NOTA #3 [21/10/2014] (SP)

O cinismo como forma de ideologia: Ideologia como falsa consciência ou a Crítica da razão cínica

“[…] disso eles não sabem, mas o fazem?”

Cínico X Cinismo

Peter Sloterdijk propõe, em sua Critica da razão cínica, a tese de que “o modo dominante de funcionamento da ideologia é cínico”. Para ele, diz Zizek, o sujeito cínico tem ciência da diferença entre a ideologia e a realidade, mas, mesmo assim, prefere insistir na “ilusão”. Esta “razão” (cínica) representa o paradoxo de uma “falsa consciência esclarecida”, na qual se tem conhecimento desta falsidade, mas, ainda assim, o sujeito mantém-se apegado a ela, sob a seguinte fórmula, proposta por Sloterdijk: “eles sabem muito bem o que estão fazendo, mas mesmo assim o fazem”.

No entanto, alerta zizek, temos de distinguir a”clássica” postura cínica da definição de cinismo, empregado por Sloterdijk. O cinismo sloterdijkiano corresponde à rejeição das pessoas pela cultura predominante por meio do sarcasmo, isto é, confrontar as “expressões” utilizadas pela ideologia dominante expondo-a ao ridículo. O “cinismo”, segundo Zizek, é a resposta da elite cultural à “subversão cínica”, contudo, faz questão de manter o uso da “máscara” por questões particulares. Para o autor, quando confrontamos a razão cínica com a “critica tradicional da ideologia”, essa não surte mais efeito, já que não podemos submeter o conteúdo ideológico a uma “leitura sintomal”.

NOTA #2 [21/10/2014] (SP)

Em “O Cinismo Como Forma de Ideologia” Zizek mostra que a definição elementar de ideologia caracterizada por Marx como “Eles não sabem o que fazem, mas o fazem” passou por uma transformação no mundo contemporâneo – que seria uma espécie de “sociedade pós-ideológica”.

A ideologia como falsa consciência viria abaixo apenas através de uma análise crítica, porém na atual fase do capitalismo, esse tipo de crítica ideológica se tornou ineficaz por conta da mutação que sofreu os mecanismos ideológicos desde então.

Zizek toma por base a crítica levantada por Sloterdijk, segundo a qual a ideologia é estruturada por uma razão cínica: “Eles sabem o que fazem, mas mesmo assim o fazem”. Porém ainda que a ideologia em sua forma cínica se comporte como esclarecida, o esclarecimento desconhece a razão que o estrutura, fazendo com que ela se torne imune à crítica convencional.

Consequentemente, quanto mais nos aproximamos de esclarecer um tipo de “falsidade ideológica”, mais ela aumenta seu domínio sobre nós.

NOTA #3 [22/08/2014] (RJ II)

Comunismo para Badiou é algo que não se limita a uma política definida, seria uma idéia que se forma através do real político, imaginário subjetivo e simbólico histórico. A formação da uma idéia, neste caso a do comunismo, porem poderia ser qualquer outra, começa em um processo de verdade, tal processo é representado por certo evento político. Este evento pode ser formação de um movimento político quanto uma discussão entre trabalhadores na frente de uma fabrica porem tal formação deve sair da linha do que há e entrar no território do inexistente, no caso comunista essa linha seria os limites do real ditados pelo estado. Esta verdade política da exceção se projeta na representação simbólica da historia. O individuo a apresentado, através da historia, a este excesso particular, a esta representação de verdade, esta idéia pode levar o individuo a sua incorporação ao processo de verdade e, conseqüentemente, a formação do sujeito político.

Nota #8 [05/08/2014] (RJ I)

O que vemos e sentimos

Nesta nota vou me ater a tentar estabelecer uma ponte entre o que vemos e sentimos e o que investigamos nos escritos de Alain Badiou em São Paulo. Para isso lembremos do dia em que a Deputada Estadual Janira Rocha do PSOL esteve no CEII. Durante sua fala ficou clara sua forma de fazer política que não se concentra nas universidades, e sim junto ao operariado do COMPERJ e dentre outros lugares as pessoas envolvidas nas remoções da chamada favela da Telerj.

Território pertencente a “Oi”, esta mesma reclamou o direito de propriedade assim a reintegração de posse onde todas as famílias que lá viviam foram desalojadas.

Durante nosso encontro no CEII a deputada mencionara que uma parte dessas famílias estava abrigada na igreja Nossa senhora do Loreto, na Ilha do Governador e nos convidou a fazer uma visita ao local, já que gostaríamos de encontrar o link entre a teoria e a prática. Pois bem dois membros do CEII seguiram no carro oficial da deputada até a igreja.

Chegando lá foi possível se deparar com o desespero e as condições em que aquelas pessoas se encontravam. As necessidades de que precisavam e a urgência de suas condições trazem a realidade de forma flagrante para nossos rostos e provoca sim sensações muito fortes que podem determinar os rumos da vida de um militante.

Mal comparando, talvez seja isso que Alain Badiou tenta demonstrar em “São Paulo”. Como o evento acomete uma pessoa de forma a transformar sua vida. E se estamos falando de militância não seria o “evento” o ponto de convergência que universaliza a figura do militante? Assim como Paulo, Che Guevara e outros militantes não teriam sido acometidos pelo evento de tal forma que eles derrubam as pontes que existem atrás de si e passam a se dedicar ao que é novo, já que o que é velho já não importa mais?

O que me parece interessante tentar entender é, o papel que as sensações têm na transformação de um homem em um militante, não seriam as sensações, ao contrário da razão, um objeto por excelência da anti-filosofia?

REFERÊNCIAS 28/10/2014 SP

 

CEII 28 10 2014 SP I
Crítica Ideológica adorniana

ADORNO, T. W. e HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 2006.  

ADORNO, T. W. Dialética Negativa. Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 2010.

ADORNO, T. W. Minima Moralia. Lisboa, Ed. 70, 2008.  

Os Estudos Culturais são realmente totalitários?

ZIZEK, S. Alguém disse totalitarismo? São Paulo, Ed. Boitempo, 2013. 

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/ideiaeideologia/ceii-sp-28-10-2014

Nota #4 [21/10/2014] (RJ-I)

Na reunião passada fizemos a comparação entre os esquemas de Badiou/São Paulo, de um lado, e de Freud, do outro. De um lado, Badiou propõe uma revisão da temporalidade própria da política – aquela que se segue da estrutura básica da disposição militante: a de “saber o que se quer, mas não tê-lo”. Ao invés de lutarmos na direção de algo que não existe, mas que queremos que passe a existir (o que supõe, por exemplo, que saibamos de maneira determinada o que é que não existe – ou seja, que o inexistente seja determinável de antemão), Badiou constrói uma disposição militante guiada por uma novidade que não está no futuro, mas no passado: o novo nunca está por vir, mas já aconteceu – a questão militante é extrair consequências, e não fazer acontecer. Na verdade, não se trata de uma posição que efetivamente contraria a primeira, mais clássica, mas que dá sua gênese materialista – o conceito de “evento” dá a resposta para a pergunta: “como você pode saber no presente alguma coisa sobre algo que não existe nesse mesmo presente?”. O evento não é o acontecimento de uma nova situação, mas justamente da possibilidade de uma novidade real – a possibilidade de extrairmos novas determinações a partir de uma ruptura indeterminada (ao invés de produzirmos uma situação indeterminada, nova e impensável, a partir das determinações que já conhecemos).

A comparação que fizemos com Freud diz respeito precisamente ao estatuto dessa possibilidade. Em Luto e Melancolia, Freud define o luto como o trabalho de desfazer certas fixações libidinais que nos mantém atrelados a uma situação já sem sustentação real, uma forma de elaborar nossos laços com a realidade de maneira a liberar a libido para investir em novos “trilhamentos” (vale a pena lembrar a definição Althusseriana de ideologia como “relação imaginária com as condições reais de existência” – o luto, incidindo sobre a “relação imaginária”, teria a própria estrutura da crítica ideológica).

A melancolia, por outro lado, descreve um certo modo de manter viva uma relação de satisfação que perdeu seu suporte material – certas “acrobacias econômicas” do aparelho psíquico que, voltando-se do ‘outro’ para o ‘eu’, transformando o efeito depressivo em mania, etc, busca maneiras de se proteger das consequências de aceitar uma perda. O luto, assim, parece nomear o primeiro passo na produção subjetiva de uma nova possibilidade – trata-se de um trabalho doloroso, de confrontação com o fracasso, e de inclusão de si mesmo nessa falha, justamente porque o advento de uma nova possibilidade está ligado à transformações irreversíveis no próprio sujeito que sobrevive a perda de uma dada relação de satisfação.

George Bernard Shaw, em sua peça Major Barbara, de 1905, nos oferece um possível ponto de partida para pensar a experiência militante que serve de ponto de encontro entre o evento e o luto:

“Você aprendeu algo. Mas aprender é indistinguível, a princípio, de perder alguma coisa.”

Seria muito interessante relacionar o conceito de fidelidade, em Badiou, que descreve justamente o processo de investigar, ponto a ponto, que múltiplos conectam e quais não tem relação com o evento, e o trabalho do luto, que também involve um trabalho de associação e desassociação entre as representações e a satisfação que se encontrava fixada em uma certa relação de objeto. A princípio, parece que todo passo no trabalho militante de apreender algo do evento seria “indistinguível, a princípio, de perder alguma coisa”.

NOTA #3 [21/10/2014] (RJ I)

Pelo que foi comentando na reunião, do que consegui compreender, o luto difere da melancolia por ser um tipo de passagem, eu diria. Ele, ao contrário do estado melancólico, deixa morrer aquilo que já morreu. Como se a subjetivação do que já aconteceu fosse uma condição para que isso já ocorreu tenha acontecido, de fato, para o sujeito.

Assim admitido, diria que o luto relaciona-se com a luta porque ambos procuram tornar o que já é algo que existe. O sujeito enlutado ou em luta realiza um esforço, por isso essa relação entre eles. São razões diferentes, evidente, mas é tentador dizer que a morte de um ente querido aparece como morte na passagem subjetiva que o enlutado realiza assim como o trabalhador torna visível sua exploração também numa passagem subjetiva – sem a qual pode-se se comportar como a vida não tivesse desaparecido tanto num caso como no outro. Sem esse “acréscimo” que só pode vir do sujeito em relação ao que se perde, essa perda não é incluída em sua experiência com o mundo e, portanto, ele fica condenado a contar com aquilo que já não é.

Para mim é difícil pensar essa relação, mesmo se restringida ao universo de cada uma em separado.

 

 

 

Nota #2 [21/10/2014] (RJ I)

Luto e melancolia

A diferença mais fundamental que se pode estabelecer, com Freud, entre luto e melancolia, pode ser expressa a partir da distinção entre perda e falta. Pode-se dizer que enquanto o “enlutado” refere sua perda a uma falta fundamental, que o capacita a relançar-se no jogo do desejo, o melancólico interpreta fantasisticamente a falta como perda de alguma “Coisa” fundamental. Essa inversão, é claro, não é sem benefício secundário, na medida em que a simples ideia de perda me faz supor que o objeto um dia foi possuído. A elevação de uma mulher à dignidade de objeto Absoluto, por exemplo, não tem outra função que a de nos fazer sonhar com uma forma de posse através do próprio sentimento de perda.

Isso implica dizer também que não há tanta distância assim entre a vontade obsessiva de controle intelectual de um objeto, própria do racionalismo “cartesiano”, e o langor melancólico romântico. Ambas atitudes, aparentemente opostas, expressam a mesma angústia diante do inapreensível x, a mesma recusa perante o real. Para Zizek, “a melancolia oculta o fato de que o objeto é faltoso desde o princípio, que seu surgimento coincide com sua falta, que o objeto nada mais é que a positivação de um vazio/falta, um ente puramente anamórfico que não existe em si.” (Zizek, A melancolia e o ato, in Alguém disse totalitarismo? p. 102-103)

Resta a questão de se saber se a melancolia é uma atitude apenas conservadora ou se pode conter algum potencial de distanciamento crítico não tanto do real como da realidade dominante constituída. Segundo foi discutido no CEII, essa seria a tese de Judith Butler.

Nota #6 [30/09/2014] (RJ I)

Pergunta:

A militância num processo eleitoral é capaz de produzir um prazer real revolucionário e ao mesmo tempo relacionado a uma experiência de fidelidade a uma declaração?  Isto é, pode estar integrada num acontecimento?

 

Discutiu-se estratégias de financiamento para o CEII.

Fazer o projeto do CEII circular um pouco mais. E que houvesse uma nota por mês ligando o texto e o projeto, para testar como fica. Ponte entre o teórico e o institucional.

Propuseram realizar um panfletagem mensal para o CEII, como mecanismo e ver se incomoda e se responde a demanda de pratica na rua.

 

O que caracteriza a dominação no modelo capitalista hoje é que são vínculos baseados na liberdade e não em limitações.

 

Explicação de inefetividade de praticas politicas que nao funcionam porque são indiscerníveis, porque o mundo oferece mais experiencias de luta do que menos. Porque a rotina do dia a dia parece ser mais radical do que a luta politica.  As lutas politicas ficam banalizadas perto das outras lutas.

 

Se vc nao tiver uma pratica militante, raramente vc vai produzir uma ideia que divide um grupo.  Por que a maior parte das ideias são conciliadoras.

 

Se a teoria produz uma ideia que divide as pessoas ela é classista.

 

Para Badiou o corpo militante é dividido pela necessidade de se inscrever no mundo um traço que nao existe e introduzir um presente diferente ao mesmo tempo.  Da carne a um traço de um evento, levar a frente a declaração e testar as consequências disso e introduzir uma experiencia de mundo que já é outra.

 

O prazer real é um termo revolucionário pois quando vc luta ao se inscrever no mundo, isso  já é um traço antecipado dessa experiência de fidelidade

 

1h12

Nota #1 [21/10/2014] (RJ I)

Pergunta:

Quando o próprio ideal morre, como fazer a sua manutenção?

A esquerda fez o luto da experiência comunista na ex-URSS e na China de Mao?

Ou está num posição melancólica, de não deixar morrer algo que se foi, e com isso, não dá lugar ao novo?

 

Sessão.

Retomada pag. 82 São Paulo (Badiou).

A morte como condição de imanência. Cruz símbolo de identidade com Cristo.  Imanentização como reconciliação.

Associação da idolatria ao sofrimento. Classe trabalhadora como aquela que sofre. Um corpo que esta sofrendo é mais identificável.

Universalidade do Badiou é uma universalidade sem traço e o sofrimento é um traço.

O cristianismo não é articulado em torno do sofrimento.

Judaísmo se refere ao não aguentar a angústia em torno do que Deus quer.

 

Salvação e reconciliação. Assunção de uma fidelidade na vida.

Quando o encontro de uma coisa que nao é passa a pertencer ao mundo, ela traz o novo, e tem que ter um traço.

 

A morte para o ser humano é um pensamento.

Algo da morte de Cristo tem haver com a morte de todo mundo, reconcilia minha morte na vida.

A morte não mortifica, o sofrimento mortifica.

Origem da escravidão. Eu como sujeito desejo um objeto. Eu só sou na medida em que o objeto existe, porque o desejo é falta.

Desejar outro desejo é desejar a falta como tal.  Quando desejo outro desejo estou desejando outro sujeito como objeto.

Quero ser reconhecido como desejoso mas preciso do outro como objeto, mas o outro também quer a mesma coisa. Luta Senhor X Servo. Eu quero que a minha determinação seja reconhecida. Estaria disposto a levar o desejo de reconhecimento até a morte. Quem aguenta mais esse limite se torna o mestre absoluto. Quem nao aguenta isso fica na posição de objeto.

Lacan diz da luta de puro prestigio operada pelo pensamento da morte. A morte traz a vida ou a vida traz a morte? Lacan associa com a pulsão de morte.

Jogar de outra forma a relação da vida com a morte.

Como se já morreu pode-se viver como sem limite para a vida.

 

No campo dos horizontes genéricos de Badiou  Um apriori essencial parece imutável para todo sempre. Antecipar no pensamento que nao tem que ser sempre assim, é morrer alguma coisa.

 

O luto associado ao procedimento analítico é deixar morrer alguma coisa, um gozo da pulsão.

 

Pessoa organiza a vida dela em torno de um investimento, em algo que de repente desaparece. Acontece uma saída melancólica. O investimento no objeto passa a ser direcionado no sujeito. Não se quer abrir mão de sua relação de objeto.

 

O luto é deixar ir algo que se perdeu. Para poder-se continuar vivendo de uma maneira mais transformadora.

Existe uma dificuldade de se fazer luto da experiencia do século XX?

Para Buttler, a melancolia é um ato de coragem porque nao se deixa morrer algo , mas Zizek diz que a coragem está em deixar ir algo que já morreu.

Lacam diz que a depressão é uma covardia moral.

Para a psicanálise, as operações de separação que são emancipatórias tem a estrutura do luto. Luto fraco do que existia, luto forte, do que vc nunca teve.

 

O problema nao é fazer luto do objeto, mas da relação de objeto. O que está envolvido é a satisfação do sujeito.

 

O sujeito não é definido pelos objetos que consome, mas pelos fracassos no desejar.  O fracasso mantem uma posição de uma identificação, pois alimenta o campo do ideal que ainda não se alcançou.

 

A somatização histérica não fica no eu, mas no corpo, o corpo mortifica-se.

 

O que consiste o trabalho que o luto realiza? As pessoas nunca abandonam de bom grado uma relação libidinal, nem mesmo quando um substituto aparece. Quando o luto se conclui, o ego fica novamente desinibido.

 

O que é uma coisa nova, uma coisa que não é e nós queremos que venha a ser?

 

No cristianismo,  a morte acontece em vida, e a vida é apos a morte, e isso é uma no(vida)de.

 

1h09