Nota #3 [24/05/2014] (RJ II)

A posição de Badiou sobre o lugar do indivíduo na história, de fato, destoa das correntes. Em graus variados, pode-se dizer, mas, no essencial, não equivale a nenhuma. Pensando em termos ideológicos, entre esquerda e direita, parece haver um consenso sobre o assunto.

Tradicionalmente, a direita sempre esteve preocupada com o assunto: o indivíduo sempre foi o cerne de sua concepção de história (de Robinson Crusoé até o empreendedorismo contemporâneo), não pode haver concepção de mundo burguesa sem indivíduo. Por seu turno, para a esquerda o indivíduo é, no essencial, resultado de suas circunstâncias históricas. Claro, também é, ao mesmo tempo, responsável por elas, mas seu espaço de ação depende dos contextos.

Existe um sensivelmente deslocamento nesta grade hoje.

A direita, em sua forma espontânea e predominante, não é de todo estranha à ideia esquerdista de que “o contexto faz o homem”. O liberalismo tolerante e democrático de hoje, mesmo centrado na apologia do indivíduo, inclui em seu discurso o elogio da “oportunidade” – em termos marxistas: o elogio (ideológico) do indivíduo, sabem os conservadores de hoje, depende das “circunstâncias históricas”.

Não à toa, cada vez mais, a distinção entre esquerda e direita é difícil demarcar.

Badiou parece estabelecer outra relação “o indivíduo” e “A História”.

Nota #2 [24/05/2014] (RJ-II)

Comunismo para Badiou é algo que não se limita a uma política definida, seria uma idéia que se forma através do real político, imaginário subjetivo e simbólico histórico. A formação da uma idéia, neste caso a do comunismo, porem poderia ser qualquer outra, começa em um processo de verdade, tal processo é representado por certo evento político. Este evento pode ser formação de um movimento político quanto uma discussão entre trabalhadores na frente de uma fabrica porem tal formação deve sair da linha do que há e entrar no território do inexistente, no caso comunista essa linha seria os limites do real ditados pelo estado. Esta verdade política da exceção se projeta na representação simbólica da historia. O individuo a apresentado, através da historia, a este excesso particular, a esta representação de verdade, esta idéia pode levar o individuo a sua incorporação ao processo de verdade e, conseqüentemente, a formação do sujeito político.

NOTA #1 [24/05/2014] (RJ II)

O comunismo é uma operação que articula três componentes: Política, História e Sujeito. Esta articulação é uma Ideia.

Isto é: quando pensamos e levantamos a bandeira do comunismo, não estamos fazendo apenas política, mas portando uma Ideia. A Ideia é o que nos faz romper o Estado da Situação – que é o estado de reprodução do mesmo – e exceder para além dele.

NOTA #2 [15/04/2014] (SP)

Nesta aula estudamos um pouco mais a fundo o duplo caráter do trabalho materializado na mercadoria (valor de uso e valor de troca) e o segredo da forma-mercadoria – sobre o qual Zizek fala em “Como Marx inventou o sintoma”.

Vimos que esse tipo de relação só pode existir em uma sociedade capitalista e que produz mercadorias, onde há uma divisão social do trabalho.

As mercadorias ganham um valor específico através de suas relações de troca. Há uma construção nesses objetos que não é tão obvia e que opera neste duplo caráter.

É na relação de troca das mercadorias que se manifesta o valor. Enquanto somente podemos trocar mercadorias com qualidades distintas, é necessário haver uma forma comum que iguale as heterogeneidades dessas mercadorias: esta é a forma dinheiro do valor.

Duas mercadorias diferentes só podem ser equiparadas depois de sua conversão a uma mesma coisa, pois somente assim, com grandezas homogêneas, elas podem ser comensuráveis.

NOTA #2 [22/04/2014] (SP)

Forma do dinheiro e do valor  – os economistas da época de Marx confundiam valor e a forma do valor (colocados como a mesma coisa – Marx busca justamente não só mostrar que não é assim, como apontar o duplo caráter do valor).

Forma relativa do valor – relação de dois polos de expressão do valor: forma relativa e forma equivalente. Há uma relação onde uma é passiva e a outra ativa (uma afeta a outra). A equivalência não é na troca, mas colocada na relação entre as mercadorias (um pulo do gato! Que desemboca no tal do fetichismo da mercadoria). As mercadorias começam a criar fenômenos, gerados por conta dessa relação – em uma forma quase mágica! As coisas vão funcionando de uma maneira que parece ‘natural’ – relação com o sintoma, ‘eu faço assim, porque eu sempre fiz assim.. De repente surge, quase meio externo!’ O sintoma tomado biologicamente e a mercadoria  ‘como dada’ – há alguma coisa funcionando e operando aí… Caráter polar – oposto, mas quase como os dois lados de uma  mesma moeda.

Forma relativa do valor

Para a forma relativa do valor ser compreendida, é mister primeiro desassociar as mercadorias de seus aspectos quantitativos. É a proporção que se equiparam de duas mercadorias diferentes – o que só é possível ao passo que as duas se equiparam à um terceiro elemento. Somente como expressões de uma mesma substância, são grandezas homogenias e por isso comensuráveis – essa terceira coisa é o que faz com que as mercadorias conversem entre si. Marx vai mostrando vagarosamente como esses elementos estão sendo construídos…

A divisão do trabalho é condição necessária para a mercadoria, mas a mercadoria não é condição necessária para a divisão do trabalho – a questão da mercadoria, tem que ter o duplo caráter (valor de troca e valor de uso). Relação de trabalhos úteis vão estabelecendo também relação entre eles – quando há demanda de um trabalho, alguém faz. O fato é que tem um trabalho prévio que estabelece relação entre as pessoas e isso influencia o modo de ser das pessoas e  vai se intensificando cada vez mais, até virar um sistema mais complexo de trabalho, onde há um intercambio que foge da concretude dos trabalhos (do tecelão ao trabalho mais abstrato). Para existir a mercadoria, você necessita da abstração do trabalho – do terceiro elemento que equipara todas. A partir do passo em que necessariamente invocamos uma abstração do que antes era simples, o que está em jogo é que não estamos mais na ordem da substancia contida no trabalho, por conta do trabalho – e aí que entra o caráter duplo. A via então não é de fácil acesso, mas necessidade de regras de equivalência. A divisão social do trabalho está no acumulo desses trabalhos e como eles passam a se transformar e exprimir um novo caráter. No capitalismo, de acordo com Marx, uma sociedade produz mercadoria, logo ela passa por essa abstração e estabelece o duplo caráter da mercadoria, trabalho, etc. Eis o segredo da forma! A abstração é extrema, apagando as características humanas, ficando o calculo pelo calculo! Influencia capitalista de enxergar as coisas, como tudo pode ser matematizado, e isso não é atoa! Pois é… O pessoal se preocupa com essa questão, mas sempre caem na quantidade e pela quantidade você não problematiza a raiz do problema – qualitativamente você pode e é isso o que Marx faz. ‘Isso está velado, porque precisa estar velado, se não estivesse seria de outra forma… Até a utilidade já foi apagada, como estamos agora?!’ A divisão social do trabalho é a aglutinação do trabalho e mostra que ela passa a exprimir a complexidade desses trabalhos.

Linho e casaco, como grandezas de valor são expressão da mesma coisa. Linho = casaco são fundamentos de uma mesma equação – que não desempenham o mesmo papel qualitativamente. ‘Dentro de um polígono, há triângulos’ à expressão das substancias que se igualam. As mercadorias são trabalho humano cristalizados – dá valor, mas não da forma para esse valor e é distinta da forma física. Quando a relação é entre duas mercadorias, a coisa é diferente – o trabalho é equiparado às duas mercadorias (mesmo que sejam diferentes trabalhos, se reduzem ao trabalho humano abstrato).  Como equiparar os trabalhos? Pela abstração.

Pela produção do valor que conseguimos a abstração das coisas e chegamos à um ponto mais complexo! Decompor não só a mercadoria, mas a relação entre elas. A abstração opera sobre a mercadoria – apagando a concretude, o trabalho e isso guia para essa abstração e coloca as mercadorias no mesmo lugar – falam a mesma língua!

Não basta expressar o valor específico da mercadoria (linho por linho não dá nada!), eu preciso colocar em relação à uma outra mercadoria e coloca-las em relação uma da outra falando a mesma língua – o trabalho humano então cria valor, mas não é valor. O ponto é: esse valor que se coloca automaticamente, não é tão automático assim. O que é valor e não é valor? à Vem a ser valor, tem potencia e torna-se quando se cristaliza, materializa em uma forma específica.  Quando a gente gera uma mercadoria, ela passa a existir dentro de um conjunto e ela não pode tirar valor por ela mesma (linho pelo linho).  A mercadoria só tem valor quando está em relação à um outra mercadoria – trabalho humano abstrato estabelece essa possibilidade delas se relacionarem, ou seja, forma de equivalência.

Forma relativa é o ativo – o que determina o valor para uma outra mercadoria.

Forma de equivalente é o passivo – não determina o valor, está em relação ao outra que dita a sua medida. Operam como polos distintos, que compõe um mesmo elemento – mesma natureza (fruto do trabalho). Ex.: Linho = casaco.

O linho reconhece no casaco a alma igual à sua através do valor,  mas o casaco não pode representar valor para o linho, se não assumir aos olhos dele a figura de casaco (materialização do valor, dando ao linho uma forma de valor diferente). Um individuo A não pode reconhecer em um individuo B o aspecto de um rei, se aos olhos de A, a realeza não assume os aspectos corpóreos em B à construção social.

O corpo da mercadoria B, transforma-se no espelho do valor da mercadoria A. O que acontece também ao ser humano, que se reconhece primeiro no seu semelhante (já antecipando Lacan..!)

Espelhos: tem uma relação entre mercadoria A e B, que se relacionam entre elas para se estabelecer como valor – nessa dinâmica, uma passa a expressa a outra, a partir da logica que coloca elas em pé de igualdade. A mercadoria A se vê como mercadoria, ao estar relacionada com B, assim como Paulo se vê Paulo por causa de João à Ganha-se caráter de expressão própria da mercadoria A por causa da B, relação de equivalência profunda. Grande passo aqui, para entender o fetiche da mercadoria.

! Importante pensar a ação política e como que de fato propor espaços como CEII tem haver com isso – e como podemos nos apropriar desses espaços, deixando claro suas posições.

NOTA #6[20/05/2014] (RJ-I)

“Paulo, veremos, é uma grande figura da antifilosofia. Ora, é da essência da antifilosofia que a posição subjetiva constitua argumento no discurso. Fragmentos existenciais, que às vezes parecem casos, são elevados à posição de garantia da verdade”
Assim Badiou apresenta Paulo no capítulo II – como um antifilósofo. O que, no capítulo IV (A Teoria dos Discursos) indica tratar-se, com a introdução da originalidade de Paulo, de uma antifilosofia? Antes de tudo, é preciso compreender como a filosofia é aí caracterizada: segundo Badiou, Paulo se serve dela (em sua representação metonímica: “grego”) como de uma disposição subjetiva que o permite “tornar legível sua completa originalidade”. Se grego designa então uma disposição subjetiva cosmológica – aquela que “dispõe o sujeito na razão de uma totalidade natural”; ao mesmo tempo sabedoria, como estado interno, e intelecção da physis – a originalidade antifilosófica de Paulo não poderá consistir senão numa “acosmia e numa ilegalidade”, representadas pela assunção da absoluta novidade constituída pelo discurso do filho, o discurso do cristo. No último encontro, no qual encerramos a leitura do capítulo IV, após ter demarcado o discurso de Paulo tanto de seu duplo filosófico (o judaísmo profético) quanto do discurso síntese dos demais (a mística pascaliana), Badiou insiste na originalidade de Paulo como aquela que reivindica para si a fraqueza da ausência de todo suporte na lei. A fraqueza, entendida como prescindibilidade de qualquer fundamentação extradeclaratória, torna, portanto, o discurso de Paulo irredutível ao discurso filosófico e às suas variações (judaica e mística), assegurando sua força.

 

NOTA #5[20/05/2014] (RJ-I)

Parece evidente que, se nos referenciarmos no ponto de vista de Badiou, a economia política é um discurso de tipo grego – sempre lembrando que o regime de discursos se referem a “disposições subjetivas” (citações de São Paulo, p. 52). É um discurso de sabedoria que se apropria da “ordem fixa do mundo, acoplamento do logos ao ser” (id.).

Em meu pensamento a assim chamada “ciência jurídica” é o anverso (ou o avesso) da economia política, pois se esta estabelece a pretensa ordem fixa do mundo continente da relação entre o trabalho e seus produtos, o direito estabelece a ordem das vontades interindividuais portadores destes trabalhos e destes produtos. Um é o oposto (trabalho e coisas de um lado e vontades interindividuais “livres” de outro) e ao mesmo tempo idêntico ao outro (as mercadorias não vão ao mercado se trocar sozinhas, precisam de portadores juridicamente estabelecidos, como dizia Marx, etc.).

Pois bem, o discurso jurídico podem bem passar como um discurso de tipo judeu, uma vez que ele se trata da decodificação de um conjunto obscuro de sinais, da “exposição do obscuro para seu deciframento” (id.).

E assim temos, para Badiou, que Paulo afirmou que “os discursos judaico e grego são as duas faces de uma mesma figura de dominação” (p. 53, grifo de Badiou). Os dois tipos de discurso se complementam, são duas faces da mesma moeda (e da mesma Lei).

O discurso cristão, segundo Badiou, inaugura a noção de fidelidade ao evento-verdade, instaura o acontecimento contra a “totalidade” (discurso grego) ao mesmo tempo que contra a “Lei” (discurso judeu).

O que poderia significar, neste contexto badiouano, uma superação das “disposições subjetivas” (pois é disso que se trata na Teoria dos Discursos) dos discursos do grego e do judeu, que tomou corpo na pregação pauliana? E se tomarmos as referências da economia política e da ciência jurídica como decalques destes discursos, o que significara tal superação?

 

NOTA #4 [20/05/2014] (RJ-I)

Pensamento e Organização

A questão sobre a relação entre teoria e prática ronda o CEII. Mais uma vez ela foi levanta, mas agora a propósito de uma nota que teria versado sobre a conjunção supostamente almejada pelo CEII entre Pensamento e Organização.

Na nota mencionada, Pensamento e Organização teriam sido compreendidos como duas dimensões distintas e estritamente correlatas à teoria e à prática, respectivamente. De modo que, Pensamento e Organização reproduziriam a oposição clássica entre reflexão teórica e atividade prática. O projeto do CEII com sua permanente re-formulação consistiria num conjunto de protocolos teórico-práticos enquanto a organização propriamente dita resultaria da aplicação prática e efetiva de tais protocolos. De um lado, o Pensamento, isto é, o projeto do CEII com suas premissas, objetivos, metas e protocolos de funcionamento; de outro, a Organização, isto é, o conjunto de atividades reais que adotamos no CEII, como as notas, o formulário, a produção clínica etc. Tratar-se-ia, assim, do primado da teoria (Pensamento) sobre a prática (Organização) uma vez que esta última resultaria da aplicação da primeira.

Para substituir esse esquema tipicamente idealista foi proposta a seguinte relação entre Pensamento e Organização: O Pensamento circularia tanto na teoria quanto na prática. Ou seja, o Pensamento não pertenceria exclusivamente ao campo teórico, mas estaria presente tanto nas reflexões teóricas que compõem o projeto do CEII, nossas leituras e discussões, quanto nas nossas atividades “organizacionais”, sobretudo, nos eventuais impasses destas últimas.  Tais impasses seriam, na verdade, momentos privilegiados do Pensamento na medida em que marcariam rupturas no desenrolar habitual de nossas atividades e teorias, exigindo de nós novas decisões práticas e teóricas.

Apesar da proposta acima romper com o primado e a correlação estrita entre Pensamento e teoria colocando o Pensamento em circulação também na prática (principalmente nos seus impasses), a questão que fica é se a Organização se confunde com o Pensamento em circulação. Qual seriam o lugar e o papel da Organização, se o Pensamento já articularia teoria e prática? Além disso, qual seria o estatuto do Pensamento: idealista ou materialista?

 

 

Nota #8 [06/05/2014] (RJ-I)

No encontro do dia 6 de Maio, demos continuidade à leitura do texto ‘São Paulo e a Fundação do Universalismo’, finalmente completando o esquema dos quatro discursos apresentado por Badiou:

Do lado da lei com identidade, temos o discurso da sabedoria (grego) e o discurso profético (judaico). O primeiro funda a dominação sobre o conhecimento do lugar de cada um no esquema geral das coisas, o segundo funda a dominação sobre a interpretação da exceção, daquilo que está fora de lugar como sinal de uma ordem ainda mais profunda. Do lado da lei sem identidade, temos o discurso apostólico, que promove uma nova lei, disjunta da identificação – e portanto, da garantia externa à prática que a sustenta. Finalmente, do lado da falta de lei e da falta de identidade, temos o discurso místico – o “discurso do não discurso”, que se retira da lei identitária abdicando tanto da identidade quanto da consistência de uma prática e de um pensamento compartilháveis, em benefício de uma experiência singular.

Nota #3 [20/05/2014] (RJ-I)

 

Um problema clássico da esquerda pode ser colocado da seguinte maneira: como ter uma teoria determinada de uma dimensão indeterminada da vida humana?  

Lá nos famosos “Manuscritos Econômico-Filosóficos”, o Marx defende que o homem como “ser genérico” seria justamente essa maldita criatura – que provavelmente por uma catástrofe inimaginável – calhou de ser “plástico” demais: as coisas que ele faz sem querer querendo acabam sendo não só acidentes, mas novas determinações do que é ser humano. Essa história de que o homem “produz a sua essência” não é tanto um elogio da potência humana – o ponto todo é que não temos uma potência específica – mas sim o reconhecimento que nascemos um pouco antes da hora, sem termos nos tornado humanos o suficiente. O Nietzsche falava que o homem é um “meio-animal” – não é mais que os outros animais, mas menos.

Dessa “falta-a-ser” vem tanto a servidão voluntária – a barganha através da qual, quando não nos é dado os recursos para suportar essa indeterminação, acabamos, para poder sobreviver, abrindo mão do potencial produtivo dessa indeterminação, em troca de um nome e um lugar bem demarcados, só que demarcado por um outro – quanto a capacidade de produzir a novidade, de inventar ideias e processos que eram impossíveis de antecipar de acordo com as determinações que já eram conhecidas.

O Marx defendia, então, que o ser genérico é um ser de essência indeterminada e existência determinada, de modo que uma crítica das “condições materiais de existência” se orienta pela hipótese metapolítica das “pré-condições indeterminadas da essência” – ou seja: a gente quer criticar um mundo (determinado) que impede o homem de ser o que ele pode vir a ser (através do seu potencial indeterminado). Aí aparece o nosso problema – porque, partindo desse pressuposto, a gente tem uma dificuldade adicional, que nossos inimigos não tem: como vamos fazer uma teoria determinada sobre um homem indeterminado sem “enquadrá-lo”? Como vamos dizer que o homem é um ser que produz a sua essência sem “essencializar” essa potência indistinta, dando para ela, subrepticiamente, um matiz específico? Por um lado, sem uma teoria bem construída, não temos como debater com os adversários, como fazer diagnósticos de conjunturas, nem como unificar lutas que ocorrem em diversos lugares e épocas sob uma mesma bandeira – mas uma teoria bem construída DEMAIS parece justamente trazer consigo um sentido oculto, vindo de fora, e, assim, acabar dando um tiro no pé. Um exemplo: a gente defende que o homem é esse tal ser genérico e, AO MESMO TEMPO, e POR CAUSA DISSO, que a história VAI ir na direção do comunismo. Ora, só porque a gente chamou a coisa de um jeito não quer dizer que essa é a lógica que estamos usando – e, de fato, a ideia de que a história tem um sentido, ou a ideia de que um grupo bem identificado de pessoas tem um papel nessa história, implicam que, mesmo que usemos um jargão de ser genérico e de indeterminação, estamos, na verdade, essencializando uma penca de coisas.

O problema acaba sendo o seguinte: como ter uma teoria distinta que não oblitere o indistinto? Qual longe podemos ir na construção de um quadro conceitual que se julgue materialista? Por ser materialista, não podemos aceitar que a teoria está fora do mundo, e portanto o que dizemos do homem tem influência no homem, e por ser uma teoria, o critério de rigor é justamente o poder explicativo, a produção de distinções e a transmissibilidade. Mas ficamos num pepino: será que o único jeito de respeitar a contingência, a multiplicidade e a indeterminação é não falarmos dessas categorias, não construir uma teoria de pretensão universal? De fato, não é a toa que há essa esquize entre uma teoria rigorosa da situação no mundo capitalista, com foco na crítica da economia política, e a teoria eficaz das possibilidade de luta contra o capitalismo, com foco na luta de classes em sua manifestação local – parece que ou temos ou as determinações teoricas ou a indeterminação política.

É aí que a gente pode realmente começar a apreciar a sacada fundamental do Badiou – e porque, apesar das aparências, o projeto de uma ontologia matemática é sim materialista: a tese do Badiou é que, uma “teoria do múltiplo puro” – uma teoria que não diz nada do que fala além do fato de que aquilo de que fala é múltiplo – é uma teoria que pode ser rica em determinações (a mais rica, na verdade) e que protege o lugar do indeterminado. E é exatamente isso que a “ontologia do vazio” permite a ele realizar: a fundação de uma filosofia que, sem prescrever nada aos processos práticos localizados (não pressupõe saber o que o novo virá a ser, nem como ou de onde ele vai surgir, deixando todas as determinações desse processo na mão do próprio processo), ainda assim é capaz de uní-los sob a bandeira das categorias de verdade e sujeito.

Daí vem também a acusação de Badiou de que Marx misturou demais filosofia com política, confundindo o lugar do comunismo: ao invés de tratar o comunismo como uma operação que relaciona as determinações locais de um processo político com as representações históricas que, enriquecidas pelo processo local, seriam capazes de projetar para nós a dimensão universal daquele processo excepcional, os marxistas (temerosos de que a verdade, o comunismo e o universal não existiriam a não ser no jargão), orientaram suas práticas locais por esses nomes pseudo-filosóficos (não é a toa que precisaram criticar a filosofia, é um empréstimo de termos sem pretensão de retorno). A sugestão de Badiou, uma vez desenvolvida sua filosofia da indeterminação e do novo, é justamente de remeter os processos políticos de volta às suas conjunturas, de-suturando eles de termos que, na pretensão de liberar as potências do homem, só fazem nomear as mesmas velhas determinações que estiveram em jogo nos processos políticos de 100 anos atrás. Quem diria, mas a filosofia pura – cheia de matemática, de universalidade e rigor – talvez possa ser hoje o abrigo da ideia de um verdadeiro pensamento da política como tal, como uma prática autônoma e produtora de inovação, desligada de uma metafísica disfarçada de ética e de elogio da humanidade.