Nota #1 [29/07/2014] (RJ I)

Badiou acredita que o modelo de militância [prático e conceitual] que precisamos está na trajetória de Paulo. Da penúltima reunião, entendi que sua tese é que o discurso cristão fornece o material para a constituição do Sujeito ao produzir um “novo objeto”. Sumariamente, os discursos grego e judaico não poderiam fazê-lo porque não possibilitam esse engajamento, em função da forma de seus objetos. Por que? O indivíduo que se compromete com ele é, digamos, passivo. No sentido de que seu objeto, dado por esses discursos, é absolutamente consistente, íntegro – não lhe permite ser “ativo”. No limite, independe dele. O vínculo que o judeu ou o grego assumem com ele é, relativamente, protocolar porque não exige vinculação – isso é, a subjetivação que Badiou comenta, diria. Claro, como Badiou apresenta, há oposição entre a realidade pensada por gregos e judeus – cada discurso organiza a realidade de dado modo, mutuamente excludente entre si, o que decorre suas diferenças práticas. Mas o que é igual entre eles é a falta de uma abertura que, ao fim, sirva ao nascimento do Sujeito.

 

O discurso cristão, ao contrário Segundo Badiou, Paulo não teve nada para poder se engajar, se comprometer com a Verdade enunciada por Cristo. Não tem nada Dele consigo. O objeto cristão, em comparação ao grego e judeu, é absolutamente frágil. Não concede nada, nenhuma certeza, coerência, causalidade. Esse hiato, lacuna, enfim, me parece, é que possibilita a emergência do Sujeito. Cobrando o mais caro, deu as condições para o mais raro. O discurso cristão, segundo a interpretação de Badiou, não passa de uma inconsistência inicial para substituí-la por uma consistência final. Parece mantê-la como momento ineliminável de sua força, de sua Verdade.

 

A relação do CEII com o PSOL, ao menos em nível de coerência teórica com os filósofos que estudamos, me parece “justificada”. O PSOL, caso sirva de verdade ao militante, só pode sê-lo por razões muitos distintas que usualmente servem para fidelidade partidária – o objeto é outro, o sujeito não pode ser o mesmo para tê-lo. Quero dizer que, a meu ver, o discurso judaico e o discurso grego possuem estrutura semelhante aos discursos de todos os partidos de esquerda que temos hoje no país no sentido de que há certa “inteireza” em todos eles. Eles, para mim, possuem um objeto definido. Variando entre a “democracia” e a “luta de classes” oferecem algo, identificável, coerente em seus próprios termos, para que seus militantes venham a ser o que são. O mundo lhes é claro. Bem, se considerado assim, não há partido que, à luz dos argumentos de Badiou, forneça as condições para a constituição do Sujeito – problema prático e conceitual do Círculo.

 

O caso é que, evidente, podemos pensar que o militante, o engajamento, o sujeito, enfim, não é incompatível com o PSOL, mas com a forma-partido em si. É o caso de se pensar, com toda certeza. Mas, visando uma “consequência conceitual” em nossa atividade, acho que o esforço com a forma-partido se justifica com algumas hipóteses de Zizek. Não acompanho todas, não tenho desenvoltura com elas, mas, no essencial, a ideia de que o mais insuportável deve ser suportado – uma de suas apostas, se as entendo – está conosco ao manter princípios que motivam todos no lugar em que ninguém quer estar.

 

 

NOTA #10 [03/06/2014] (RJ I)

O conceito psicanalítico “divisão do sujeito” é inserido por Badiou em sua reflexão sobre a militância – através da trajetória de Paulo. No entanto, qual seu uso para a política hoje? Há alguma vinculação possível entre e o “sujeito revolucionário” pensando pelo marxismo?

NOTA #9 [03/06/2014] (RJ I)

Algumas notas

Essa nota tem como objetivo apenas comentar, de forma muito rápida, os gráficos contidos na referência do dia 03/06/2014 no site do CEII, que dizem respeito, respectivamente, a Produção Clínica; Ideal e Ideia Comunista; Teoria, Organização e prática; e A divisão subjetiva.
A Produção Clínica para o CEII, serve como uma forma de linguagem com circuitos exteriores a ele, descobrindo, quase como um eco, alguns elementos de vários outros ramos (vale dizer, movimentos sociais, agentes políticos etc.). Talvez seja um instrumento que tenha certa autonomia quanto ao modo de operar. A produção clínica, como algumas vezes aconteceu, destaca-se pela ação aleatória deixando a cargo do visitante organizar e provocar o CEII como um todo.
A Ideia comunista se apresenta como uma diretiva, e a comparação dos dois modelos (no site) expressa, de uma forma bem simples, o período de transição em que as teorias e os fatos estão inscritos. Sem dúvida alguma é um novo momento, ou seja, um “Novo Tempo do Mundo” que, com o auxílio do (1), “as coisas” mudam também.
De encontro com a Ideia comunista, está uma teoria da organização organicamente montada.
Depois dos dois parágrafos acima, voltamos ao livro do São Paulo: a divisão subjetiva. O esquema (do site) esclarece muito bem como o São Paulo de Badiou faz um discurso pendendo para um discurso do não-ser, ou seja, da declaração. Esse não-ser deve ser entendido como um “ser-negado”, morto, que vai renascer a partir do Evento. Essa dinâmica é muito interessante pois vai, de certa forma, na contramão do que a filosofia convencional vem dizendo. Mesmo com as passagens nebulosas, a lógica central não deixa de impressionar.

Nota #3 [22/07/2014] (RJ I)

Os problemas banais são fenômenos cruciais de uma instituição. Aparentemente, podem parecer de menor importância, dentro de um horizonte mais amplo em termos estruturais. No entanto, tais problemas quase sempre remetem a impasses centrais que constituem as instituições.
Tomemos um exemplo. Um professor, depois de um dia inteiro de aula, se desentende com um aluno do curso noturno. Este desentendimento pode ser interpretado como um mero acidente – portanto, desprovido de qualquer importância – , ou pode ser lido como efeito maligno das condições da escola (professor que ganha mal e tem que trabalhar o dia inteiro, alunos que não valorizam os professores etc).
Os problemas banais podem ser tomados ao menos de duas maneiras. Na primeira maneira, um problema banal não é reconhecido como um problema institucional. Ou pode até ser reconhecido, mas como os atores que compõe a instituição não têm poder de alterá-la, então o problema é “forçado” a ser banal. Este é o caso de instituições instituídas. Elas não são passíveis de serem modificadas pelos sujeitos que a compõem.
A outra maneira é o problema banal ser inscrito como um problema da instituição. Neste caso, o problema pode ser lido para além da mera banalidade e informar sobre um impasse crucial da instituição. Isso só pode acontecer em instituições instituintes. Nestas instituições, os sujeitos que a compõe têm poder de transformá-la.
Contudo, mesmo que o problema banal se inscreva enquanto um problema institucional, seus efeitos nos sujeitos podem permanecer, repetindo um mal estar que dificilmente pode ser solucionado. No exemplo acima, mesmo que a instituição reconheça que o desentendimento tenha sido provocado pelas más condições da escola, professor e aluno podem continuar sem se falar. Um problema banal geralmente tem uma dimensão “pessoal” inescapável e pode ser que a instituição tenha que conviver com este desentendimento por um longo tempo.

Nota #8 [06/05/2014] (RJ I)

Hegel e a religião

Revirando alguns textos, deparo-me com algum trecho em que o +Um fala da religião de Hegel. É sobre isso que essa nota se quer fazer sentido. (1) Primeiramente, eu gostaria, para incrementar o assunto, de recolher em quais passagens a religião é explicada por Hegel em toda a sua obra. (2) Tem a possibilidade de a doutrina de Hegel ser algum discurso no formato dos que nós estamos estudando (no estilo de “tetradiscursos”). Acredito que, para Hegel, a religião não se confunde somente com a religião positiva, aquela em que existem vários tipos de ritos e fundamentos. Talvez analisar a Religião seja um caminho, os seus limites e seu alcance pode nos ajudar a entender como esse elemento constitui realmente as praticas sociabilizadoras… Espero que esse trabalho, mesmo que dessa forma confusa e condensada, possa servir para fomentar um debate no círculo.