Nota #5 [21/01/2014]

O Programa do PSOL evidencia que estamos tratando de um Partido que não quer sujar as mãos. Existe sempre uma folga entre o Partido e as ações: o Partido quer sempre construir o espaço para que as ações sejam tomadas e nunca, de fato, tomar essas ações.

Estamos tratando de um Partido que precisa se afirmar socialista e, também, libertário. De um Partido pós-crise do comunismo e pós-crise do projeto socialista de Brasil. Portanto, percebemos o lugar onde pisamos: tudo é ainda instável.

Resta continuar fazendo a manutenção desse espaço – não mais construirmos um espaço dentro do Espaço (um espaço construído pelo Partido para agirmos), mas agirmos no e através do próprio Espaço que é o Partido.

Nota #1 [28/01/2014]

Postone é um crítico do que chama de marxismo tradicional. O suposto dessa interpretação, segundo o autor, é o caráter “transhistórico do trabalho” do qual os socialistas [de todas as espécies] extraem sentido para sua crítica ao modo de produção capitalista, a sociedade burguesa etc. Segundo o autor, todo o esforço teórico e prático dessas organizações se orienta ao desembaraçamento da relação entre capital e trabalho – do qual este é indevidamente determinado por aquele. Dessa forma, se ausente o capital, essa esfera da atividade humana se libera dos entraves que a constrange e assim, revelada em sua essência, realiza o homem em sua humanidade [até então adormecida, por assim dizer] – o trabalho é “transhistórico” porque é compreendido como o núcleo mediador da sociabilidade humana enquanto tal. Em outras palavras, na ausência do capital, o trabalho, a esfera mediadora da sociabilidade humana genuína, revela-se em sua plenitude e por isso, o seu sujeito [o homem] revela-se, finalmente, livre da presença do capital, humano, livre etc.

Postone procura, retomando os escritos maduros de Marx, lembrar que tal caráter [ou valor social] conferido ao trabalho é próprio de uma visão de mundo burguesa. Sob essa sociabilidade é que o trabalho passa a ocupar esse papel “ontológico” e, através desse discurso, que sempre se buscou dar ao “trabalho o seu devido lugar” – a ociosidade/improdutividade da nobreza foi conteúdo fundamental para o discurso e prática revolucionária burguesa, por exemplo. Argumento que todas as experiências socialistas até hoje mantém, segundo o autor. Essa compreensão da natureza do trabalho em relação ao indivíduo e do lugar que ocupa na sociabilidade humana resulta, essencialmente, numa indistinção de como o trabalho aparece/é/deve ser na sociedade burguesa e na sociedade comunista – motivo [1] do fracasso societário do socialismo realmente existente, [2] do insucesso ideológico das lutas socialistas hoje e [3] da fragilidade conceitual do marxismo porque o trabalho [A] já é central na sociedade burguesa, [B] a anatomia do “trabalho produtivo” é uma referência generalizada às atividades humanas [todos, em quaisquer que sejam as áreas de atuação em jogo, vivem suas categorias e emulam suas práticas como se trabalhassem] e [C] é insustentável afirmar que o trabalho humano é a fonte absoluta de “toda riqueza” pelo fato de que o desenvolvimento das forças produtivas, comandadas pelo capital, o torna progressivamente dispensável.

Por isso o autor relativiza a importância da “luta de classes” como chave para compreensão da tensão estrutural entre trabalhadores e capitalistas na sociedade burguesa, dando ênfase então à dominação impessoal exercida pelos segundos sobre os primeiros porque é o trabalho abstrato que estrutura e possibilidade o tipo de exploração da força de trabalho operante sob o capital. Daí decorre toda uma crítica, presumivelmente, à crítica do capitalismo desde o ponto de vista do trabalho [feita pelo marxismo tradicional] uma vez que a crítica marxiana da economia política burguesa, para Postone, assume que o modo de produção que a sustenta é fundado na relação de um com o outro e não de um tipo de relação onde o capital [igualado ao mesmo que capitalista] se aproveita do trabalho [e do trabalhador, claro].

O autor sugere uma crítica do trabalho talhado pela/na sociedade burguesa. Que permaneceu, segundo o próprio, em tentativas de a abolir ou a impedir – os trabalhadores na URSS trabalhavam tanto quanto quaisquer trabalhadores a partir de uma mesma estrutura de dominação [abstrata, impessoal etc] igual a burguesa ainda que sem burgueses. Desse modo, os homens permaneceriam ainda subordinados a relações sociais “alienadas”. Ainda que o autor, de fato, não procure “dar sentido ao trabalho”, podemos nos perguntar:

o qualificante irredutível do trabalho sob o capital é a distância entre o trabalhador e o produto do trabalho?

Essa é uma boa pergunta porque:

até onde na sociedade burguesa, na forma dominação concernente a ela, não conta com a ideia de que [sim] devemos nos reconhecer naquilo que fazemos e, portanto, não devemos medir esforços para construir essa identidade entre o que fazemos e o que somos?

Nota #5 [14/01/2014]

Sobre o Partido e a Massa: será distância? 

A massa só quer o seu quinhão. Mas quinhões por quinhões, todos queremos os nossos: a Massa quer o pão-de-cada-dia, julgando-se demasiadamente revolucionária, o Partido quer a revolução, julgando-se estandarte dos efetivos pães-de-cada-dia.

Um chá de Paulo Freire já não nos serve como remédio imediato, desses que o farmacêutico responde prontamente quando citamos nossos males e que quando entregue, logo nos cura. Não. Hoje, o farmacêutico tem dúvida – nós também?

Há uma distância muito grande entre o que queremos e como queremos o que queremos. Uma distância muito maior entre como queremos o que queremos e como faremos. Uma distância absurdamente maior entre o Partido e a Massa. Distância talvez seja a palavra-chave daquilo que diagnosticamos como nosso erro: a gente ama de um lugar excessivamente distante, temendo o verdadeiro envolvimento com a coisa.

Num ritual de casamento protestante, o clérigo faz quase sempre, ao final da cerimônia, quando homem e mulher já estão casados, uma declaração bastante interessante: “pois bem, agora vocês dois são um” ou “agora vocês dois são a mesma carne”. A analogia aqui é bastante óbvia: quando o Partido será a Massa e quando a Massa será o Partido? Não se pode incluir separação: é simultânea a ligação dos corpos. Talvez o problema esteja naquilo que chamamos de namoro. Esse namoro entre o Partido e a Massa precisa incluir o casamento (a visão cristã de namoro diz que o namoro precisa incluir e visar ao casamento). Nesse ponto, precisamos ser excessivamente cristãos e clamar por casamento. Sim, casamento, essa coisa piegas.

Fica uma pergunta aos camaradas: quando é o casório?

Nota #5 [07/01/2014]

O encontro tratou inicialmente das programações do CEII, relativas aos cursos que serão oferecidos, bem como a disponibilidade do PSOL fornecer suas instalações para viabiliza alguns cursos. Também foi comentado algumas estratégias de atuação e a necessidade do envolvimento dos membros do CEII em relação as questões institucionais. A segunda parte tratou da leitura do estatuto do PSOL, onde se comentaram e refletiram sobre seu conteúdo.

Referências 28/01/2014

QUADROS.001 QUADROS.002

 

Sobre a leitura “sabática” do messianismo de São Paulo:

AGAMBEN, G. The Kingdom and the Glory – disponível em inglês

___________ El Tiempo Que Resta: Comentario a la carta a los Romanos disponível aqui

-> ver especialmente segundo e terceiro capítulo.

Sobre identificação:

ver encontro do dia 05/11/2013

Sobre o procedimento genérico:

ver encontro do dia 08/10/2013

Sobre a relação entre marxismo e psicanálise:

ver encontro do dia 03/12/2012

MCGOWAN, T. Enjoying what we don’t have: the political project of psychoanalysisdisponível aqui

 

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-28012014

 

 

 

 

 

Nota #4 [21/01/2014]

No último encontro do CEII, a leitura e discussão do Programa do PSOL permitiram-me formular melhor questões, que já me acompanhavam, com relação a certas posições do partido. A meu ver, o PSOL conta com excelentes quadros isolados e me parece a melhor alternativa de esquerda que possuímos. Ainda assim, é preciso muito trabalho para que, como proposta partidária, não siga apenas reproduzindo um discurso denuncista, ideológico, típico de uma esquerda inoperante, que se mantém “fora” do jogo para melhor apontar seus equívocos.
Um dos pontos que considero interessante para elaboração é o seu processo de formação enquanto, prioritariamente, partido de oposição ao PT. Consta no Programa, em outras palavras, que o PSOL se originou de uma ruptura com o PT por uma parcela do partido que se sentiu traída pelos rumos políticos tomados quando este assumiu o poder. Dentre as questões discutidas no encontro, me marcou a menção à distância que o partido guardaria com movimentos sociais, o que, me parece, é sintoma dessa origem e processo de construção. Segundo o projeto, a ruptura com o PT “começou pelos servidores federais, seguida de amplos setores intelectuais, de segmentos da juventude” e finalmente de todo uma gama de “rebeldes” que estariam insatisfeitos com o governo. O partido se forma, portanto, de “cima para baixo” e, como aparece no próprio texto do programa, parece querer se legitimar pelo apoio daqueles que estão insatisfeitos com o governo e que seriam numerosos, de acordo com “a quase totalidade de pesquisas de opinião”. Em alguns momentos parece que é por oposição ao PT que o PSOL se constitui e se define.
Reforça esse ponto de vista o fato de que não ficam claras, no texto do programa, propostas afirmativas e concretas do partido que sejam de fato alternativas ao PT, partido historicamente de esquerda, que conta com o apoio de uma parte significativa dos excluídos que o PSOL se propõe a representar.

Nota #3 [21/01/2014]

Achei o programa bem genérico, é verdade, sem detalhamentos técnicos. Mas talvez não possa ser diferente, dada a situação de indeterminação do partido psol bem como da própria conjuntura política, que é nebulosa. De todo modo, parte-se do reconhecimento da necessidade de promover a igualdade social, bastante comprometida no capitalismo avançado, e de forma insustentável. A solução mais imediata seria taxar as operações financeiras, as viagens, as heranças enfim, tudo aquilo que colabora para a concentração de renda? A questão que fica no ar é a de como arregimentar força política para isso e coordenar, no interior do estado de direito, ações públicas nessa direção. Resta saber se a desigualdade pode ser banida nos quadros do capitalismo. Se a resposta é negativa, a questão deixa de dizer respeito apenas à organização política e toca na própria forma de funcionamento da economia.

Nota #2 [21/01/2014]

A nota referente ao dia 21 se trata de um comentário sobre a leitura do programa do PSOL. No programa vimos muitas das diretrizes do programa, que de fato se assemelham mais a revindicações.

Não vou me ater a enumerar os itens presentes no programa, porém pela leitura que fizemos é possível notar que: Fica evidente o discurso pautado pelo argumento de dominação imperialista, que não permite um desenvolvimento de políticas econômicas que auxiliem em uma distribuição mais igualitária da renda do país. Fica claro também em grande parte do programa a necessidade de sempre assumir uma posição em defesa dos excluídos.

Já sabemos que o modelo clássico de concepção de ideologia, em sua grande parte não consegue dar conta do que observamos nos dias de hoje. Porém se ha algo que podemos compreender a partir de leituras independentes e de leituras que fizemos de Slavoj Zizek podemos pensar, e talvez imaginar que muitas vezes quando pensamos estar fora de um pensamento de cunho ideológico, caímos mais uma vez na ideologia. Afinal, o que nos garante que: romper com a lógica da ideologia não nos mergulhará uma vez mais na própria ideologia?

Na verdade o que muitas vezes incomoda é o modo “panfletário” assumido pelos programas de esquerda. Estamos sempre em defesa dos mais oprimidos, pela lógica capitalista, e é frequente nos colocar como salvadores da humanidade. O que se pode ver no programa do partido, é muita vontade de salvar o mundo, e poucas referencias a como de fato fazer isto. (pelo menos no programa do partido)

 

Nesse sentido, creio que estaríamos sendo ideológicos em demasia, nos autoproclamando como os indignados que irão salvar o mundo. Minha crítica ao programa, é que não é possível vislumbrar nele ações concretas que de fato reflitam em alguma mudança na realidade brasileira. A simples reprodução de idéias que a esquerda conhece e revindica, parecem nesse sentido se assemelhar a qualquer programa de partido que se ponha na posição de salvar a pátria amada.

Nota #1 [21/01/2014]

De uma rápida leitura do programa do Partido fica a impressão que, por uma questão de orientação, dirigir um processo político não está em suas intenções. Não ter essa pretensão tem lá seu sentido na medida em que, sob tal perspectiva, não se peca por petulância por exemplo – além de se estar em sintonia com alguns enunciados elementares do marxismo [como, entre outros, que as ações dos indivíduos sempre estão determinadas pela História e não o contrário].

Porém, a posição no programa parece se dirigir as experiências socialistas do século XX. Que poderiam ser divididas em ‘totalitárias’  [do socialismo realmente existente do Leste Europeu e similares] ou ‘conciliatórias’  [de toda social-democracia e suas variações]. A intenção, penso, é diagnosticar a cisão ocorrida entre ‘democracia e socialismo’ na prática política de ambas modalidades da esquerda de até então – ou, melhor dizendo, ‘socialismo e democracia’ [compasso que varia conforme qual fracasso concreto está em jogo na análise]. Frisado isso, demarca-se no interior dos ‘novos caminhos para discussão de um projeto socialista’, o princípio estratégico: ‘socialismo com liberdade’.

Tal orientação se estabelece quando o partido fala em ‘impulsionar a construção’, de organismos de ‘autoorganização’ e de ‘contrapoder’, entre outros. O saldo, me parece, é certa distância desse processo ou novos caminhos. Não a destacada teoricamente no materialismo marxiano [estrutural na relação entre os indivíduos e a História, em que não há uma coextensividade entre a vontade dos homens e o desenvolvimento histórico etc], mas a sustentada pelo [fantasma] totalitário. Construir a autoorganização para o poder, ou coisa do tipo, sob o socialismo, parece uma ideia impossível seguindo a lógica do texto – menos pelas tarefas concretas exigidas sob a bandeira socialista e mais pelo ‘tom da frase’.

É preciso pensar se essa posição contribui mais ou menos para a conservação do mundo.

Isto  é, considerado o atual estado da ideologia na sociedade burguesa, horizontalizar as relações entre os indivíduos, digamos assim, produz [ideologicamente] algum discernimento em relação ao mundo de hoje?

Nota #4 [14/01/2014]

3. Povo, massa, multidão, base. Tendo como temas o Estatuto e o Programa do PSOL, uma das questões que apareceram na última reunião foi a da relação entre o partido e a sua base. Essa questão se refletiu em um dos quadros esquemáticos presentes nas referências da reunião, o quadro “anatomia partidária”.
Nesse quadro, no canto direito do observador, há um texto que diz que o Estatuto tem todo cuidado para descrever os mecanismos que garantem a representatividade – o vetor que vai das bases à direção do partido –, mas diria pouco sobre “como as orientações gerais devem ser seguidas pelas instâncias que se submetem à direção partidária” – o vetor ou, antes, um dos vetores que vai da direção à base, se considerarmos que, não obstante vá dos Núcleos de Base à massa, há ao menos um outro vetor que tem o mesmo sentido, vetor este que se radica (ou precisa se radicar) em última instância na direção: o vetor de investigação, também presente no quadro. Em suma: de baixo para cima, representação; de cima para baixo, orientação e investigação. Embora ache que este último vetor, o da investigação, devesse ser um que vai de cima para baixo e sobretudo de baixo para cima (a investigação deve ser um exercício de escuta), o que gostaria de discutir é, antes, a concepção mesma daquilo que está “embaixo”.
Temos (ao menos) quatro conceitos segundo os quais se pode compreender esse “elemento”, se podemos dizer assim, da política: povo, massa, multidão e base. A esses talvez se pudesse acrescentar um quinto, o de sociedade civil, que, em parte, é recoberto pelo conceito de povo e, por conseguinte, pode ser analisado junto a este.
Uma primeira maneira de compreender “povo” é tomá-lo como a contraparte do conceito de “Estado”. É assim que Hobbes e, a bem dizer, sob diferentes matizes, todos os demais ditos contratualistas (Locke, Rousseau, etc.) compreendem, em linhas gerais, esse termo: o povo é o sujeito unitário cuja substância se expressa ou, antes, se constitui como si mesma no Estado, sob a forma de uma vontade unitária, encarnada no(s) representante(s).
O que muda nesse processo de constituição é, entre outras coisas, a maneira pela qual os indivíduos de início concebidos como atomicamente separados devém povo: eles podem, por exemplo, renunciar à sua vontade particular, entendida como o poder de autogovernar-se, transferindo-a a um soberano, cuja vontade seria então a expressão do querer do povo unificado sob esse pacto de cessão mútua de vontades para a constituição de uma vontade una (é mais ou menos essa a via de Hobbes); ou ele pode manter, em parte ao menos, a sua vontade particular, “dividindo-se” em dois: como indivíduo, ele age segundo sua vontade particular; como povo, todavia, ele age – ou deve agir: e isso nos deixa um passo do imperativo categórico – de modo que sua vontade seja a vontade de todos (é por aí a via de Rousseau). Pode mudar também a concepção do lugar do poder (e, pois, do soberano, da soberania, da representação): e tais mudanças vão (pelo menos) desde a monarquia absoluta hobbesiana, com o soberano identificado com a pessoa “natural” do rei, à democracia representativa, na qual o lugar do poder seria sempre, em última instância, um lugar vazio, potencialmente de todos – ou, antes, de qualquerum. A “atuação” política de um povo assim compreendido se limita com e se confunde com a ação mesma do Estado; é, no limite, constituída para e por este. O povo, assim entendido, não parece ser outro que a sociedade civil.
Pode-se facilmente ver que esse conceito de povo abre (pelo menos) duas possibilidades opostas de desenvolvimento. Por um lado, se insistirmos na identificação entre Estado e povo e na mobilização popular em torno de uma identidade (de símbolos, tradições, etc.), em especial uma que se constitui (sobretudo) pela eleição de um inimigo do povo, temos o protótipo do fascismo, se não ele mesmo em pessoa. Se, por outro lado, insistimos na lacuna entre a “vontade do povo” que o Estado declara, por sua constituição, expressar e a “vontade (autêntica)” do povo/da sociedade; se, dando mais um passo, vemos que essas lacunas não estão apenas entre Estado e povo, representação da vontade e vontade a ser representada, mas no seio do próprio povo; se, assim, reconhecemos que o povo ou, antes, a sociedade é dividida em classes sociais com “interesses” (“vontades”) não só diversas, mas contraditórias; se, além disso, reconhecemos que uma ou algumas classes se vale(m) do Estado como “instrumento” de domínio das demais; se, por fim, reconhecemos que são as “vontades”, os desejos das classes dominadas (e economicamente exploradas) que, em geral, não são representados no Estado – se tudo isso ocorre, estamos a um passo de identificar o povo não mais com a sociedade civil, mas com as classes economicamente exploradas, politicamente dominadas e, por essas e outras razões, posicionadas no ponto mais baixo da topologia hierárquica da sociedade (civil).
Assim compreendido, o povo não mais se identifica com a sociedade (civil) como um todo, mas com a parte menos “privilegiada” desta, com as “camadas populares” – ou, em sentido talvez mais estrito, com a “classe trabalhadora”. Parece-me que é sobretudo a partir daí que povo se torna intercambiável com massa, a qual, na medida em que pode se tornar a substância sobre a qual se funda um partido, e a qual este visa representar, se constitui como a base do partido – ou, antes, de uma partido de esquerda.
Com efeito, os mais diversos partidos surgem, em linhas gerais, com a partição de interesses na sociedade civil (ilusoriamente) una e, quiçá sobretudo, com o reconhecimento jurídico dessa partição – visto que, se não há este último passo, as partições podem ser tomadas como estorvos a serem eliminados (não raro pela aniquilação violenta). Note-se que a necessidade desta aniquilação é já o reconhecimento implícito da partição a ser eliminada como força política – daí a necessidade de diferenciar este reconhecimento de fato, daquele jurídico, ipsis literis um reconhecimento de direito. Pois bem: do ponto de vista histórico, os partidos de esquerda têm procurado se diferenciar dos demais por, entre outras coisas, serem os legítimos representantes das “camadas populares”, das “massas” e, nesse sentido, do “povo”.
Esse parece ser um traço da esquerda que o PSOL visa manter (junto com outros, como, por ex., a luta pelas ditas minorias, incluídas, como as classes populares, sob a égide dos “oprimidos”). Trata-se de um traço que ele herda e ao mesmo tempo nega à sua origem, o PT. Nega, porque o PT teria abandonado, quando governo, essas suas bandeiras históricas; mas herda, porque, nesse mesmo movimento de negação (a subtração que justifica a fundação do PSOL), ele reconhece que o PT originariamente “tinha” essas bandeiras. Se isso é verdade, o PSOL parece nascer com o gesto de salvar o PT (histórico) do PT (presente), procurando, nesse sentido, ser mais PT do que o PT tem sido – ou, se quisermos, salvar a Ideia das e através das suas realizações… (Lembro-me aqui de Zizek que, recorrendo o que Eliot diria em Notas para uma definição de cultura, recorda que muitas vezes a única forma de manter viva uma religião é através de uma “cisão sectária de seu corpo principal”. Em relação ao PT ou, antes, à Ideia por cuja fidelidade o PT teria nascido e trabalhado (e depois traído…), o PSOL estaria à altura de se pensar como uma cisão análoga?1)
Ora, mas o PT é justamente reconhecida como um partido de massas, nascido de (um) evento(s) cuja origem é a própria classe trabalhadora. O PSOL, por outro lado, é uma dissidência dentro desse partido já fundado – é, diz-se, um “partido de quadros”, não de massas. O enraizamento nas massas parece estar sendo construído ainda, em um movimento que em tudo parece inverso ao do PT, por sinal – como a espécie de “passo de volta” à origem, de começar (de novo) desde o começo. Se não é esse o movimento que o PSOL vem fazendo de fato, é esse que me parece que deve ser feito: é esse o espaço aberto pelos eventos de junho a outubro de 2013; e é nesses que chegamos ao conceito de multidão.
O que gostaria de sugerir é o seguinte: e se “povo” e “massa”, tal como costumam ser compreendidos ao longo da história, limitarem simbolicamente a ação política aos limites impostos pelo Estado? E se esses dois termos, não obstante os nossos esforços, se mostrarem como unidades demasiado rígidas que esmagam os singulares que a compõem? E se a singularidade como o que temos de mais radicalmente em comum e a parte de parte alguma, em seu papel de sujeito revolucionário, só puderem se expressar em seu modo de ser político na multiplicidade aberta que é a multidão? E se é nesta que mora a possibilidade do Novo, o lugar do ato que muda o horizonte das escolhas? Não é indo ao encontro desta, que parece ter vindo às ruas com todas as suas contradições em 2013, que o PSOL pode encontrar a ser uma alternativa de fato revolucionária, que excede o Estado justo por corresponder nele àquilo que este põe em estado de exceção? Não é assim que ele poderá cumprir sua volta, a bem dizer sua repetição, d(a origem d)o Partido dos Trabalhadores – repetição da possibilidade não efetivada e, assim, um dar lugar ao Novo?
1 Zizek, Em defesa das causas perdidas, p. 278-279 (edição da Boitempo).