artista da Fome, ou  O Castelo, ou O Processo. Talvez seria preciso investigar as questões relativas ao Aberto (de Agamben). Com a finalidade de ser uma pré-nota, deveríamos partir de que a burocracia simplesmente se resume a coisa nenhuma: o Nada.

Nota #4 [18/11/2014] (RJ I)

Se estamos em crise, que crise é essa?

Para mim, em termos gerais, o Círculo continua progredindo em relação às suas tarefas militantes. Não apenas as que define, de acordo com seus próprios critérios, mas a reconhecida pelo mundo. Ajudamos a alavancar e participamos de um comitê de discussão do Partido. Pode-se pensar até onde o progresso conquistado se relaciona com o que desejamos. Talvez, o PSOL ou a natureza da atividade que realizamos não nos motive. Mas, nesse caso, deveríamos nos perguntar que tarefa política pode nos motivar.