Nota #2 [16/07/2013]

A diferença entre psicanálise e marxismo, no que concerne a Crítica da Ideologia, é que, ao menos no marxismo tradicional, a referida crítica assume que nossa relação com a realidade histórica, ao ser mediada por uma “ideologia”, é uma relação “parcial”: esta relação com a realidade histórica é produto de um ponto de vista que, enquanto um ponto de vista [ideológico] não abarca a totalidade das relações sociais existem na realidade – claro, do que se segue que a supressão do “olhar ideológico” é a condição da “desalienação” [da consciência] do indivíduo que ao ver/ saber como a realidade realmente é poderá, então, intervir nela e transformá-la. No caso da psicanálise, por sua vez, me parece, a ideologia [este “ponto de vista] é a única totalidade possível, é o único modo efetivo de o indivíduo totalizar a realidade histórica – porque tal “realidade” jamais é suficientemente consistente ao ponto de ter uma forma acabada em si mesma, de modo que, em seu contorno, seja por nós assimilado [aqui, acho, há uma coerência com aquilo que a psicanálise define como Real: aquilo que escapa, aquilo que é excessivo, que sobra da realidade – simbolizada e/ ou imaginada por nós]. No caso, então, a parcialidade no marxismo, ou seja, o ponto de vista alienado da totalidade é superável por um processo de Esclarecimento [ideológico]; a parcialidade na psicanálise, o ponto de vista do subjetivo, é a condição da totalidade objetiva da realidade – uma vez que na “realidade externa ao homem” [O Mundo Lá Fora] não há nada propriamente mais objetivo que na “realidade interna do homem” [O Mundo Dentro do Mim].

Tal diferença, seguindo a leitura de Zizek, acompanha a distinção conceitual existente entre Marx e Freud sobre um problema comum: o Fetiche. No primeiro, este é analisado em sua crítica madura, sobre o funcionamento da sociedade burguesa e seu objeto historicamente singular [definidor de sua sociabilidade], como aquilo que ocultaria a rede de relações sociais que gera a Mercadoria; no segundo, por sua vez, o fetiche é um modo de ocultar coisa alguma porque seu desvelamento, a “consciência sobre a existência de Nada”, inviabilizaria/ paralisaria a relação do indivíduo com a realidade. O fetiche em Marx, se bem entendi Zizek, é modo de duplicar a realidade e em Freud é modo de dar [uma, alguma etc] forma à realidade.  Em Marx o fetiche nega a realidade positiva [existente em si mesma], em Freud ele nega a negatividade da realidade [a falta de propriedades nela mesma].

Nota #1 [30/07/2013]

Pelo que entendi, a filosofia de Alain Badiou ocupa-se da tematização do Novo. De, então, como deve ser o mundo [o Ser] para que nele seja possível uma ruptura, um estado de coisas em que podemos verificar um antes e um depois. Para tanto, o filósofo, me parece, diferencia a emergência de coisas no mundo [de “novidades que aparecem”, por assim dizer] e aquilo que chama de Novo propriamente [enquanto um atributo do Acontecimento] – não de um processo do qual devém coisas que até então não estavam presentes, embora, de certo modo, sempre existissem [espectralmente, talvez] na realidade.

Amor, Ciência, Arte e Política, segundo Badiou, são os contextos do Novo que, demarcados por um Acontecimento, só podem existir sob a persistência engajada de um Sujeito que decide que “isto aconteceu” – determinado em inscrever e manter isto que é impossível ocorrer no mundo [“impossível” no sentido de que não existem condições prévias para que ocorra]. Esta persistência engajada pode-se chamar de “trabalho” na medida em que não é um estado propriamente místico ou da interioridade íntima do Sujeito, mas, ao contrário, põe-se materialmente na realidade sob o trabalho [compromisso militante] do Sujeito.

Tudo aquilo que faz parte, digamos assim, do sistema ordinário das coisas, do cotidiano normal, no interior de suas variações e diversidades, não é da ordem do Novo. Tudo que pode ser, de antemão, dito, pensado, classificado, imaginado etc faz parte deste sistema ordinário: o Novo trata daquilo que até acontecer, sob a forma da Decisão do Sujeito, nunca existiu e que, por sua vez, só passa a existir depois do engajamento do mesmo.

Parece-me que Badiou, ao examinar filosoficamente a vida de Paulo, o Apóstolo, identifica estas propriedades em sua conversão ao cristianismo. O que me parece problemático é delimitar [e como seria possível delimitar sem prejuízo da posição badiouiana] o que é um Evento/ Acontecimento, de um ponto de vista materialista, dado que, me parece, não há nisto alguma objetividade histórica ou factual – ou seja, se bem entendi, o Evento/ Acontecimento só é localizável historicamente sob a subjetivação do Sujeito que decide dizer “isto aconteceu”. Para ser viável esta posição, acredito, o que está em jogo é outra concepção de História ou mesmo de “realidade” [bem como de seus produtos: “materialidade”, “objetividade” etc].

Referências 30/07/2013

CEII 30072013.001

 

CEII 30072013.002

 

Sobre a “falsa consciência esclarecida”:

MARCUSE, H. One-Dimensional Man – disponível aqui

SAFATLE, Vladimir Cinismo e Falência da Crítica (Boitempo, 2008) – disponível aqui

______________ O que é o cinismo? – disponível aqui

SLOTERDIJK, Peter Crítica da Razão Cínica (Relógio D’água, 2011) – disponível aqui

Sobre crítica da religião como modelo de crítica ideológica:

FEUERBACH, Ludwig Essência do Cristianismo (Vozes, 2007)

– terceiro capítulo: Deus como Entidade da Razão

____________ Princípios da filosofia do futuro (Edições 70, 2002)

MARX, Karl Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (Boitempo, 2010)

Sobre o fetiche:

FREUD, S. “Fetichismo” – disponível aqui

_________ “Clivagem do Eu e Mecanismos de Defesa” – disponível aqui

SAFATLE, V. Fetichismo: colonizar o Outro (Civilização Brasileira, 2010)

ZIZEK, S., FOSTER, D. & ROTHENBERG, M.  ed. Perversion in Social Links (sic 4) –disponível aqui

Sobre a diferença entre enunciação e enunciado:

LACAN, Jacques Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo no Inconsciente Freudiano (em Escritos, Jorge Zahar, 2008)

ZIZEK, Slavoj Como Ler Lacan (Jorge Zahar, 2010)

Sobre a fidelidade:

BADIOU, A. São Paulo e a Fundação do Universalismo (Boitempo, 2009) – disponível aqui

__________ O Ser e o Evento (Jorge Zahar, 1996)

– sobre a relação entre evento e suas consequências: Meditação 20

– sobre os conceitos de fidelidade, conexão e investigação: Meditação 23

_________ Para uma Nova Teoria do Sujeito (Relume-Dumará, 1994)

 

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-30072013

 

 

 

Nota #1 [16/07/2013]

A totalidade fantasmática da ideologia

Parte 1

Zizek apresenta os traços distintivos entre a concepção marxista tradicional da ideologia e a sua concepção da ideologia inspirada no conceito psicanalítico de Fantasia. Enquanto a primeira define a ideologia como “um olhar parcial, que deixa escapar a totalidade das relações sociais”, a fantasia ideológica consiste nesta “totalidade empenhada em apagar os vestígios de sua própria impossibilidade”. Nota-se que a diferença é radical: a fantasia ideológica praticamente inverte a relação entre parcialidade e totalidade da definição clássica da ideologia. Se nesta última a totalidade seria recalcada e no seu lugar, como uma espécie de substituto, aparceria um olhar parcial, na fantasia ideológica é justamente a assunção da totalidade que funcionaria como um véu e esconderia a marca de sua impossibilidade inerente. Por que a totalidade das relações sociais assume um caráter inconsistente na fantasia ideológica?

A fantasia ideológica ganha lugar a partir da problemática entre duas tendências interpretativas acerca do  papel da ideologia no capitalismo contemporâneo. Por um lado, a tendência que defende a tese de que viveríamos hoje numa “era pós-ideológica”, por outro, a tendência que sustenta a hipótese de que a fase atual do capitalismo implicaria  um novo modo de funcionamento da ideologia. A questão é se a falência da crítica tradicional da ideologia representa o próprio fim da ideologia ou o surgimento de um novo modo de funcionamento ideológico em relação ao qual seria necessário construir uma nova modalidade de crítica.

De acordo com a primeira linha interpretativa a sociedade capitalista teria alcançado um grau de desenvolvimento tamanho que prescidiria de qualquer tipo de justificativa ideológica para se legitimar. Não teria mais lugar para a ideologia porque não existiria mais a própria necessidade de uma justificativa racional para fundamentar universalmente padrões de conduta e valores compartilhados socialmente. O esgotamento da crítica tradicional da ideologia coincidiria assim com o próprio fim da ideologia.

De acordo com a segunda linha interpretativa a crítica tradicional da ideologia não é operativa, mas a falência desta crítica não se deve à ausência de tentativas de legitimação racional que confira universalidade às formas de vida vigentes na atual fase do capitalismo. Ainda há a necessidade de uma justificativa racional para os comportamentos intersubjetivos. Trata-se, no entanto, de uma razão cínica, que justapõe à universalidade intencional a particularidade concreta que logicamente a contradiz, mas cujo efeito consiste paradoxalmente não em uma crítica, mas em uma  legitimação performática.

Dessa perspectiva, que é a mesma da fantasia ideológica, a ideologia, ao invés de se apresentar como uma espécie de evidência naturalizada e universal que justificaria interesses particulares ocultos, exibe antes esses mesmos interesses como meio de antecipar e invalidar uma possível crítica à sua falsa universalidade. Trata-se do que Sloterdik chama de “falsa consciência esclarecida”: a ideologia funciona incluindo a sua própria crítica. Com esta inclusão a ideologia passa a assumir a forma de uma totalidade até então atribuída exclusivamente às relações sociais positivas. A reunião na ideologia da justificativa universalizante e dos interesses particulares concretos num único e mesmo enunciado é uma mímeses do que seria o conhecimento sobre a totalidade concreta das condições reais de existência. É como se a ideologia reproduzisse o que seriam os enunciados objetivos de conhecimento correspondentes à totalidade da realidade social.

Referências 16/07/2013

 

CEII 16072013.001

Sobre o cinismo como forma da ideologia:

MARCUSE, H. One-Dimensional Man – disponível aqui

SAFATLE, Vladimir Cinismo e Falência da Crítica (Boitempo, 2008) – disponível aqui

______________ O que é o cinismo? – disponível aqui

SLOTERDIJK, Peter Crítica da Razão Cínica (Relógio D’água, 2011) – disponível aqui

Sobre o limite do Capital:

HARVEY, D. The Limits of Capital (Verso, 2006)

_________ O enigma do Capital e as crises do capitalismo (Boitempo, 2012)

MARX, K. Capital, vol.III – Cap. XV, parte 2: Conflitam a Expansão da Produção e a Criação de Mais-Valia – disponível aqui

ZANDAVALI, E. O Capital: Limite da Produção Capitalista (dissertação de mestrado pela UFSC) – disponível aqui

Sobre a relação entre mais-gozar e mais-valia:

LACAN, J. Seminário XVI: De um Outro ao outro – aula I (fragmento) – disponível aqui

MILLER, J.A. Seis Paradigmas do Gozo – disponível aqui

ZUPANCIC, A. When Surplus Value Meets Surplus Enjoyment  – disponível (em inglês) aqui

 

Gravação da Reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-16072013

Nota #2 [09/07/2013]

A Ideologia e o Materialismo

Luta de Classes, Aparelhos Ideológicos do Estado e Fantasia

Para Marx, a ideologia é uma ilusão no sentido em que ela não tem história. Não ter história é o mesmo que dizer que ela não tem materialidade. A única história que há é a da luta de classes. E se trata de história na medida em que tal luta se dá sob condições materiais, a reprodução material das forças produtivas e das relações de produção. Sendo assim, a ideologia é um conjunto de idéias espirituais, puro sonho, um nada, cuja razão de ser só pode residir na história, mais especificamente, na alienação da divisão do trabalho. Eis então sumariamente o que é a ideologia para Marx: o correlato espiritual dessa alienação material.

Para Althusser, a ideologia também tem uma materialidade, que, em última instância, se refere à história da luta de classes, mas que não deixa por isso de ter uma história própria: as ideologias têm uma história sua. É como se o filósofo francês inserisse entre o plano espiritual das idéias ideológicas ilusórias e o da materialidade concreta dos processos de produção, um plano material estritamente ideológico, o das práticas ideológicas. É em função do modo de funcionamento dessas práticas, que se dá em instâncias concretas, os aparelhos ideológicos do estado (escola, família, igreja, partido etc), que ele explica por que a ideologia reproduz as relações de produção e está assim referida à alienação material. Bem resumidamente, trata-se do seguinte funcionamento: todos os Aparelhos Ideológicos do Estado transformam, por meio da interpelação ideológica, os indivíduos concretos em sujeitos concretos. Transformam um indivíduo concreto em aluno, em filho, em crente, em militante etc. O nome geral desses diversos lugares simbólicos a partir dos quais se responde a interpelação é sujeito. E a ideologia nada mais é do que este sujeito, que, acreditando-se livre, livremente aceita a sua submissão. Submissão que consiste, em última instância, na submissão à divisão do trabalho conforme as exigências materiais do modo de produção vigente.

Para Zizek, a materialidade da ideologia reside no conjunto mesmo de crenças, mas na forma que ele assume e não no seu conteúdo. Essa forma da crença ideológica é a mesma da fantasia inconsciente. Esta última não consiste num conteúdo de crença específico e oculto, mas antes na forma mesma que as crenças devem assumir para serem re-conhecidas, não como meros pensamentos, e sim como A realidade. A fantasia é como uma moldura, uma forma, que enquadra e constitui o que é reconhecido como realidade. Essa moldura fantasmática que é a materialidade da ideologia.

Nota #1 [09/07/2013]

A DISCORDÂNCIA TOPOLÓGICA ENTRE O CHINÊS E A BORBOLETA

“A função da ideologia não é oferecer-nos uma via de escape de nossa realidade, mas oferecer-nos a própria realidade social como a fuga de algum real traumático.” Para explicar isso, Zizek se serve da análise de Lacan acerca do paradoxo de Chuang-Tsé, chinês que sonhou ser uma borboleta e agora não sabe se é uma borboleta sonhando ser um chinês. Em primeiro lugar, Lacan salienta o fato de que Chuand-Tsé, ao duvidar de sua identidade, mostra não ser um louco, mas um sujeito barrado, isto é, um sujeito que não se reconhece a partir da identidade imediata consigo mesmo, mas como o lugar de uma questão acerca de si. Nesse sentido, uma primeira diferença já desponta entre ele e uma borboleta, que não se põe tais questionamentos.

Mas o sujeito será apenas isso, um vazio expresso sob uma forma de dúvida, deslizando ao longo de uma cadeia de significantes? Segundo Zizek, a tese fundamental de Lacan, pelo menos em seus últimos trabalhos, é a de que o sujeito pode obter uma consistência positiva, real, fora da rede alienante de significantes do grande Outro. Para dar conta disso, há que evocar a noção de fantasia e do objeto que lhe serve de esteio, no caso de Tchuang-Tsé, da borboleta. Pois é através dela que ele escapa da identidade que o captura no plano da realidade, em prol do real de seu desejo. Dá-se o mesmo com o usuário da internet que usa um Nick name que evoca violência e erotismo (tipo “o vampiro de Niterói”) quando na realidade social cotidiana ordinária, é apenas um pacato cidadão respeitador dos costumes e absolutamente servil a sua esposa e familiares.

De todo modo, há uma clivagem topológica entre a posição do chinês e da borboleta, na medida em que a questão só é possível quando ele está acordado, isto é, na posição do sujeito dubitativo/histérico.

Longe de supor, com Calderón de La barca, que a vida é sonho dentro de um sonho, Lacan afirma ao contrário que há um núcleo de real irredutível na fantasia, que não se deixa reduzir ao plano da identidade especular imaginária. O mesmo se dá com a Ideologia, caso a interpretemos a maneira de uma ilusão onírica. Não se trata aqui de acordar para a vigília, mas aprofundar no conteúdo do sonho na medida em que é nele que se revela a estrutura de nossa fantasia, estofo da própria realidade. “A única maneira de romper com nosso sonho ideológico é confrontar o real de nosso desejo que se anuncia nesse sonho”.

Para a psicanálise, não desfazemos nossa fantasia ideológica por um confronto com os dados da realidade. Pelo contrário, a fantasia tem por função exatamente converter os dados numa significação predeterminada. “Uma ideologia logra pleno êxito quando até os fatos que a contradizem testemunham a seu favor.” Assim, as manifestações de protesto que proliferam pelo Brasil podem ser vistas por muitos como prova não tanto de miséria, mas ao contrário de que o povo conseguiu alguma coisa nesses últimos anos, e agora quer mais. Outro exemplo primoroso de tal “inversão” do contra ao pró operada pela fantasia é narrada por Freud em O Mal estar, quando nota que o povo de Israel, que se considera filho de Deus, mesmo sob uma série de desgraças que pareciam negar essa suposição, nunca duvidou desta relação e produziu os profetas, que censuraram sua pecaminosidade e “criou, a partir de sua consciência de culpa, os preceitos extremamente rigorosos de sua religião sacerdotal.”

Referências 09/07/2013

CEII 09072013.001

Sobre o sonho “Pai, não vês… “:

FREUD, S. A Psicologia dos Processos Oníricos em  Interpretação dos Sonhos – disponível aqui

LACAN, J. Aula V em Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálisedisponível aqui

Sobre Chuang-Tsé e a borboleta:

LACAN, J. Aula VI em Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálisedisponível aqui

Sobre a tríade “Mundo”, “Cena” e “Outra Cena”:

LACAN, J. Aula III em A Angústia disponível aqui

 

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-09072013

 

 

Referências 02/07/2013

CEII logo

Sobre o coletivo Pensée:

www.scilicet.com

Sobre a revista Acheronta Movebo:

acheronta.scilicet.com

Sobre a Fundação Lauro Campos:

www.socialismo.org.br

Sobre a organização nacional do PSOL:

-> ver apresentação do CEII do dia 30 de Abril de 2013

Sobre o Movimento Popular por Moradia:

mpmcuritiba.wordpress.com/

Estrutura e Planejamento 2013-2014: disponível aqui

Gravação da reunião: disponível no arquivo interno do CEII

Nota #1 [25/06/2013]

A pauta de luta cada vez mais é a luta pela pauta!
Semana passada Lula se encontrou com representantes de alguns movimentos sociais. Só estiveram presentes os movimentos com algum tipo de ligação com o governo. O MPL foi covardemente esquecido. Por quê?
O MPL diz pra Dilma: “queremos tarifa zero”.
Dilma responde: “não há recursos. No meu Excel não entra”.
MPL retruca: “mas se trata de uma questão política e não técnica. Se tem dinheiro para estádio e tem dinheiro para Copa do Mundo, tem dinheiro para a tarifa zero”.
Dilma devolve o silêncio.
O recado está dado: aceitar debater dentro dos limites de uma planilha orçamentária preestabelecida é praticamente cair na derrota. Por isso que para o MPL a luta continua.
“Você é muito radical! Não vê que não temos dinheiro pra isso?”. Ah, mas temos sim! Exemplo pequenino: o lucro líquido trimestral de um grande banco brasileiro é de R$3 bilhões de reais. Esse dinheiro não se consome. Na verdade, o consumo dessa massa  de dinheiro é obtenção de poder!
Vejam, eu não tirei isso do chapéu! Textos de Mantegas, Haddads e Paulanis da vida apontam claramente para o monetarismo como estratégia de poder político via poder econômico. (Mas será que esse pessoal também esqueceu o que escreveu?).
Mas tem mais, porque o MPL finaliza: “queremos Reforma Urbana e Reforma Agrária”. Ui!
O gênio imortal Merdal Pereira nos alertou, batendo o pezinho no chão: “Eu sabia! Eu sabia! Eu sabia que o MPL era de esquerda!”. Mas o mais fundamental veio no editorial d’O Globo:
“O conflito entre apartidário e antipartidário terminou desvendando uma faceta de toda esta mobilização: a existência de uma agenda ultrarradical para além do passe livre, como a proposta de uma “reforma urbana”, fachada de um programa lunático de desapropriação de propriedades privadas nas cidades”.
“Programa lunático (?!) de DESAPROPRIAÇÃO de propriedades privadas”?! Alguém usou essa palavra, desapropriação? Ora, ora, Dona Rede Globo e cia ltda, este é o medo? Será que o famoso espectro continua assombrando a burguesia subserviente deste país? Será que aqui não vemos se repetir aquilo que Zizek não cansa de nos dizer, que o discurso da fantasia ideológica traz em seu próprio bojo as coordenadas de superação do sistema capitalista?
Então é isto, Rede Globo? Desapropriação da propriedade privada: então este é o seu medo?
Desapropriação da propriedade privada: a nossa pauta?
“SEU IRRESPONSÁVEL!!!”
E nunca foi tão oportuno ser “irresponsável”…