NOTA #1 [22/08/2014] (RJ II)

1. Estou realmente imerso na atual leitura – que está nos ajudando em muitas questões pertinentes ao próprio funcionamento do Círculo e que, consequentemente, trata de muitas questões pertinentes ao funcionamento das instituições, dos movimentos sociais, do debate político, etc.

2. Quando não há algo a ser problematizado na nota de trabalho, “de quem é a culpa”? Se assumimos que não há o que ser problematizado, então o trabalho do Círculo como um problematizador das questões contemporâneas vai por água abaixo. Se assumimos que há pelo que lastimar e empurramos a culpa na função do Mais-Um, então postulamos uma figura que supostamente problematiza (isto é: que é encargo de alguém, em última instância, problematizar). Resta a querela: engajamento individual x engajamento coletivo. Mas em que medida um produz o outro? A nota de trabalho é uma prova de que o indivíduo se engaja. É a marca de que há um engajamento subjetivo. Porém, em que medida a problematização conjunta possibilita que haja a problematização individual?

3. O que é a nota de trabalho?

Nota #7 [22/07/2014]

Pensamento e Organização

 

Numa passagem de Logiques des Mondes, Badiou afirma que a incorporação da verdade é uma questão de organização (p.49). Trata-se de abordar como as verdades aparecem na singularidade dos mundos, e não como era o caso em O Ser e o Evento de abordar o ser das verdades no mundo em geral.

 

Trata-se aí de uma pequena pista sobre o que pertence à ordem do pensamento e o que diz respeito ao domínio da organização. Enquanto o pensamento, como sinônimo de processo de verdade, refere-se ao ser das verdades e à sua forma genérica, tendo como parâmetro as operações subtrativas em jogo na matemática (indecidível, indiscernível, genérico e inominável), a  organização refere-se à aparição de um corpo de verdade num mundo singular, cujas operações são extraídas também da matemática, mas de uma formlização mais geométrica e calculadora, tomadas de uma topologia das localizações e de uma álgebra das formas de ordem.

 

Com o que foi dito acima não é possível compreender o que é pensamento e o que é organização. Mas a intenção é pelo menos aasinalar que, do ponto de vista da filosofia de Badiou, o pensamento é uma questão ontológica relativa ao ser das verdades ao passo que a organização é uma questão lógica relativa ao seu aparecer nos mundos singulares. E quanto a relação entre pensamento e organização, Badiou diz que se trata de uma pesquisa que ainda precisa ser realizada: “… entre “procedimento genérico” e “consequências intra-mundanas da existência de um inexistente” eu deixo pra mais tarde, ou para outros” (p.49).

 

 

NOTA #9 [06/05/2014] (RJ I)

Em  Marx,  a natureza da história é também a de ser o âmbito em que pode se dar a apropriação do próprio, mas de tal maneira que a cada vez essa natureza chega a si diferentemente – se é que já chegou, alguma vez. Esse  é  o  sentido  da  palavra comunismo.  Contudo,  tal  apropriação  só  pode  se  dar  no  âmbito  do trabalho; e  o que  dispõe as possibilidades  da  existência  é, por sua vez, a  produção. O problema de como se constitui propriamente mundo é, em Marx, o problema da produção – eis a nossa tese.

NOTA #5 [12/08/2014] (RJ I)

O gesto platônico de Badiou

Pensamento = teoria e prática

 

Qual é o critério que permite definir o que é teoria e o que é prática? Cada uma delas se define em função de uma realidade própria, ou elas se referem a uma mesma realidade?

 

Se temos em mente a filosofia aristotélica, a teoria diz respeito àquilo que é independe do homem, enquanto o domínio prático concerne a tudo que envolve o homem. A ciência, por referir-se à natureza, seria teórica, ao passo que a política, eminentemente humana, seria prática. Essa diferença entre dois tipos de realidade, uma natural e outra humana, seria então o critério de distinção entre teoria e prática. Mas se a nossa referência for Platão para quem só há uma única e mesma realidade (a Ideia) cuja apreensão requer, ao mesmo tempo, uma atitude prática e teórica (ruptura com a opinião e construção do pensamento), não importa o domínio, a teoria e a prática sempre caminham juntas.

 

A verdade concerne só à teoria, ou diz respeito tanto à teoria quanto à prática?

 

Para Aristóteles, a verdade e a universalidade dizem respeito apenas ao domínio teórico, enquanto a prática é da ordem da probalidade e da contingência. Já para Platão, tudo o que é pensável, seja a matemática ou a política, pertence à ordem da verdade e da universalidade.

 

O gesto platônico de Badiou refere-se a essa conjunção entre teoria e prática e ao pertencimento de ambas à ordem da verdade e da universalidade no nível do pensamento. A afirmação de que a filosofia não tem objeto próprio, de que ela não pensa por si mesma, mas depende de condições (o amor, a política, a ciência e arte) significa situar o pensamento e a verdade nesses procedimentos onde teoria e prática estão conjugadas.

 

Nota #5 [01/07/2014] (RJ I)

Na nota de 01/07, farei relato na verdade do evento do dia 18/07 ocorrido no palácio Pedro Ernesto.

Na ocasião houve a cerimônia de entrega da “Medalha Pedro Ernesto” ao coletivo comitê popular da copa. Estavam presentes no plenário representantes de movimentos sociais, Marcelo Freixo, Renato Cinco, Vladimir Safatle, e o representante de um comitê local para a copa do mundo da África do Sul, que denunciou as arbitrariedades cometidas pela FIFA em seu país em 2010, trazendo um discurso que ia contra as ideias de que a copa do mundo traria benefícios à população citando dados e documentos.

O que me chamou a atenção na verdade foi o discurso de Safatle, que por vídeo conferencia, salientava que havia na verdade um benefício relacionado não só a copa do mundo, mas relacionado aos chamados megaeventos. Para ele somando se isso aos acontecimentos de Junho de 2013, a população se tornou menos arredia e não passou a ver mais, a copa do mundo da mesma forma. Isso significa que sim, podemos torcer pelo Brasil e assistir aos jogos da copado mundo, sem, no entanto cair em um ambiente de plena felicidade e otimismo. Inclusive gostaria de transpor uma ideia de Kant em seu texto intitulado “Was ist aufklärung” em que este defende a educação e o descobrimento como fundamentais a serem feitos pelo próprio homem e não por um governo ou outro tipo de poder que nos diga o que é verdadeiro e o que é falso, culminando com sua ideia principal de que: é necessário investigar, saber, para ter consciência de que você está sendo governado. Obedeça, mas saiba porque você está obedecendo.

Da mesma forma creio que podemos torcer em jogos durante a copa, porém sem deixar de saber o que está por trás de tudo isso. Agora o que resta saber é: isso daria lugar para uma crítica a esta postura? Não estaríamos aí agindo conforme o cinismo ideológico?

NOTA #3 [15/08/2014] (RJ II)

Na introdução de Zizek para o livro Um Mapa da Ideologia ele faz uma afirmação semelhante ao esquema badiouiano, sem no entanto citá-lo, ela se refere a o lugar da crítica da ideologia: “Quando denunciamos como ideológica a própria tentativa de traçar uma linha demarcatória clara entre a ideologia e a realidade efetiva, isso parece impor, inevitavelmente a conclusão de que a única postura no ideológica consiste em renunciar à noção mesma de realidade extra-ideológica, e em aceitar que tudo com que lidamos são ficções  simbólicas, com uma pluralidade de universos discursivos, e nunca a realidade”. Mas essa saída é apenas um atalho fácil pela via do pós-modernismo, nos fazendo recair impreterivelmente na cegueira ideológica. Para escapar dessas armadilhas do pensamento, ele defende que persistamos numa posição impossível: “Embora nenhuma linha demarcatória clara separe a ideologia e a realidade, embora a ideologia já esteja em ação em tudo o que vivenciamos como realidade, devemos ainda assim, sustentar a tensão que mantém viva a crítica da ideologia.” O caminho que o autor indica é de assumir um lugar que nos permita manter uma distância em relação a ela, porém esse lugar de onde se denuncia deve permanecer vazio, não pode ser ocupado por nenhuma realidade positivamente determinada. Para defender esses pressupostos, o autor se apóia na linguagem fenomenológica de Hegel, estipulando um dentro e um fora do sistema de pensamento, nesse quesito ainda que existam algumas semelhanças com a estrutura de Badiou, acredito que seria importante nos aprofundarmos em grupo nos pontos de encontro e de diferença na linguagem dos dois.

NOTA #2 [15/08/2014] (RJ II)

O novo texto base escolhido para as reuniões do CEII RJ-II no começo de agosto foi o capitulo 3 do livro “O Sujeito Incomodo” de Slavoj Zizek, este capitulo se chama “A Política da Verdade, Ou Alain Badiou como leitor de São Paulo”. O capitulo é um resumo feito por Zizek sobre as teorias de Badiou, como por exemplo, a teoria ontológica e a do Evento. Gostaria de abrir certas questões, Por que o primeiro texto de Zizek a ser estudado no RJ-II é um resumo da teoria de Badiou? Levando em conta ou não o quanto de contato com a obra e a linguagem de Zizek os membros do RJ II tem. Qual é a justificativa para que a resumo da teoria de um dos nossos autores podem ser considerada texto base da principal atividade do CEII, ao invés de uma referencia ou texto de apoio? Por causa disso gostaria que a escolha de texto fosse repensada.