Nota #2 04/06/2013

Na última reunião continuamos a leitura de Zizek e lemos por completo “Kafka, crítico de Althusser”. Mas, afinal, que relação tem Kafka com Althusser? O ponto me parece ser que Kafka resolve um problema na teoria althusseriana dos Aparelhos Ideológicos de Estado. Althusser não consegue explicar como o AIE se internaliza e o sujeito começa a se reconhecer na posição ideológica determinada. A reposta para isso seria que a internalização só ocorre quando há uma injunção traumática e incompreensível; já que ela não ocorre devido a uma racionalidade que nos permitiria entender por que nós deveríamos ocupar uma posição nas relações sociais. Kafka nos fornece essa resposta em seus livros, pois os personagens são frequentemente confrontados com situações absurdas e sem sentido, mas que ainda assim (e por isso mesmo) exercem seu poder material ao determinar o curso do personagem.

Lacan nos dá uma resposta quando se trata da fantasia ideológica: ela está mais próxima da realidade do que do Real do sonho. Isso não quer dizer que a realidade não existe ou qualquer ideia pseudo-budista que estaria em voga hoje em dia; o que Lacan defende é que “a realidade é uma construção fantasiosa que nos permite mascarar o Real de nosso desejo”. A realidade serve para fugirmos do Real traumático. É nesse sentido que devemos interpretar o sonho [e a ideologia]: não acordamos quanto os estímulos externos se tornam excitantes demais a ponto de não conseguirmos mais fugir deles no sonho, nós acordamos porque não aguentamos o confronto com o Real traumático no sonho e precisamos nos refugiar na realidade. Desse modo, a ideologia não é somente uma ilusão que construímos para escapar da realidade que seria insuportável, a ideologia é uma construção de fantasia que estrutura a própria realidade social como meio de fugir de um Real traumático, não simbolizável.

Referências 25/06/2013

CEII 25062013.001

Sobre a relação entre o poder e a forma-Partido em Lenin:

LENIN, V. Os Bolcheviques Devem Tomar o Poder – disponível aqui

_______ Conservarão os Bolcheviques o Poder?disponível aqui

_______ Uma das Questões fundamentais da Revolução – disponível aqui

LIH, Lars Lenin Rediscovered (Haymarket Books, 2008)

LUKACS, G. Lenin: Um estudo da coerencia do seu pensamentodisponível em castelhano aqui

ZIZEK, S. Às Portas da Revolução (Boitempo, 2005)

_______ Primeiro Como Tragédia, Depois Como Farsa (Boitempo, 2011)

Sobre o problema do poder centralizado na ideologia liberal:

LOSURDO, D. Hegel, Marx e a tradição liberal (UNESP, 1998)

ZIZEK, S. Did Someone say Totalitarianism? (Verso, 2002)

Sobre a transformação na composição do trabalho:

MARX, Karl Grundrisse (Boitempo, 2011)

-> “fragmento sobre las máquinas”, disponível em português e em castelhano

Sobre o cercamento do espaço público e “trabalho imaterial”:

AMORIM, H. Valor-Trabalho e imaterialidade da produção nas sociedades contemporâneas (CLACSO, 2012)

-> disponível aqui

MARX, K. CapitalCapítulo XXIV: A assim chamada Acumulação Primitiva (disponível aqui)

NEGRI, A. & HARDT, M. Commonwealth (Harvard Uni Press, 2009)

ROTTA, T.N. & TEIXIERA, R.A. Valueless Knowledge-Commodities and Financialization (disponível aqui)

Sobre a burguesia assalariada:

MILNER, J.-C. El Salario del Ideal: La teoria de las classes y de la cultura en el siglo XX (Gedisa, 2003)

– Capítulo El Salario Burguês disponível aqui

ZIZEK, S. Revolta da Burguesia Assalariadadisponível aqui

Sobre o papel do movimento popular na política:

MAO ZEDONG Análise das Classes na Sociedade Chinesadisponível aqui

_____________ Porque pode existir na China o Poder Vermelho? disponível aqui

_____________ Como analisar as classes nas Regiões Rurais?disponível aqui

____________ Maior Preocupação com a Vida das Massas e Maior Atenção aos Métodos de Trabalhodisponível aqui

___________ A Orientação do Movimento da Juventude – disponível aqui

__________ Sobre a Ditadura da Democracia Popular disponível aqui

_________ A propósito dos Métodos de Direçãodisponível aqui

Sobre a massa:

CANETTI, E. Massa e Poder (Companhia das Letras, 2005)

FREUD, S. Psicologia das Massas e Análise do Eu – disponível aqui

RUDA, F. Hegel’s Rabble (Continuum, 2012)

 

nota: esse encontro não foi gravado

 

 

Nota 5 [14/05/2013]

“Porque o amor nunca escolhe uma determinada propriedade  do amado  (o ser-louro,  pequeno,  terno, coxo), mas tão-pouco  prescinde  dela em nome de algo insipidamente   genérico  (o amor  universal): ele quer  a coisacom todos os seus predicados,  o seu ser tal qual é. Ele deseja o qual apenas  enquanto tal – este é o seu particular fetichismo.  Assim, a singularidade  qualquer (o Amável) nunca  é inteligência  de algo, de determinada   qualidade  ou essência, mas apenas inteligência  de uma inteligibilidade.  O movimento,  que Platão  descreve  como  a anamnese  erótica, é o que transporta  o objeto não na direção  de uma outra  coisa ou para um outro lugar,  mas para  o seu próprio  ter-lugar  –  para  a Ideia.”
Agamben, capítulo I “Qualquer” de A comunidade que vem.
Nesta reunião, nosso Secretário-Geral fez uma excelente apresentação sobre a influência de Gramsci na política brasileira recente e, notadamente, no Psol. Debatemos sobre as possibilidades abertas pelo gramscianismo e seus limites. A referência ao texto de contribuição ao IV Congresso do Psol recém publicado pelo grupo independente do Psol-RJ, “Para que o Psol continue necessário”, foi uma constante. Comento brevemente uma questão apresentada pelo referido texto, e também debatida na reunião, o problema da coesão partidária.
Segundo o texto, o Psol hoje é mais um partido de correntes do que um partido com correntes, ou seja, um partido extremamente fragmentado e sem unidade estratégica. As disputas internas pelo aparelhamento partidário demarcam mais o interesse dos grupos em disputa do que a causa política que deveria atravessar todo o partido, debilitando a funcionalidade de importantes cargos partidários. Em suma, precisamos urgente de unidade partidária. No entanto, essa exigência nos faz cair numa aporia: como conseguir unidade partidária sem cair na perda da democracia intrapartidária (nas entrelinhas, sem fazer recurso a um “Campo Majoritário”)? Sobre isso, alguns apontamentos.
Primeiro, devemos abandonar o ideal de unidade partidária. Na história política moderna, nunca existiu uma unidade partidária perfeita. Aliás, nunca vai existir. Parece que quanto mais buscamos a famigerada “unidade”, mais nos distanciamos dela. Nisso, o significante mestre “unidade” acaba sendo substituído por outro que tenta realizar seu intento “escondendo” os dissabores que o ideal de harmonia social impõe. O recurso a um significante mestre que dê consistência à existência de um Grande Outro (como “Democracy”, na política estadunidense, ou “Partido”, no stalinismo, ou “neodesenvolvimentismo”, no Lulismo) inevitavelmente oblitera o próprio campo de realização da política – que é sua abertura radical para o devir histórico, sua dimensão ex nihilo, acontecimento (só na política acontecem milagres!).
No entanto, simplesmente nos deixarmos levar pela dispersão da multiplicidade, acreditando na política como quebra incessante de identidades, nos leva à pior identidade, à identidade que dispersa a força da diferença em “múltiplos fenômenos culturais”. Para usar um jargão deleuzeano, uma política como pura desterritorialização (o que só nos leva ao fortalecimento do capitalismo e muitos fascismos). (Parênteses: na prática, parece que o gramscianismo não consegue se distinguir muito do deleuzeanismo yuppie). Precisamos sim de identidade, mas de uma outra indentidade. Uma identidade que não se contrapõe à diferença, mas que seja sua realização mais radical. O Espírito Absoluto do Hegel zizekeano. Uma identidade que sustenta a radicalidade da diferença é um ponto de costura no tecido da história que aponta para o desejo e serve de operador da repetição. Em termos badiouanos, um nome próprio pode operar como este significante “ponto de costura”.
Às vésperas do último e grande comício das eleições de 2012, enquanto uma grande tempestade esfriava os ânimos da militância, uma jovem escreveu um comentário sublime numa página do Facebook: “Não sei de vocês, mas estou mais certa que o Freixo nessa”. O que ela demonstrou é que ser verdadeiramente “freixeano” é ser mais Freixo que o Freixo.
Cuidado: devemos evitar ao máximo a identificação com o indivíduo Marcelo Freixo, pois isso só nos leva a um normatismo de conduta que desemboca, por exemplo, na confusão de ética com legalismo (vide o movimento “Basta!” ou aqueles que se reduzem a combater a corrupção). (Nesse sentido, a propagação do nome Freixo promovida pelo filme Tropa de Elite 2 foi um tiro no pé. Diogo Fraga é apenas um bocó e a coragem – mais uma vez – foi retratada pelo fascista Capitão Nascimento). O exemplo clássico dessa identificação equivocada encontramos nos desdobramentos históricos da figura de Che Guevara, que foi mercadologizada ao máximo e acabou estampando o biquíni de uma famosa modelo brasileira (aliás, com a ironia do encontro de dois significantes caros à fantasia de Brasil, política e bunda). (Em tempo: uma possível imagem contraideológica seria inserir digitalmente manchas marrons na calcinha. Aí a merda ficaria às claras). Por isso que Zizek insiste que devemos revitalizar Che, mas como repetição do gesto, que se define nisto: amar.
Daí que acredito que a nossa identificação não deve ser com o indivíduo Marcelo Freixo (o que seria um erro fatal), mas com a jovem militante. De forma delicada, ela repetiu o gesto freixeano da coragem. A tempestade que se avizinhava se tornou um potencializador da militância. Na frase “Marcelo Freixo é um político corajoso”, Marcelo Freixo é o sujeito, um nome próprio, um exemplo (no sentido agambeniano), que serve como suporte para a experiência real do predicado coragem. O ato da jovem militante de escrever aquele comentário foi sublime porque trouxe a marca do amor pela causa, do amor sem objeto, intransitivo. Em última instância, “foda-se o Freixo! [ou seja, foda-se o objeto]. Eu sou mais corajosa que ele!”.
Ali, naquela chuva desgraçada, e mesmo já sabendo que não ganharíamos, acreditávamos.  Era um encontro. Ali o partido se realizada (o partido deve ser o lugar do amor da política, e não dos “narcisismos das pequenas diferenças”). A jovem militante realizou a experiência do amor do qualquer agambeniano. Ali éramos qualquer, amávamos. Não buscávamos, muito menos esperávamos, por um milagre. Nós fomos o milagre.
A “unidade” não existe, o que existe é a Ideia. A coesão não existe, o que existe são milagres.
 “Para  que  referir  tudo  no  narrar,  por  menos  e  menor? Aquele   encontro   nosso   se   deu   sem   o   razoável   comum, sobrefalseado,  como  do  que  só  em  jornal  e  livro  é  que  se  lê. Mesmo  o  que  estou  contando,  depois  é  que  eu  pude  reunir relembrado  e  verdadeiramente  entendido  –  porque,  enquanto  coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio  é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante.  – “Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as  horas  de  todos” –  me  explicou  o  compadre  meu  Quelemém. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro  dela  se  esteja,  e  que  tudo  ajunta  e  amortece –  só  rara  vez  se consegue  subir  com  a  cabeça  fora  dela,  feito  um  milagre: peixinho  pediu.  Por  quê?  Diz-que-direi  ao  senhor  o  que  nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer  que  isso  seja,  e  vai,  na  idéia,  querendo  e  ajudando; mas, quando  é  destino  dado,  maior  que  o  miúdo,  a  gente  ama inteiriço  fatal,  carecendo  de  querer,  e  é  um  só  facear  com  as surpresas.  Amor  desse,  cresce  primeiro;  brota  é  depois.  Muito falo,  sei;  caceteio.  Mas  porém  é  preciso.  Pois  então.  Então,  o senhor me responda: o amor assim pode vir do demo? Poderá?!  Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha.  Peço  não  ter  resposta;  que,  se  não,  minha  confusão  aumenta.  Sabe, uma vez: no Tamanduá-tão, no barulho da guerra, eu vencendo,  aí  estremeci num relance claro de medo  –  medo  só  de mim, que eu mais não me reconhecia. Eu era alto, maior do que  eu mesmo; e, de mim mesmo eu rindo, gargalhadas dava. Que  eu de repente me perguntei, para não me responder: – “Você é o rei-dos-homens?…” Falei e ri. Rinchei, feito um cavalão bravo. Desfechei. Ventava em todas as árvores. Mas meus olhos viam  só o alto tremer da poeira. E mais não digo; chus! Nem o senhor, nem eu, ninguém não sabe”, Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Nota #1 [04/06/2013]

“A realidade é para quem não consegue suportar o sonho”

Em sua análise dos AIE, Althusser negligencia um aspecto fundamental da inteperlação simbólica. O fato de que ela não ocorre sem deixar um resto, uma mancha de irracionalidade absurda que é vivenciada como uma injunção traumática. Essa mancha, contrariamente ao que poderíamos supor, não é um obstáculo, mas uma condição de possibilidade da plena submissão do sujeito à ordem ideológica. Ela confere à lei sua autoridade incondicional e sustenta o jouis-sens (gozo do sentido ou fruisenso) próprio da ideologia.

Distinto de Althusser, o sujeito kafkiano não entende o sentido do chamamento do Outro. Ele passa o romance inteiro buscando a resposta a essa pergunta: o que sou para este Outro, resposta que só poderá ser obtida ao nível da fantasia.

Para Lacan, fantasia não se opõe à realidade, mas é o meio através do qual constituímos a realidade ela própria. No seminário 11, ele exemplifica isso com o caso do pai que desperta de seu sonho ao se deparar com o real de sua culpa perante a morte do filho. Do mesmo modo, comenta Zizek, “A função da ideologia não é oferecer-nos uma via de escape de nossa realidade, mas oferecer-nos a própria realidade social como uma fuga de algum núcleo real traumático.

Contrariamente ao que supunha Althusser, o sujeito não se limita a acatar alguns mandatos simbólicos oferecidos pelo Outro. Subjacente a isso, ele encontra algum esteio para o seu ser através do objeto da fantasia.

Referências 04/06/2013

CEII 04062013.001

Sobre os Aparelhos Ideológicos do Estado:

ALTHUSSER, L. Aparelhos Ideológicos do Estado: Notas para uma Investigação – disponível aqui

-> ver paginas 84 à 95 (três teses sobre a ideologia)

Sobre identificação imaginária e identificação simbólica:

FREUD, S. Psicologia das Massas e Análise do Eu – disponível aqui

_________ Introdução ao Narcisismo disponível aqui

_________ Eu e o Id – disponível aqui

LACAN, J. Estádio do Espelho em Escritos (Jorge Zahar, 1998)

________ Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo no Inconsciente em Escritos (Jorge Zahar, 1998)

ZIZEK, S. O Grafo do Desejo: Uma leitura política em Eles não Sabem O que Fazemdisponível aqui

Sobre noção de antagonismo social como incompletude do simbólico:

LACLAU, E. & MOUFFE, C. Hegemonia e Estratégia Socialista disponível, em castelhano, aqui

-> fragmento sobre antagonismo: página 208

Sobre questões levantadas pela confrontação entre antagonismo, fantasia e interpelação:

BUTLER, J., LACLAU, E. & ZIZEK, S. Perguntas em Contingência, Hegemonia, Universalidade disponível aqui

Sobre o sonho “Pai, não vês… “:

FREUD, S. A Psicologia dos Processos Oníricos em  Interpretação dos Sonhos – disponível aqui

LACAN, J. Aula V em Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálisedisponível aqui

Sobre Chuang-Tsé e a borboleta:

LACAN, J. Aula VI em Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálisedisponível aqui

 

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-04062013

 

 

Nota #3 [28/05/2013]

Na última reunião tratamos das distinções básicas entre o modelo zizekiano da ideologia e o althusseriano. Althusser já realiza um avanço significativo na compreensão da ideologia com seu texto sobre os Aparelhos Ideológicos de Estado ao dar ênfase na materialidade da ideologia. Contudo, Althusser ainda concebe a ideologia como uma espécie de falsa consciência – embora essa falsa consciência seja causada pelas condições materiais que fazem com que o sujeito ocupe certa posição nas relações sociais e tenha sua consciência de acordo com seu posicionamento. Para ele, o indivíduo percebe a realidade distorcida; o indivíduo vê a realidade com uma ilusão, ele não consegue apreender o que é “real”.
Entretanto, essa interpretação não parece suficiente para dar conta do modo como a ideologia opera hoje em dia (ou sempre operou). Para Zizek, é claro que nem sempre temos uma falsa consciência da realidade e nada se altera quando compreendemos o que “realmente” acontece. Independente de o indivíduo saber ou não se ele está agindo conforme a ideologia, ele sempre age como se estivesse pensando de acordo com a ideologia. O exemplo que utilizamos várias vezes que parece tornar mais clara essa ideia é o uso do dinheiro: todos nós sabemos muito bem que o dinheiro é apenas um pedaço de papel que utilizamos para comprar coisas, mas ainda assim agimos como se o dinheiro fosse uma entidade mágica e poderosa. O que Zizek denomina de fantasia ideológica (e que me parece ser a mesma coisa que a abstração real de Sohn-Rethel) é a fantasia que sustenta a nossa ação e a realidade social; ou seja, grosso modo, a fantasia ideológica (ou abstração real) é um pensamento que está estruturando a nossa própria ação, embora não estejamos realmente o pensando – pois sabemos muito bem o que estamos fazendo.