Nota #6 [23/09/2014] (RJ-I)

De tudo o que foi lido em nossa última reunião, é possível retirar um ponto de contato com a fidelidade com a causa de um militante.

Se o sítio evental, pelo que podemos compreender, é a demarcação de um evento, ou seja, onde ele acontece, podemos supor que a fidelidade de um militante a uma causa é demarcada sim pelo evento, mas, sobretudo pelo lugar onde este evento ocorre. Em geral quando somos fiéis a uma causa é por que sentimos que o evento nos chega de forma a mudar nossas percepções a cerca da realidade. O contato direto com situações extremas, ou mesmo quando estamos no que Enrique Vila-Matas denomina como a beira do abismo, nossa fidelidade passa a não ser mais temer este abismo. E sim explorá-lo. Talvez o sítio evental seja o próprio abismo, e o evento é o que nos torna exploradores do abismo.

Nota #5 [23/09/2014] (RJ-I)

Achei muito importante o ponto levantado a respeito da concepção de militância de Badiou sobre a divisão do “corpo subjetivável” – essa ideia de que o corpo militante coletivo é dividido entre o trabalho de inscrever algo que não existe no mundo e a experiência de antecipar algo de novo no presente. Gostaria que explorássemos um pouco mais essa questão, que me parece já articulada na divisão entre comunistas e anarquistas – mas o que seria ali uma oposição é, para Badiou, uma divisão interna a um corpo coletivo só.

Nota #11 [03/06/2014] (RJ-I)

Uma das principais características do CEII é criar os artifícios de organização no seu próprio processo de constituição. O CEII não existe: é diante deste fato que os militantes se esforçam em sustentar sua existência e suportar seus efeitos. Um dos principais artifícios que criamos até o momento foi a nota de trabalho. A nota de trabalho é um elemento tão fundamental que foi em torno dela que as principais questões relacionadas ao ingresso e permanência de membros surgiram. No entanto, já podemos assinalar outros artifícios importantes que criamos. Destacaria a proposta de organização interna por meio de sub-conjuntos de trabalho. Contudo, precisamos conceitualizar melhor este procedimento organizacional.

Fica, portanto, uma pergunta: o que é um subconjunto de trabalho do CEII?

Nota #4 [23/09/2014] (RJ-I)

Diferença entre pontos de fracasso e consequências do fracasso

 

A perda súbita de nosso financiamento e o surpreendente pedido de desligamento de uma camarada – que nunca deixou de fazer críticas e apresentar suas diferenças, mas sempre manteve seu compromisso engajado com o Círculo – são duas ocorrências recentes que têm em comum o fato de terem acontecido inesperadamente. Ninguém esperava nem podia prevê-las (mesmo no caso da camarada que já sinalizava algumas insatisfações; daí para o desligamento há um hiato). Uma interrogação que se refere a essas duas ocorrências, mas também aos últimos desligamentos/expulsões é: até que ponto eles não poderiam deixar de ser imprevistos e repentinos, e a partir de que ponto o grupo poderia ter tomado pé da situação. Em outras palavras: esses fatos são inevitavelmente surpreendentes ou esse caráter surpreendente deriva de uma posição do grupo?

Assumindo que esses fatos (manutenção do financiamento para o círculo e permanência dos membros no círculo) dizem respeito ao processo de fidelidade do grupo em nome do CEII, notamos aí um fenômeno curioso: os pontos de fracasso da nossa fidelidade ao CEII apresentam-se para nós como extraordinários ao próprio CEII, como se eles apontassem para a necessidade de uma nova declaração.

Outra coisa: essas ocorrências que marcam para nós algo extraordinário ao CEII não são os pontos onde fracassamos. Elas são as consequências de nosso fracasso. Esperamos que em breve tenhamos ocorrências que sejam as consequências de nossa fidelidade.

NOTA #7 [12/08/2014] (RJ I)

Um espectro ronda o CEII, a forma-partido:

Talvez o tema que mais suscite efervescências dentro das rodas de conversas do Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia é a sua relação organizativa e quais são seus traços em relação a forma-partido, além de sua forma-sem-forma e suas forma-para-o-partido. É possível levar isso em consideração? Sim que talvez!
A forma-partido e o seu aparelho burocrático-funcional tem como a finalidade o agir-no-agora, é ótimo. Talvez o CEII tenha uma forma própria, uma forma-CEII que é um tanto disforme e que usa do seu estatuto para pulverizar a sua própria organização tendo em conta a própria fluidez estatutal de si. E qual o problema? Investigar situações e objetos (textos e notas) de trabalho é um dos caminhos seguidos pelo Círculo, sem um compromisso rígido e segmentado de atribuições que pressionam o órgão a produzir. Desse ponto de vista, a Ideia do CEII é diferenciada e, não-capitalista (modo de vida capitalista, burguês, moderno e etc…), já que, seguindo a famosa frase de Pierre Clastres: “Os povos selvagens tem um sistema de votação onde eles votam com os pés”.
O conteúdo transmitido por Badiou nos referencia muito bem acerca da coisa-CEII, ele dá pistas. É evento, é campo, é discurso, é sujeito, é igual, é diferente, é rígido, é gasoso, é fidelidade, é desapego, em suma, é a Não-identidade e a Contradição.

Nota #3 [23/09/2014] (RJ I)

Por que saio do Ceii, ainda:

 

Houve um consistente jogo de espelhamento com o intuito de produzir isolamento e conduzir a uma situação de constrangimento. Isso não é maneira digna de tratar ninguém. Informações circularam de maneira exclusiva de para configurar culpa e consequente embotamento, privação de participação. Nada foi justificado ou trabalhado em conjunto. Diversas vezes houve insinuações de julgamento sobre meu estilo de vida, hábitos que eram só meus foram atacados de maneira a geral vulnerabilidade. Quais alternativas restavam? toda tentativa de procurar apoio dentro do grupo não surtiu em respostas significativas, ninguém se expressou particularmente sobre o que tinha sido feito. Tudo isso em nome do que?

 

A lógica sem substância em que se resume a prática de desconstrução operada, é a morte de qualquer possibilidade de autonomia e libertação. É o que desconecta vocês da vida que acontece no terreno dos mais mundanos e que vai impedir que entrem em contato com o potencial revolucionário autêntico. Esse maquinário que todos tinham a serviço pode ser uma fábrica também de produzir o pior tipo de perversidade. O soldado anônimo. Qualquer grupo que aceite deliberadamente ou não, se aproveitar da vulnerabilidade de um indivíduo perante a imposição da crença da maioria é um ato de violência que nunca pode ser redimido. Essa conta não pode ser equiparada a um futuro luminoso provável, ele não é garantido e pode simplesmente gerar a rejeição do sistema justamente pela tentativa de doutrinação.

 

Se é isso que é ser um verdadeiro ateu: se servir da religião para finalidades e interesses obscuros, é aí que coloco a raiz do mal que nos propomos a combater. E não aceito ser parte disso. Meu sistema de valores pode não ser ordenado e fazer sentido pra quem olha de longe. Mas não pode ser ‘pregada’ uma maneira correta de conhecer alguém. Enquanto essa disputa é feita de frente, de pessoa pra pessoa, certas ofensas e antagonismos são permitidos, mas quando um grupo se une com propósito de implantar uma ideia nos outros, é perversidade. Talvez a minha linguagem seja limitada pela minha experiência e por isso minha argumentação fique restrita a parcos silogismos e apelos a figuras de linguagem. Não importa o quanto o seu sistema seja coerente e pareça libertador, se as práticas atreladas a ele produzem subserviência. É nesse nível que o seu conhecimento ainda não consegue operar e se ilude ao se colocar como salvador das causas nobres.

 

Quando digo que essa hierarquia produz perversidade é no sentido de que o discurso disseminado acaba permitindo que qualquer um se esconda por trás dessas maneiras regulamentadas de se portar e monte um cenário especial que atenda à sua vontade, realizando alguma satisfação obscena pois passará despercebido em meio a todos os outros que só estão tentando seguir as regras sem dúvida sem angústia.

 

É muita desonestidade intelectual defender que houve uma situação traumática e a isso eu liguei uma rejeição ao grupo, pois novamente, não se tratava de um contrato explícito de transferência de poderes. A lógica solipsista da práxis pseudopsicanalítica é perigosa nesse sentido, Nos prende a uma comprovação que eu afirmo não aderir. A confiança é algo que se dá de graça, não se atesta a sua veracidade pela mentira. Fui relegada a uma posição de ameaça sem ter sido informada desse efeito, apenas foi sendo alimentado segundo a vontade arbitrária dos indivíduos.

 

Mas a maior injustiça foi o fato de que várias pessoas estavam participando dessa simulação direcionada e consentiram em dissimular informações.

 

Angústia é o que nos mantêm a possibilidade de nascer de novo. A dúvida e a confusão são o que nos colocam de frente pro grande mundo desconhecido. Se as minhas contradições se excediam isso não dizia respeito ao grupo se mobilizar para uma ação conjunta e direcionada para causar modificação. Nada justifica utilizar dados privados contra a própria pessoa com o intuito de trazê-la para mais perto. Em nenhum momento foi explicitado que se tratava de uma relação de tutela ou para fins terapêuticos. No máximo foi estabelecido uma relação dentro de um laboratório social, isso não dá permissão de não informar os atores de que estão sendo observados.

NOTA #2 [23/09/2014] (RJ I)

Para mim, é assunto difícil. Não saberia discernir de forma teoricamente clara o que penso sobre o problema. Mas acho que uma distinção precisa ser tentada tanto quanto se pode. Do que acompanho, e aprendi a concordar, faz parte da hipótese lacaniana que o “sofrimento psíquico” não resulta das “interdições” que internalizamos/criamos/enfrentamos em nossa “experiência subjetiva” – uso aspas porque estou completamente alheio à precisão formal da discussão. O tipo de sofrimento ao qual estaríamos expostos é mais produto das experiências de “gozo” e “autonomia” proporcionadas do que seu inverso.

Apreendido grosseiramente, para mim, essa interpretação parece profícua.

Se estou certo, ainda que de modo precário, usando o jargão político-esquerdista para fazer uma relação entre psicanálise e marxismo, interpretaria que os processos de dominação característicos de nosso tempo são estranhos. Porque, ao contrário do que se assume, a dominação – e tudo o que acarreta ao dominado – resulta de vínculos e relações que ele estabelece num contexto de “liberdade” e não de “limite”.

Por exemplo, poderia arriscar que parte da inefetividade das práticas históricas de luta política contra a ordem são resultado de sua indiscernibilidade em relação ao que pretende transformar. Quero dizer: a assunção que a luta política, radical, de transformação, pode ser figurada pelo “romper das amarras” pressupõe que a experiência social de dominação impede que uma potência, genuína e ontologicamente distinta da “ordem”, venha à tona. A luta contrahegemônica predominante, talvez para interpretar o que deu errado com seu passado “totalitário”, assimilou essa ideia.

Hoje, no entanto, as organizações políticas permanecem falhando. Os indivíduos não são mais causados por elas, cada vez menos estes são atraídos por elas. Imediatamente pode-se dizer que a razão é sua incapacidade de sustentar as ideias que as constituem. Ainda há, evidente, lutas contra a ordem. E são absolutamente marginais e inócuas as que não assimilaram o fracasso das experiências políticas da esquerda “coletivista” do século XX. De todo modo, o totalitarismo permanece como espectro e sempre pode-se avaliar que o “partido [grêmio estudantil, sindicato, associação de moradores etc] é como exército; há hierarquia, atribuições e mando”. Segue-se, sempre visando a manutenção da luta contra ordem, uma autocrítica que, mantendo o princípio de sempre, se corrige: “o partido [grêmio estudantil, sindicato, associação de moradores etc] realmente parece o exército, desfaçamos o que ocasiona isso”. E falha-se novamente. E repete-se o procedimento.

Pelo método da etiqueta tenta-se refundar as lutas sociais e elas falham. Sempre, ao que parece. No que? Suponho, em promover uma experiência que contraste com o mundo. Por que? Porque o repetem em seu ordenamento. Como propõe a interpretação imediata? A ordem e as lutas contra ordem se assemelham nas práticas e nas ideias? Produzem sempre uma experiência de sujeição ao indivíduo? Talvez, sim. Mas, por outro lado, será que a luta não falha em realizar esse contraste porque não promove tão bem quanto o mundo a experiência que se quer almejar? Nesse sentido, o mundo oferece mais que a luta e não menos. Sobre o que? Sobre o que a luta quer oferecer – uma experiência de autonomia, singularidade etc. Nesse caso, não seria o mundo a estar aquém do princípio libertário que motiva as lutas, mas, ao contrário, a própria luta. Ela não o faz, nunca, tão bem quanto o mundo faz. Quer se dizer então que não há ou deve haver luta? Não, evidente que precisamos mantê-la. Mas, ela não faz, nunca, tão bem quanto o mundo o que pretende fazer. Ela, a luta, falha ao promover uma experiência subjetiva que contraste com o dado? Sim, mas diria, novamente, que é mais do que isso: ela não a promove com a mesma intensidade e potência que àquilo que ela quer transformar. Então, a “ideia de liberdade” que anima as iniciativas de emancipação social deve ser abolida? Pensando em Badiou, a ideologia sobre ela, de fato, precisaria ser.

Em nossa última reunião, me lembrei de um cantor popular que disse ao vivo pela televisão para seu milhares de fãs que naquele dia completava quatorze anos de idade. Evidente, ele se referia à sua conversão ao cristianismo. Como esquerdista, imediatamente, fui remetido à ideia do quão era ridículo um homem com mais de quarenta anos imaginar que tem essa idade. Mas será que ele imagina? Tê-la, nesse caso, talvez, signifique sua decisão pela conversão. Declará-la, assim, tem força de inscrição subjetiva e prática. Ele, é claro, não altera a ordem cronológica de seu corpo, mas sua instituição como sujeito etc… Ainda assim, para mim, é possível permanecer com a impressão do quão “ridículo” pode ser esse encadeamento de coisas. Ao mesmo tempo, é notável como hoje a única experiência social que contrasta com o mundo é a religiosa. Ela oferece uma experiência subjetiva que, sob uma asserção, que transforma o mundo porque transforma o homem. Quando diz-se “eu tenho quatorze anos”, não duplica-se a realidade, mas dividi-se a vida: não há Céu/Inferno; se nasce, vive, e renascendo, viver-se-á sobre a morte daquela primeira vida – de modo similar, se entendi, ao que discutimos na última reunião com São Paulo. Enfim, existem todas as sutilezas e contradições da coisa, além do misticismo etc. Pode-se considerar tudo isso. No entanto, para mim, é surpreendente, por exemplo, como a experiência política quando faz sua asserção é completamente irrelevante. Digo, não parece dividir nada. Quando ingressamos num coletivo, qualquer que seja, o ingresso e permanência nele não difere de nascer e viver, por assim dizer. A experiência política cada vez menos parece ser capaz de se dispor à uma declaração, um ato. O cantor, imagino, procurou a religião por aquilo que não era para mudar o mundo. O militante, penso, procura a política pelo que já é para transformar o mundo.

Bem, se há um “lugar” em que o indivíduo é requerido pelo que já é não seria a sociedade realmente existente? Basta ver televisão, conversar com qualquer um, para percebê-lo.

Não à toa parece ser tão insuportável, limite para toda política, tocar nele.

 

 

 

 

 

Nota #1 [19/09/2014] (RJ II)

Para Zizek a ideologia absorve qualquer tentativa de transgredir a ideologia, tornando a transgressão parte dela. Apesar disso o Evento de Badiou cria uma transgressão da ordem do Devir, ou seja, do não Ser para o Ser e do Ser para o que deveria Ser, Logo a ideologia que é da ordem do ser sofre uma reformulação. Essa reformulação ocorre por que os novos elementos não são partes da situação tentando sair dela, mas elementos que não apareciam na situação anteriormente aos quais a ideologia não conseguir absorver.