Nota #3 [21/03/2013]

A crítica da ideologia tradicional baseia-se na denúncia dos interesses particulares que se disfarçam sob a máscara de “nobres intenções” universais. Assim, por detrás da postulação “cínica” da ideologia da liberdade, igualdade e fraternidade, deveríamos reconhecer e denunciar a dominação de uma classe social por outra, etc. No entanto, em seu livro “Crítica da razão cínica”, Peter Sloterdjk aponta para o fato de que hoje o “cinismo” assume um caráter bem diverso, na medida em que os interesses espúrios são contabilizados no próprio texto explícito da ideologia, o que termina por neutralizar de saída qualquer efetividade por parte da crítica tradicional. Para Zizek, o desenho animado Shrek é um bom exemplo dessa nova “razão cínica”. Através de uma série de deslocamentos metalingüísticos (anacronismos, metamorfoses inesperadas, etc) ele se apresenta como uma visão irônica dos contos de fada, de potencial supostamente subversivo (basta mencionar que o papel do “príncipe” é desempenhado por um Ogro). Contudo, na realidade efetiva, seu efeito é bem outro: o de que perseveremos a nos divertir com princesas e príncipes, fadas e bruxas, de modo a nos impedir de nos contar a nós próprios outras estórias. A contemporânea “razão cínica” exige pois uma reformulação da forma de crítica à ideologia, que neste caso não pode ser tomada como falsa consciência, já que hoje todo mundo sabe muito bem o que faz, muito embora continue fazendo mesmo assim.

Nota #4 [10/12/2012]

Em “Como Marx inventou o sintoma” Svlavoj Zizek, no intuito de demonstrar os equívocos cometidos por opositores de Freud, descreve os mecanismos e a relação que envolve o pensamento latente, o conteúdo manifesto do sonho e o desejo inconsciente.

A crítica de Zizek aos opositores de Freud é que estes reduziram o pensamento Inconsciente ao processo presente na cadeia normal de pensamentos, na medida em que as críticas feitas a Freud quase sempre terem se reduzido a uma crítica feita em cima do pensamento latente do sonho que está presente no texto do sonho ou seja processos pertencentes a um mecanismo secundário. Já o pensamento inconsciente, é um desejo recalcado da infância pertencente portanto ao mecanismo primário, que pode se manifestar no pensamento latente.

Diante de toda a descrição feita por Zizek a respeito da relação existente entre Pensamento Latente, conteúdo manifesto e o pensamento Inconsciente. O que seria o chamado “mecanismo primário”, processo de onde resulta o recalque de algum desejo da infância? O que seria este mecanismo?

Nota #5 [03/12/2012]

Sobre o caráter misterioso da mercadoria.

Para iniciar não só esta nota mas uma discussão, sobre o caráter misterioso da mercadoria, é pertinente colocar sobre a mesa uma pergunta, pergunta esta referente a premissa do argumento inicial que Marx utiliza para tentar desvendar o que seria esse caráter misterioso: Existe diferença entre um ou outro trabalho? Esta é uma pergunta que que amarra outras, como por exemplo: Existe diferença entre o trabalho manual e o trabalho intelectual, quanto ao dispêndio de energia? Porque é nesse ponto em que parece se apoiar o argumento inicial, sobre o caráter misterioso da mercadoria.

O caráter misterioso da mercadoria não provém de seu valor- de- uso, nem tão pouco dos fatores determinantes do seu valor. E para isso, há motivos. Primeiro, por mais que difiram os trabalhos úteis ou as atividades produtivas, a verdade fisiológica é que são funções do organismo humano e cada uma dessas funções não importa a forma ou o conteúdo, é essencialmente dispêndio do cérebro, dos nervos, músculos, sentidos etc, do homem.

O que se abstraí é justamente a peculiaridade de cada trabalho, tomando se como base o trabalho como valor absoluto, não importa se há mais dispêndio de energia ou menos dispêndio de energia, o que importa é que ambos são trabalhos. Marx nos coloca esta questão em torno do valor social do trabalho, o trabalho só adquire valor social se os homens trabalham uns para os outros. Esse caráter misterioso da mercadoria, “disfarça” ou “esconde” a igualdade do trabalho humano a partir do valor adquirido pelo produto do trabalho, ou seja mercadoria.

Portanto o caráter social do trabalho se desloca da relação entre produtores, para a relação entre produto do trabalho. Assim sendo, seria o valor o elemento que compões este caráter misterioso da mercadoria?

Nota #1 [28/02/2013]

Como pode uma criação humana exercer grande poder sobre o próprio homem? Esta é uma pergunta pertinente sugerida pela força que a relação de poder existente entre Deus e o homem exerce sobre o próprio homem. Como pode a cisão entre homem e Deus, ter feito a criatura mais forte que o criador? O discurso teológico nos leva a crer que o homem é criação de Deus, já o discurso racional assinala “Deus como criação do homem” (FEUERBACH, 2007) Se Deus é criação do homem como pode este ser mais poderoso do que o próprio homem? Quem é criador, e que é criatura?

É interessante notar em Feuerbach, a relação existente entre Deus e Razão no momento em que o autor coloca Deus como entidade da razão. O que existe em uma entidade abstrata como Deus que faz com que este exerça tanta força sobre o homem. E se estamos falando aqui de entidades abstratas que exercem poder sobre o homem, que dizer do poder público? Do Estado, de uma organização social de uma determinada comunidade, ou de uma tribo no Curdistão.

Ao que parece toda grande idéia exerce essa força sobre um indivíduo, quando compartilhada por vários indivíduos, e talvez o fato de ser compartilhada por vários indivíduos, que assim legitimam essa força justamente pela unidade destes indivíduos é que a torna abstrata e poderosa. É o algo extraído década individuo que é comum aos indivíduos estando assim para além dos mesmos indivíduos. Logo o individuo é abstrato em si mesmo.

[…] Somente atravéz da razão e na razão tem o homem a capacidade de se   abstrair de si mesmo, isto é, de sua essência subjetiva, pessoal, de se elevar a conceitos […] (FEUERBACH, 2007)
Seria este o homem abstrato de si mesmo, seria este o mecanismo da abstração de um corpo particular que se põe a trabalhar animadamente gerando e exercendo tal força sobre o individuo sob a qual este apesar de ser criador, sucumbe diante de tal poder. Talvez nem os contratualistas haviam imaginado tal força que um elemento abstrato como o Estado poderia exercer a força por meio de suas instituições repressivas.

Nota #3 [07/03/2013]

Houve um momento, quem sabe hipotético, em que o homem foi dono de si mesmo. Suas ações derivavam de suas próprias necessidades. Um momento, um lapso de momento no tempo do universo em que ele trabalhou para suprir suas necessidades. O produto desse trabalho no contexto da troca desse mesmo produto entre os homens se deu no âmbito do mercado. Não é possível pensar em troca sem pensar em mercado ou pelo menos na imagem do mercado, logo esse produto de trabalho no contexto do mercado se torna mercadoria. Mercadoria no fundo é o produto do trabalho explicito no campo da troca. A troca, faz do produto, mercadoria, mas não a troca pura e simples, é a troca de produtos equivalentes. Essa troca equivalente é real ou ideológica? A princípio pode parecer real, mas é interessante notar que ela é ideológica; e o que permite uma dedução nesse sentido é perceber que ao tomar a equivalência das trocas de mercadorias, que possui um caráter ideológico, como realidade acarreta no aparecimento do “sintoma” como elemento que subverte a idéia da troca equivalente.

Teria Marx realmente fundado a noção de “sintoma”? Não o sintoma psicanalítico mas o sintoma como categoria de análise política da mercadoria. O que é esse sintoma quando se apresenta sob a forma da ideologia?

Em “O sublime objeto da ideologia Zizek aponta para uma homologia existente entre o método da interpretação dos sonhos por Freud e a forma de análise da mercadoria por Marx, essa homologia no entanto vai até certo ponto. O que a manifestação de um pensamento inconsciente, para Freud é considerado sintomático, em Marx aparece como algo que decorre de algo que Sohn- Rethel  aponta como abstração real.

A abstração real segundo Sohn-Rethel é o tipo de abstração que caracteriza o materialismo histórico enquanto metodologia. Para ele Marx enchergou que uma metodologia de abstração a partir da consciencia não seria suficiente para transpor a lógica da abstração para o materialismo histórico, somente a abstração a partir de uma consciência inscrita no “ser social do homem” permitiria este salto. Zizek nos define o sintoma em Marx como sendo um elemento que subverte qualquer valor universal quando estendido ao seu grau máximo. Ou seja quando falamos de conceitos como liberdade algo contrário ao próprio conceito de liberdade se torna circunscrito no próprio valor da liberdade, ou seja estendendo o conceito de liberdade de forma absoluta caímos em contradição. Da mesma forma o mercado em algum momento abre esta fissura que transforma o homem de, detentor de fatores de produção e de trabalho em apenas detentor da força de trabalho.

O que faz com que a extensão de um ideal abstrato se subverta quando é em fim levado ao o âmbito da PRAXIS. O que faz com que torna possível a existencia deste sintoma? Este sintoma é o que talvez tenho movido o debate da metafísica contemporânea emtre universais e particulares: Platonismo e Nominalismo mas o que é importante notar é que Marx propõe uma abordagem diferente do que a usual quando o assunto é abstração. Sohn-Rethel nos ajuda a perceber que de alguma forma a abstração-real presente no materialismo histórico de Marx representa um comprometimento das idéias com o movimento da história.

Talvez a abstração-real represente o salto necessário (se não um caminho para contornarmos do sintoma) para que não tratemos aqui de categorias, absolutas, infinitas, e portanto [cristãs] e passemos a categorias materiais, históricas, uma consciência histórica.

Nota #2 [21/03/2013]

“(…) Em A miséria da filosofia, Marx escreveu que a ideologia burguesa gosta de historicizar: todas as formas sociais, religiosas e culturais são históricas, contingentes e relativas; todas, exceto a dela. Houve história no passado, mas agora não há mais história nenhuma (…)” (ZIZEK, 2009, p. 30).

 

A respeito do fetichismo da mercadoria em Marx, com Zizek temos que mais do que a “substituição de homens por coisas”, observa-se, como elemento estrutural da relação social mediada pela forma-mercadoria, “certo desconhecimento da relação entre uma rede estruturada e um de seus elementos” – se bem entendi. O ponto é que este “desconhecimento”, me parece, não se refere à noção do marxismo tradicional, ou seja, não se trata de “algo que se perde por força da alienação imanente às relações sociais capitalistas”, por assim dizer.

O autor se refere à Marx e pondera que isto [certo desconhecimento] é um efeito possível seja em relações “entre coisas” ou “entre homens” – me parece, então, que não é o “fetiche da mercadoria” o responsável histórico por produzir relações sociais estruturadas numa forma essencial, básica, mínima e necessária de “desconhecimento”: em verdade, como explicita Zizek, a própria constituição do campo da identidade exige tal grau de alienação [que se põe numa relação em que os campos dispostos se afirmam como tais, se realizam como tais, apenas quando se mediam, por assim dizer; ou seja, quando servem-se de suporte externo um ao outro para formarem, assim, sua auto identidade – que jamais existiu anteriormente a tal procedimento].

O que, me parece, ser uma formulação interessante da questão da aparência, pois não se trata de uma aparência que aliena/ oculta/ tergiversa sobre a essência.

Desse modo é que, sobretudo, nas sociedades capitalistas, num sentido precisamente formal, é que, me parece, pela primeira vez na história é que os homens associam-se e formam uma sociabilidade desfetichizada. Se lembramos do Manifesto Comunista, vemos, por exemplo, que:

“(…) Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cotejo de concepções e de ideais secularmente veneradas; as relações que as substituem tornam-se antiquadas (…) os homens são obrigados finalmente a encarar sem ilusões a sua posição social e as suas relações com outros homens (…)” [2011, p.43].

Dizer então que “por trás das mercadorias há trabalho” é pouco, se exposta dessa forma a questão do fetiche. Em verdade, é realmente pouco crível realmente que algum de nós acredite que o não é o trabalho que está por trás das mercadorias, penso. Então, se assim o for, qual é a qualidade do “ocultamento ideológico” da sociedade capitalista? Qual é a forma ideológica própria à sociabilidade burguesa? Se sabemos todos que ela depende da liberdade do trabalho, e não seu inverso, para absorvê-lo à dinâmica da produção de valor qual é o “desvio ideológico” das relações sociais mediadas pelo trabalho? Pois, se entendi, é a própria condição material, em ato, factual, do trabalho livre na sociedade capitalista que faz com que outras categorias que, como ele gozem de liberdade efetiva e concreta, que subverte a universalidade da liberdade na sociedade capitalista – de certo modo, então, pode-se dizer, acredito, que a “verdade” não é que o trabalho está preso ao capital, mas que sua liberdade é pressuposto das relações sociais capitalistas.

Zizek sugere então que o ocultamento ideológico é posto a partir do desvelamento da ordem das coisas, por assim dizer. Ou seja, admitindo, é claro, que a sociedade burguesa constitui-se a partir de formas de “dominação” tem-se que esta não é, pelas próprias qualidades destas “formas de opressão”, “ocultada”, mas fundamentalmente “revelada”. Isto é, admitindo que a dominação existe, é claro, o fato é que a dominação existe como dominação ao ponto de ser questionada enquanto tal. Logo, o juízo básico sobre o problema da “ideologia” e da “alienação social”  exige coordenadas distintas.

“(…) Deparamos, pois, com o paradoxo de um ser que só consegue reproduzir-se na medida em que seja desconhecido e desconsiderado: no momento em que o vemos ‘como ele realmente é’, esse ser se dissolve no nada (…)” [ZIZEK, p.312]

Esse “nada”, talvez, seja o vazio ideológico ou a realidade pós-ideológica em que a alienação, as formas de dominação social, se apresentam e enunciam tal qual são: não há o que revelar/ a coisa se mostra como tal e, por isto, o ser perde a necessidade de ser “desmascarado”. Claro, como diz Zizek, exatamente este é o ato ideológico em estado puro: a suposição de que nele, por meio dele, a realidade apresenta-se nua e cruamente – um acesso direto a ela. Neste registro, neste nível, a crítica tradicional à ideologia perde seu sentido, pois a referência básica de sua existência é a necessidade de expô-la até as vísceras. Mas há algo, ainda mais, a ser exposto numa sociedade em que a Autoridade, o Poder, a Ordem etc são explicitamente encaradas, acusadas e atacadas?

Citando Peter Sloterdijk, Zizek passa a discorrer sobre o cinismo como forma de ideologia [p.312]. Temos duas dimensões: [1] a que, através da ironia e do sarcasmo, confronta-se a ideologia dominante, expondo-a ao ridículo e, por fim, evidenciando os interesses egoístas/ particulares que se apresentam como universais – trata-se, portanto, de um procedimento pragmático de denúncia e desvelamento ideológico; [2] a que procura expor no momento da enunciação a própria posição interessada/ particular do enunciado, preservando, assim, sua força uma vez que à tal posição não pode se imputar “falsidade” ou “mentira” – ao contrário, ela é toda honesta por ser é toda sincera.

Caso se admita que a ideologia contemporânea seja o “cinismo cínico”, isto é, aquele cinismo que alcança aquilo que tanto a crítica ideológica tradicional [“essência por trás do ocultamento da aparência”] quanto “cinismo crítico” [“há um interesse particular que não se revela na enunciação que se apresenta como universal e que, portanto, merece ser alvo de constrangimento”] alcançam, ficamos numa encruzilhada: à crítica ideológica não basta nem denunciá-la como “posição particular que se mostra como universal” [isto, a ideologia contemporânea, já faz] e nem ironizá-la ou crer que sua ironização é uma forma de denunciar e corroer suas estruturas [ela, a ideologia contemporânea, se mostra e se estrutura a partir de sua própria ironização].

Referências 21/03/2013

 

CEII 21032013.001

Sobre a mercadoria e a forma do valor:

MARX, K. O Capital, vol.I (Editora Civilização, 1998)

-> “Capítulo 1: A mercadoria”, em inglês e em português

Sobre o primeiro livro do Capital:

HARVEY, David A Companion to Marx’s Capital (Verso, 2010)

-> ver também suas aulas sobre o volume I: http://davidharvey.org/reading-capital/

JAMESON, Fredric Representing Capital (Verso, 2011)

ROSDOLSKY, Roman Gênese e Estrutura do Capital de Marx (Contraponto, 2001)

Sobre o cinismo e a ideologia hoje:

SAFATLE, Vladimir Cinismo e Falência da Crítica (Boitempo, 2008)

______________ O que é o cinismo?disponível aqui

SLOTERDIJK, Peter Crítica da Razão Cínica (Relógio D’água, 2011)

Sobre a diferença entre enunciação e enunciado:

Lacan, Jacques Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo no Inconsciente Freudiano (em Escritos, Jorge Zahar, 2008)

Zizek, Slavoj Como Ler Lacan (Jorge Zahar, 2010)

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-21032013

-> próxima reunião: discussão de conceitos fundamentais da psicanálise (recalque, sintoma, fantasia…)

Nota #1 [21/03/2013]

No último encontro, trabalhamos de uma maneira a expor sobre a forma mercadoria: seu valor de uso e o valor de troca. E assim, a partir do que Marx propõe, vimos o processo de que a partir da forma mercadoria, podemos ver que o que incide em todas as mercadorias é o trabalho. Trabalho este que é o trabalho enquanto fato, posto que não há como se comparar diante das técnicas e do dispêndio de “músculos, nervos” (trabalho privado). Assim tira-se um conceito de “trabalho abstrato” (trabalho público, social). Para tentar achar alguma mensuração para o trabalho, posto que eles sejam muito diferentes, Marx “soluciona” a contradição dizendo de um “trabalho socialmente necessário”. O tempo socialmente necessário é absorvido pela mercadoria, pois não se importa de quanto tempo se demore a fazê-la (trabalho individual variável), pois existe um certo tempo quase intuitivo que diz de seu tempo de feitura. Pode-se dizer que existiria, então, uma determinação de fora pra dentro para a questão do tempo e do valor das mercadorias, quase que como se elas “pensassem” e se “comunicassem” enquanto mercadorias.

O encontro de hoje é fazer um salto de como o valor transmuta em dinheiro.

Para resolver a contradição da ordem do infinito das comparações entre as mercadorias, há que se cunhar uma mercadoria única, um equivalente geral para todas as outras mercadorias e que para isso representam seu valor, que comporta todas as propriedades inerentes à mercadoria (matérias sublimes), que é o dinheiro. “O progresso consiste simplesmente em que a forma de permutabilidade imediata e universal, ou a forma de equivalente geral, se incorporou definitivamente [por força da prática social] na forma natural e específica do ouro” (Marx, O Capital, vol. 1 in http://www.marxists.org). O dinheiro, na sua forma inicialmente em ouro,  então vira um hábito social, e comporta uma abstração real em sua forma. E como se comparar agora, salvando a sua magnitude, as mercadorias? Marx nos diz que isso quem resolve é o preço. Agora o preço é uma quantidade desta matéria de dinheiro que representa o valor de todas as mercadorias intercambiáveis.

E como se define o preço? Quem quantifica? As relações sociais e o fetichismo da mercadoria podem responder a essas perguntas. As mercadorias estão envoltas em alguma “aura quase mágica.” Essa magia diz que uma relação entre as pessoas e os objetos é mediada por relações sociais, que numa primeira medida, parece ser ilusória, mas por mais que realmente assim seja ainda incide e determina a relação inicial.

Assim, as mercadorias são dotadas de preços. Preços estes que obnubilam o fetichismo que recobre todas as mercadorias, e como diz Marx: “Este caráter fetiche do mundo das mercadorias decorre, como mostrou a análise precedente, do caráter social próprio do trabalho que produz mercadorias”. Na medida em que o fetichismo está ali turvo na mercadoria seria análogo ao sintoma, posto que, para toda mercadoria existir é necessário um fetiche sobre ela, da mesma forma que um sintoma, já que ele não estava ali antes de existir? Ou seja, para  dizer de um sintoma, diz-se que algo se deslocou, e exatamente porque ele se manifesta é que cria um lugar de não inscrição, estaria o fetiche da mercadoria neste lugar de que não teria como um retorno possível a sua condição de mercadoria sem fetiche?

Nota #5 [14/03/2013]

A questão principal que foi apresentada a nós pelo texto de Zizek nos remeteu diretamente ao primeiro capítulo do livro O Capital de Marx, portanto me concentrarei em alguns pontos dessa introdução à economia marxista nesta nota. Tentarei sintetizar as partes mais importantes aqui.
Primeiramente, Marx define a mercadoria como algo que satisfaz as necessidades humanas – sejam elas apenas fantasias ou necessidades biológicas. Em seguida, a noção de valor de uso é introduzida: as qualidades da mercadoria proporcionam uma utilidade, a qual definirá o valor de uso da mercadoria. Ele só se realiza na consumação ou na utilização do produto. O valor de troca seria consequência de uma proporção que possibilita que os valores de uso de mercadorias diferentes sejam equivalentes e passíveis de troca.
Por exemplo, quando dizemos que 5kg de trigo é igual a 1kg de ferro, pode-se deduzir que há algo de comum entre os dois para se permitir que essa troca ocorra. Assim, deve haver um terceiro termo que possibilite a equivalência (Já que são claramente distintos materialmente e com relação ao valor de uso) que explicita o que constitui o valor de troca. Percebe-se que o valor de troca expressa o caráter quantitativo de uma mercadoria, enquanto o valor de uso expressa o caráter qualitativo desta.
Para chegar à definição do valor de troca, devemos subtrair as qualidades materiais (que nos informam o valor de uso) da mercadoria. O que sobra então? A única coisa que resta é que as mercadorias são produto do trabalho. Mas não devemos levar em conta um trabalho específico (trabalho do marceneiro, pedreiro etc.), devemos abstrair dessa especificidade e chegar a um trabalho humano abstrato – expresso pelo caráter que é comum em todos esses tipos de trabalho. Assim, uma mercadoria só tem valor se nela está materializada certa quantidade de trabalho humano abstrato, sendo essa quantidade medida por unidade de tempo. Porém, não se trata de medir o tempo que um trabalhador específico, mas de medir o tempo de trabalho socialmente necessário, a média dos tempos de trabalho para produzir a mercadoria. Outra questão importante é que as relações sociais aparecem nas trocas de mercadorias, pois seu valor é determinado pelo trabalho abstrato [socialmente necessário].
Assim, Marx introduz a forma simples da mercadoria, a qual Zizek faz menção em seu texto e que esconde o mistério de qualquer forma-valor: x da mercadoria A vale y da mercadoria B.

Nota #4 [14/03/2013]

A formação sintomática em Marx
Ou
Melhor continuar sonhando do que despertar

A linha argumentativa de Zizek acerca da ideologia tem como ponto de partida a formulação lacaniana de que Marx inventou o sintoma. Lembrando de que se trata do sintoma psicanalítico, do sintoma tal como é concebido pela psicanálise desde Freud. Zizek, porém, não oferece em O mapa da Ideologia uma definição termo a termo do que é o sintoma na psicanálise. Ele nos dá, sim, uma chave explicativa deste conceito, por exemplo, na página 306: “Chegamos finalmente à dimensão do sintoma, pois uma de suas definições possíveis seria, igualmente, “uma formação cuja própria consistência implica um certo não-conhecimento por parte do sujeito”: o sujeito só pode “gozar com seu sintoma” na medida em que sua lógica lhe escapa”.

A partir disso o caminho trilhado pelo filósofo esloveno consiste em demonstrar como tal formação sintomática, cuja consistência implica um não-conhecimento por parte do sujeito, é inerente à teoria de Marx. Lembrando que esse caminho adotado por Zizek tem o propósito de superar duas correntes marxistas, ambas pautadas no princípio de que existiria uma consistência, o modo de produção capitalista, independentemente de qualquer desconhecimento por parte do sujeito. Não quer dizer, no entanto, que não ocorra um certo desconhecimento por parte do sujeito. Este desconhecimento existe, porém, ele é externo ao escopo da teoria, em si mesma consistente, sobre os modos de produção. Além disso, tal desconhecimento também teria, por sua vez, sua própria consistência. Trata-se do que comumente se chama de alienação. Ela já é prevista pela teoria, sendo assim um desconhecimento acidental que pode e deve ser transformado num conhecimento. Para a corrente economicista essa transformação deve ser dar através da consciência de classe, e para a corrente freudo-marxista, por meio da análise dos desejos inconscientes, os quais são passíveis de se tornarem conscientes.
Primeiramente Zizek demonstra através da análise de Sohn Rethel sobre a forma mercadoria, que o modo mesmo de produção capitalista se constitui de maneira sintomática. É inerente à troca efetiva de mercadoria um certo desconhecimento por parte do sujeito sobre o que está implicado nessa troca. Utilizando provisoriamente o conceito psicanalítico que opera a formação do sintoma, recalca-se o caráter mutável e concreto da mercadoria ao trocá-la. É como se a mercadoria não estivesse no tempo, e assim não estivesse sujeita às mudanças que surgem inevitavelmente com o passar do tempo, e como se ela fosse também totalmente destituída de qualidades empíricas, sendo reduzida a uma entidade abstrata. O recalque dessas características (representações) da mercadoria tem como conseqüência, por sua vez, o surgimento de um sintoma, a corporalidade imaterial do dinheiro. Sendo este último, enquanto sintoma, o signo do retorno do recalcado. Lembrando que, de acordo com a psicanálise, o sintoma é uma formação substitutiva. As representações que são recalcadas sempre deixam seu lastro, seja na forma propriamente de um sintoma corporal na histérica, sintoma este que é o substituto das representações recalcadas e serve assim de signo destas últimas, podendo então ser interpretado; seja na forma de idéias compulsivas no obsessivo, idéias aparentemente sem nexo com as representações recalcadas, mas que a substituem e servem também de signo do recalque. Nos dois casos, no sintoma e nas idéias obsessivas, trata-se igualmente do retorno do recalcado.
A questão é que, ao contrário do que comumente se pensa, o sintoma na psicanálise é inerente ao sujeito, ou seja, eliminá-lo significa eliminar o próprio sujeito. O sintoma é o que há de mais real no sujeito, real no mesmo sentido dado por Zizek ao caráter material do dinheiro, um material sublime, um corpo indestrutível e imutável que persiste para além da degradação do corpo físico. Da mesma forma, a troca de mercadoria e o sintoma que ela engendra, o dinheiro, são interdependentes. Este último é o que há de mais real no modo de produção capitalista.
Depois então de situar a formação sintomática no modo de produção capitalista com Sohn Rethel, Zizek demonstra como a ideologia também se constitui de forma sintomática. A ideologia maior do capitalismo dos direitos e deveres burgueses, ao contrário do que se pensa comumente, não obscurece a prática efetiva da exploração empreendida pelo capital. Supor isso é conceder à ideologia uma consistência que ela não possui. Na verdade, a ideologia, apesar de pretender uma universalidade integral, ela sempre engendra uma exceção que revela seu caráter sintomático. Por exemplo, a liberdade tão evocada pelo capitalismo, a qual se desdobra numa variedade de liberdades que pretendem esgotar todo tipo de liberdade possível, alcançado assim a universalidade, como a liberdade de fala e imprensa, liberdade de consciência, liberdade de comércio, liberdade política etc., inclui um tipo que, paradoxalmente, subverte tal universalidade. Trata-se da liberdade de vender sua própria força de trabalho. Tal liberdade, repetindo as próprias palavras do Zizek, “é o próprio oposto da liberdade efetiva: ao vender “livremente” sua força de trabalho, o trabalhador perde sua liberdade – o conteúdo real desse livre ato de vender é a escravização do trabalhador ao capital” (p.306).
Com esse apanhado geral é possível apontar que o marxismo de Zizek não enxerga nas teorias de Marx sobre o modo de produção e a ideologia capitalista uma consistência da qual se teria acesso por um conhecimento estritamente teórico que por si mesmo seria capaz de produzir transformações na realidade. Tanto o modo de produção quanto a ideologia capitalistas para alcançarem sua consistência implicam um certo desconhecimento por parte do sujeito. O grande diferencial da interpretação de Zizek em comparação com as duas correntes marxistas mencionadas mais acima é a introdução da noção/função de sujeito – que precisa ser especificada – que acompanha a noção psicanalítica de sintoma.  A partir dela, Zizek consegue sustentar que o mais fundamental em Marx ainda não foi devidamente entendido pelos marxistas, e que é justamente esse desconhecimento que explica, por exemplo, a não efetividade das tentativas de aplicar o marxismo na sociedade. Daí Zizek ser um renovador do marxismo, e defender Marx nos tempos atuais em que a tendência, sobretudo por parte daqueles que um dia levantaram a bandeira do marxismo, é considerá-lo caduco, senão perigoso.