Nota #2 [21/02/2013]

Que inconsciente é esse da forma-mercadoria?

A análise do sonho em Freud visa o que este último chama de trabalho onírico, não o seu pensamento latente (acontecimentos diurnos dos quais o sonho extraiu alguns elementos), e tampouco o seu conteúdo manifesto (imagens aparentemente desconexas e sem sentido). Para entender isso é necessário lembrar que para Freud o sonho é uma manifestação privilegiada do inconsciente, e não é por acaso que sua grande e mais conhecida obra é “A Interpretação dos Sonhos”, onde ele o define, inclusive, como “a via régia do inconsciente”. Tendo isso em mente, para a psicanálise o que está em questão no sonho é o que ele tem e traz sobre o inconsciente. Neste ponto já temos que ter cuidado para não confundirmos dois sentidos diferentes deste conceito tão caro à psicanálise: os sentidos descritivo e sistemático de inconsciente. Segundo o próprio Freud (1915, p.198): “O inconsciente abrange, por um lado, atos que são meramente latentes, temporariamente inconscientes, mas que em nenhum outro aspecto diferem dos atos conscientes [sentido descritivo], e, por outro, abrange processos tais como os reprimidos, que, caso se tornassem conscientes, estariam propensos a sobressair num contraste mais grosseiro com o restante dos processos conscientes [sentido sistemático]”. Primeiro esclarecimento: o sentido de inconsciente que devemos apreender na análise do sonho é o sistemático, e não o descritivo. Com isso já entendemos porque não é o pensamento latente que é visado por Freud em sua análise do sonho. O pensamento latente não deixa de ser inconsciente, mas o é em seu sentido mais fraco, o descritivo, segundo o qual o inconsciente possui as mesmas características do pensamento consciente e por isso mesmo pode tornar-se consciente.

Por que o inconsciente visado pela análise freudiana do sonho não consistiria então no seu conteúdo manifesto? Com efeito, este último distancia-se completamente das características do pensamento consciente, sinônimo do que comumente se entende por racionalidade. Neste caso, identificando o inconsciente ao conteúdo manifesto, de fato, o inconsciente não teria as mesmas características do consciente, mas seria, por sua vez, um fenômeno totalmente irracional. A respeito disso, é necessário sempre lembrar que todo o esforço de Freud é afastar o inconsciente e o sonho das concepções correntes que os compreende como inteiramente desprovidos de inteligibilidade/racionalidade, seja segundo uma versão naturalista, como epifenômenos de processos somáticos, seja segundo uma versão mística, como processos sobrenaturais.

Nem inteiramente racional segundo os padrões da consciência, nem totalmente irracional. Qual é, afinal, o estatuto do inconsciente tal como ele é delimitado pela análise freudiana do sonho? Aqui entra em cena o trabalho onírico. É no trabalho onírico que Freud situa o inconsciente, segundo seu sentido sistemático, que implica entendê-lo como “um sistema particular e possuindo características próprias”. Este trabalho consiste num procedimento de “tradução” do pensamento latente para o conteúdo manifesto do sonho. Segundo as palavras do próprio Freud (1900, p.127), trata-se no trabalho onírico da “transformação dos pensamentos inconscientes [pensamentos latentes] no conteúdo do sonho [conteúdo manifesto]”. Sem entrar no mérito das operações que realizam esta transformação e constituem o que Freud chama de trabalho onírico – deslocamento, condensação e sobredeterminação –, podemos afirmar que elas não são nem propriamente racionais nem irracionais. Elas pertencem à ordem daquilo que “não cessa de não se inscrever”. Por outro lado, se elas fossem racionais, diríamos que elas “não cessariam de se escrever” e caso fossem irracionais, afirmaríamos que elas “cessariam de se escrever”. A dupla negação que caracteriza o estatuto do inconsciente implica que, se porventura a interpretação analítica puser à luz o desejo inconsciente em jogo no trabalho onírico, no mesmo instante tal desejo desvanecerá. De modo que deduzimos daí que o estatuto do pensamento inconsciente deve incluir necessariamente o seu desconhecimento. O inconsciente é, portanto, uma instância cuja consistência depende de seu desconhecimento.

Transpondo esse inconsciente freudiano para a análise marxiana da mercadoria, o que era desejo inconsciente torna-se o que Sohn-Rethel chama de “abstração real”. Segundo Zizek (ano, p.303): “verificaremos ser impressionante a homologia entre seu status [o da abstração real] e o do inconsciente”.

O que primeiramente chama atenção nessa homologia é que desejo inconsciente e abstração real não são uma única e mesma coisa. De modo que é errôneo pensar que o inconsciente da forma-mercadoria é exatamente o mesmo do sonho. E Badiou (2002) parece nos fornecer alguns elementos para entender essa diferença. Segundo este filósofo, tanto a psicanálise quanto o marxismo constituem práticas organizadas localmente: a psicanálise é organizada por seus casos clínicos e o marxismo por conjunturas políticas. No entanto, cada uma dessas práticas locais incide sobre dois extremos no tocante aos corpos: enquanto a psicanálise incide sobre o corpo individual, o marxismo incide sobre o coletivo. Tendo essa referência como guia, podemos tentar entender o desdobramento, a princípio enigmático, da formulação zizekiana sobre a presente homologia: “homologia entre seu status [da abstração real] e o do inconsciente, dessa cadeia significante que persiste numa “Outra Cena”: a “abstração real” é o inconsciente do sujeito transcendental, o suporte do conhecimento científico objetivo-universal”. (ano, p.303)

Outra via para pensar essa homologia entre desejo inconsciente e abstração real, sem identificá-los, e que pode render bons frutos, seria a comparação entre a referência lacaniana ao cogito cartesiano, para pensar o sujeito do inconsciente freudiano, e a referência zizekiana e Sohn-Retheliana ao sujeito transcendental kantiano, para pensar o inconsciente da forma-mercadoria. Por que Lacan recorre a Descartes para pensar e definir o estatuto do sujeito do inconsciente freudiano, e Sohn-Rethel faz recurso a Kant para delimitar o estatuto do inconsciente da forma-mercadoria? Qual é a diferença entre o cogito cartesiano e o sujeito transcendental kantiano, que permite aproximar o primeiro mais da análise do sonho e o segundo, mais da análise da mercadoria?

Na próxima nota dedicar-me-ei propriamente à noção de abstração real e em que medida ela consistiria no inconsciente da forma-mercadoria. E se houver oportunidade, tentarei pensar a homologia entre desejo inconsciente e abstração real, isto é, a homologia entre o inconsciente freudiano e o inconsciente marxiano a partir dos dois caminhos mencionados acima.
Por fim, última observação: É importante reter o modo como são caracterizados negativamente o inconsciente freudiano e o inconsciente da forma-mercadoria. Este é um aspecto, senão A questão fundamental, que merece ser desenvolvida e aprofundada. Mas vamos por partes.

Nota #4 [14/02/2013]

Na primeira reunião do ano, ela, a famigerada nota, foi tema de fervorosas discussões. Sim, nota, como esta aqui que está sendo escrita.

Retomando o Projeto, que é quem nos orienta o trabalho, a nota é uma inscrição de que houve um trabalho, pois “somente uma nota de trabalho engaja o sujeito com aquilo que permanece obscuro a sua compreensão.” (p. 15). Assim, a nota de trabalho tem um estatuto de trabalho, trabalho este que, como não apresenta delimitação de tamanho e se perde na autoria de UM sujeito, pertencendo a uma forma de construção que, por mais que um sujeito tenha tomado aquela nota como algo que tem de si, ela compreende e comporta um coletivo.

A dificuldade travada na primeira reunião deste ano foi um pouco de retomar sobre como a nota tem sido um empecilho, e como está difícil para muitos sustentar de escrevê-las e enviá-las dentro dos prazos. Mesmo que se tenha o alerta de que pode ser um parágrafo, não tem limite de tamanho, e não se trata de um resumo, resenha ou qualquer outra modalidade acadêmica de trabalho com textos e aulas, ainda assim, a nota continua sendo um dos grandes argumentos na saída de membros do CEII. Entendo que isto nos deva servir de trabalho!

Num primeiro momento, pensa-se logo: “se o objetivo é que as pessoas fiquem, então, vamos abolir as notas!”. Mas quando passa o calor das emoções, vemos que não se trata de fazer com que pessoas fiquem a qualquer custo, inclusive quando esse custo coloca em jogo o que nos é de mais caro que é o projeto. O que nos faz questão é por que as notas apresentam sempre esse caráter repulsivo? Seria uma mera falta de tempo? Escrever sobre o que não entendeu é tão difícil? É difícil escrever que não entendeu? Não desvalorizo esses argumentos. Eu mesma passo por eles: a dificuldade de arranjar uns quarenta minutos para me dedicar a escrever, a dificuldade que é escrever de algo que não se domina, e mais ainda assumir que não domina determinado assunto. Mas tudo isso é algo individualista, egóico, e que não condiz com um projeto maior que se pensa, quando se estrutura algo como o CEII. Há que se fazer um trabalho, trabalho este que nos importa, de se depreender dessa vivência individual e pensar em grupo.

Uma frase surgiu no encontro “então pode se escrever qualquer coisa, de qualquer forma”. Discordo que quando alguém escreve, escreve qualquer coisa. Quando uma nota é produzida, mesmo com o total desleixo e desinvestimento de quem a fez por pura burocracia, só o fato de estar submetido a uma burocracia e não querer falhar com ela, já diz de uma implicação com o grupo. E mesmo que não escolha as melhores palavras, ou se empenhe mais, algo do que foi dito no encontro anterior, fez algum tipo de enfeito que pode ser materializado em trabalho do, no e para o coletivo.

Assim, reitero a importância fundamental das notas. Essa metanota funciona como um disparador para podermos pensar e trabalharmos com esse material que temos, não só como produto de texto, mas o próprio processo de fazê-lo e retomá-lo.

Nota #3 [14/02/2013]

Na reunião do CEII do dia 14 de fevereiro tratamos de duas questões: a questão interna do envio das notas e o conceito de abstração real. Sobre a primeira gostaria de falar poucas palavras, acredito que seja suficiente afirmar que todos os membros devem enviar suas notas assim que possível. É importante ressaltar que as notas são de grande importância para o funcionamento do CEII e que somente ela “engaja o sujeito com aquilo que permanece obscuro a sua compreensão” (Página 15 do Projeto do Círculo). A nota pode ser breve e escrita de diversos modos, desde que ela seja “explicitamente baseado no material apresentado na reunião correspondente” (4.3 b – presente na página 15 do Projeto).

Gostaria de tratar agora do conceito de abstração real. Acredito que a questão central esteja ligada ao fato de que a abstração real é uma abstração visível na efetividade social, não apenas uma simples abstração de pensamento. A abstração real aparece na efetividade do ato de troca: os indivíduos envolvidos numa relação comercial agem como se as mercadorias não possuíssem sutilezas qualitativas que as tornam incomparáveis, abstraindo de suas qualidades para reduzí-la a “uma entidade abstrata que […] tem “o mesmo valor” que outra mercadoria pela qual é trocada” (p. 302). Essa abstração é comparável à abstração realizada pela ciência moderna, pois essa abstração para o valor [de troca] da mercadoria; essa abstração que ocorre no ato de troca para uma quantidade pura é essencial para a ciência moderna.

Isso que foi denominado de abstração real possui certa similaridade com o fetichismo: os indivíduos que trocam mercadorias sabem muito bem que as mercadorias são incomparáveis pelas suas qualidades, que sofrem a ação do tempo e que possui um “valor de uso” particular, mas ainda assim agem como se nada disso fosse verdade. No entanto, não consigo compreender o que significaria que a “abstração da troca não é o pensamento, mas tem a forma do pensamento” (p. 304). O que seria exatamente a forma de um pensamento? Claramente a abstração real não é um pensamento, pois ela só existe na sua efetividade na relação de troca. Mas por que ela teria a forma de um pensamento?

Nota #1 [21/02/2013]

O último encontro do CEII teve duas etapas. A primeira se constituiu de dois pontos: Quanto aos primeiro quesito, “metragem dos textos”, devo dizer que não me oponho a priori aos textos curtos, apenas às ideias curtas. Contudo, muito me interessaria desenvolver o estudo deste livro especifico do Zizek que iniciamos, por se tratar creio eu da abordagem mais geral do CEII, que é a análise do sublime objeto da ideologia. Certamente esse livro, bem assimilado, será para todos uma referência importante. No momento, manifesto-me pela permanência nele. Sobre os convidados, aprovo com entusiasmo a ideia e proponho desde já a discussão acerca do tema atualíssimo da internação involuntária como forma de “limpeza” social.

Na segunda, desenvolvemos uma discussão teórica e comparativa entre a concepção da ideologia tradicional, exemplificada pela tese de Feuerbach acerca da alienação religiosa e a posição de Zizek, que não supõe mais, como destruição da ideologia, a aposta numa tomada de consciência dos processos objetivos que engendram a falsa consciência (ideológica), mas em apontar para o quanto uma certa ignorância é condição do funcionamento da ordem simbólica como tal. (é o ponto ao qual precisamos retornar). De todo modo, para Zizek, “Ideológica” não é a “falsa consciência” de um ser (social), mas esse próprio ser, na medida em que ele é sustentado pela “falsa consciência.”

Questionamento geral: gostaria de saber se a denominação “ ordem simbólica” é sinônimo de sociedade, ou se esses conceitos guardam uma certa distância que interditaria a aproximação sumária de Lacan com pensadores demasiado sociólogos, como os da Escola de Frankfurt. Ou não.

Nota #2 [14/02/2013]

O título “Como Marx inventou o sintoma?” não poderia ser mais claro e direto. É justamente esta pergunta que se quer responder ao longo de todo o capítulo 14, que é designado por essa interrogação, não para provocar um chiste ou estabelecer uma vaga analogia, mas bem pelo contrário, para que ela seja respondida de forma séria e consistente. Para respondê-la é necessário, por conseguinte, transformá-la numa questão: “Como foi possível que Marx, em sua análise do mundo das mercadorias, produzisse uma noção que também se aplica à análise dos sonhos, dos fenômenos histéricos e assim por diante?” (Zizek, p.297). Questão acerca das condições de possibilidade da noção de sintoma em Marx, cuja resposta afirma o seguinte: É a homologia fundamental entre os métodos interpretativos de Marx e Freud que torna possível a invenção do sintoma pelo primeiro e o seu uso pelo segundo. Em outras palavras, esta homologia entre a análise da mercadoria em Marx e a análise do sonho em Freud é o que torna possível a invenção da noção de sintoma por Marx e sua aplicação na psicanálise.

“Marx, Freud: A análise da forma”. Há uma homologia entre as análises do sonho (Freud) e da mercadoria (Marx). Esta homologia consiste no uso do mesmo procedimento metodológico pelos dois pensadores. A interpretação de seus objetos de estudo, a mercadoria em Marx e o sonho em Freud, evita o fascínio fetichista do conteúdo supostamente oculto por trás da forma apresentada por seus objetos. Ao invés de recair nesse lugar comum segundo o qual a forma/aparência oculta um conteúdo/essência, os dois métodos interpretativos procuram desvendar o segredo da própria forma. Isso significa que tanto Marx quanto Freud se perguntam em que medida a mercadoria e o sonho assumem a forma que eles exibem ordinariamente: a mercadoria, a forma de um fetiche, e o sonho, a forma de um rébus.

“O inconsciente da forma mercadoria”. Mais do que homologia entre dois métodos interpretativos, a dialética da forma-mercadoria tem prevalência sobre a interpretação freudiana dos sonhos. A análise marxiana da forma-mercadoria fornece a chave para a compreensão teórica de todos os fenômenos de inversão fetichista. Isso significa que a interpretação marxiana da mercadoria serve de modelo para explicar todos os fenômenos cuja interpretação corriqueira consiste em sobrepôr um conteúdo supostamente oculto à forma aparente efetivamente explítica. Um dos teóricos que defende e foi mais longe em sua defesa sobre o alcance universal da forma-mercadoria é Alfred Sohn-Rethel.

Referências 21/02/2013

CEII 21022013

Poema de Victor Hugo:

em francês

em português (tradução ruim)

Sobre filme ‘A Viagem’:

Arquivo disponível na Biblioteca CEII, no dropbox (falta só baixar legendas em português)

Sobre a noção de abstração real:

SOHN-RETHEL, Alfred Trabalho Manual e Espiritual – disponível aqui

– introdução à noção de abstração real: O que é abstração real?

– introdução a alguns problemas levantados pela noção de abstração real: O que é abstração real mesmo?

– sobre autonomia da forma social, abstração real e topologia: Abstração Real e Autonomização do Valor

Sobre a noção de sujeito transcendental:

KANT, Immanuel Crítica da Razão Pura (Fundação Calouste Gulbekian, 1997)

Sobre a noção de crítica da religião no Feuerbach:

FEUERBACH, Ludwig Essência do Cristianismo (Vozes, 2007)

____________ Princípios da filosofia do futuro (Edições 70, 2002)

MARX, Karl & ENGELS, Friedrich A Ideologia Alemã (Editora Hucitec, 1986)

Sobre a operação de “Fundierung” (fato<->função):

HUSSERL, Edmund Logical Investigations (Routledge, 2001)

-> Conceito de Fundierung aparece no segundo volume, na meditação sobre o todo e as partes.

ROTA, Gian-Carlo Fundieruing as a Logical Concept – disponível aqui

WITTGENSTEIN, Ludwig Investigações Filosóficas (Vozes, 1994)

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-21022013

Nota #1 [14/02/2013]

O ato [efetivo, objetivo, material etc] da troca contém uma determinada forma de abstração. Ou seja, para ser posto este ato exige uma dada figuração de mundo subjacente, em que aquilo que se troca é trocado, nos termos e modalidades acionadas, por ser possível assim. Isto é, para trocarmos como trocamos pressupomos neste ato uma espécie de suspensão em que o tempo e o espaço não determinam as coisas trocadas.

“(…) na efetividade social do mercado, tratamos as moedas como se elas consistissem ‘numa substância imutável, uma substância sobre a qual o tempo não exerce nenhum poder, e que se situa num contraste antiético com qualquer material encontrado na natureza (…)” [p.303]

Nesse sentido, temos aqui uma relação tão contraditória quanto direta, por assim dizer, entre matéria e imaterialidade. O caso paradigmático, talvez, seja o dinheiro: o dinheiro, como sugere Zizek, contém, como “objeto sublime”, um “corpo dentro do corpo” [p.303] em que, me parece, a desfiguração de corpo-formal não desarticula o corpo-substancial. Isto é, a indestrutibilidade do dinheiro é um dado interno ao dinheiro [mesmo que, aliás, não haja um lado “de dentro” do dinheiro]. Sua materialidade, como materialidade, ao contrário, perece. No entanto, o que há de objetivo na materialidade que concerne ao dinheiro é aquela que se revela no nível das relações sociais: o dinheiro circula socialmente [materialmente] não por sua [perecível] materialidade, mas por sua indestrutível “autoridade simbólica” [p.304].

Esta “autoridade simbólica” devém, me parece, não de uma atitude mental, de um ângulo subjetivista ou de uma posição da consciência. Esta “autoridade simbólica” se dá no nível da prática social, na medida em que o dinheiro, sua força, persiste sob o pleno conhecimento [verbalizável por qualquer um] de sua comensurabilidade, de seu desgaste, de sua precária corporalidade física. O “postulado subentendido” de Sohn-Rethel informa, exatamente, que a efetividade social do mercado está no nível da prática, pois na teoria a coisa parece ser límpida: ninguém pensa que as mercadorias, por exemplo, não perecem – a questão é que nós agimos como se assim pensássemos.

O “como se” é o conteúdo, se bem entendi, do status ontológico, da disposição do mundo e das coisas nele, para que a troca de mercadorias seja possível. Nesse sentido, é que a “abstração real” embora não contenha uma realidade propriamente dita, pensando por isso aquilo que está dado por propriedades efetivas e fisicamente objetivas, é, ainda assim “real” – realidade no sentido de ser por meio delas que nossas ações no mundo são postas.

O limite, penso, é não tomar o “como se” como uma experiência interior do sujeito. Pois se assim o for, bastaria que ele não operasse a troca, não se pusesse [para ela] a partir deste registro, para que a troca em si se desfizesse no mundo. Em verdade, como já dito, o sujeito realmente não se põe a sim no ato da troca: ele internamente, em seu pensamento, em sua experiencia interior não pensa na indestrutibilidade da mercadoria, não crê propriamente na suspensão do tempo e espaço no momento da troca. Porém, age assim pois é como se pensasse desse modo.

Por que? De onde vem esta força?

Referências 14/02/2013

QUADROS.001

Sobre a noção de abstração real:

SOHN-RETHEL, Alfred Trabalho Manual e Espiritual – disponível aqui

– introdução à noção de abstração real: O que é abstração real?

– introdução a alguns problemas levantados pela noção de abstração real: O que é abstração real mesmo?

– sobre autonomia da forma social, abstração real e topologia: Abstração Real e Autonomização do Valor

Sobre a noção de sujeito transcendental:

KANT, Immanuel Crítica da Razão Pura (Fundação Calouste Gulbekian, 1997)

Sobre a relação sujeito-objeto no caso do olho e do olhar:

LACAN, Jacques Seminário 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise (Jorge Zahar, 1998)

Sobre a relação entre qualidade e quantidade na mercadoria:

MARX, K. Capital, vol.I (Civilização Brasileira, 2008)

 

Gravação da Reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-14022013

 

 

 

Nota #4 [17/12/2012]

Marx disse certa vez que “todas as ciências, exceto a economia política, reconhecem que as coisas apresentam frequentemente uma aparência oposta à sua aparência” (2005, p.617). Nesse sentido é que Zizek parece sugerir que a partir da forma-mercadoria abriu-se um amplo campo de investigações no domínio das ciências sociais, para além de fenômenos decididamente econômicos. O mérito de Marx reside aqui em oferecer uma espécie de matriz que nos faculta todas as outras formas da “inversão fetichista” (p.301). Alfred Sohn Rethel, segundo Zizek, foi o teórico que mais radicalmente se valeu de tal instrumento para desenvolver seus estudos. Para, Sohn Rethel, formalmente examinada, a análise da mercadoria contém não apenas o fundamento da crítica da economia política, mas também da explicação histórica do modo de pensamento conceitual abstrato e da divisão entre o trabalho intelectual e o trabalho manual que passou a existir juntamente com ele (p.301/302).

A forma-mercadoria portaria o “sujeito transcendental kantiano”: rede de categorias transcendentais que constitui o arcabouço a priori do conhecimento científico “objetivo” (p.302). Seu paradoxo seria então: ser a chave para a questão do conhecimento objetivo com validade universal, na medida em que, sob termos kantianos, ser um fenômeno patológico [intramundano, afeito à transitividade do mundo, da realidade, das coisas em nível de experiência]. Para Sohn Rethel, segundo Zizek, o método científico [da ciência newtoniana] contém um aparato de categorias das quais provém sua capacidade de conceituar a natureza, já presente na efetividade social no ato da troca.

“[…] A troca da mercadoria implica uma dupla abstração: a abstração do caráter mutável da mercadoria durante o ato da troca e a abstração do caráter concreto, empírico, sensível e particular da mercadoria (no ato da troca, a determinação qualitativa particular e distintiva de uma mercadoria não é levada em conta; a mercadoria é reduzida a uma entidade abstrata, que – independente de sua natureza particular, de seu ‘valor de uso’ – tem o ‘mesmo valor’ que outra mercadoria pela qual é trocada) […]” (p.302).

A comensurabilidade de todas as coisas, assim, antes de apresentar-se sob a forma científica apareceu, pela primeira vez, no dinheiro. O ato da troca, posto sob o dinheiro, realiza um movimento na realidade social abstratamente puro do qual a transferência de propriedade [no ato da troca] mantém intacta todas as propriedade do objeto trocado. Este ato intramundano parece validar-se universalmente independente das determinações qualitativas [necessariamente] externas a ele [que fazem parte do mundo].

Isto, para Sohn Rethel, explica Zizek, a partir da “Abstração Real” – suporte do conhecimento científico objetivo-universal (p.303). A abstração real não é a realidade em seu sentido, talvez, físico-corpóreo, mas é aquilo que efetiva a realidade do ato da troca. É “real” na medida em que estrutura a realidade, como tal, de modo que o referido ato seja possível. Inversamente valeria dizer que: sem esta estruturação da realidade, a realidade desvanece-se enquanto real – não podendo, então, receber tal estatuto “objetivo”. Aqui, o “valor” de uma mercadoria não se refere às suas propriedades materiais [forma, cor, sabor], enquanto “valor de uso”. A natureza do “valor” é a de um postulado: não há em si na mercadoria algo que lhe confira o valor que tem, no entanto, por assim ser convencionado, concebido etc é que ela porta valor – me parece, como se seu valor, fosse sustentado por um “tratado social” [embora não se trate de um “discurso artificial”].

O dinheiro, por exemplo: sabe-se que ele materialmente é um papel e como tal deteriora-se com seu uso. Seu corpo material se esvai, mas sua substância parece cheia e imutável, a qual o tempo não penetra e assim conserva seu valor [efetivamente social]. A degradação física do corpo do dinheiro não toca na física imaterialidade dele, por assim dizer. O “corpo dentro do corpo” do dinheiro, isto que é indestrutível e imutável [seu material sublime], é o lugar de onde devém sua “autoridade simbólica” (p.304). Zizek explica que por ser assim é que o ato de troca é irredutível a uma abstração do pensamento do sujeito que pensa ou que se situa no referido ato. Não é uma experiência interior que aciona para fazer acontecer o ato.

Zizek procura desenvolver a relação entre a “abstração real”, contida no ato da troca e que a viabiliza, ao inconsciente freudiano. O que ainda não me parece claro, se bem entendi o que expus, é se a “superação” do ato da troca exige um ato “consciente” do sujeito, ou melhor, dizendo, uma posição cognitiva diferenciada ou não suportada pela ontologia necessária ao ato da troca [p.305]. Se assim o for, me parece haver uma descontinuidade entre a ideia de que o ato da troca não é uma “experiencia interior” [que me parece correta].

Nota #3 [17/12/2012]

Temos visto que ao longo da exposição sobre a homologia dos processos de análise de Marx e Freud, Zizek nos aponta para uma certa ocultação que existe tanto nos sonhos quanto na mercadoria. Mas esta ocultação é mais do que desvelar algo que está por trás, como se ali encontrássemos algo da verdade do processo, mas é neste ponto em que a pergunta que ambos fazem é:  de que ordem é esse processo, e por que ele se faz necessário para que as coisas (sonhos e mercadorias) apareçam como tais?

A forma-mercadoria, em sua maneira mais pura, oculta o trabalho humano. Quando o produto assume a forma-mercadoria, algo transcende, e este assume uma forma quase autônoma de todo o processo de materiais empregados no seu fazer. Atribui-se então um valor arbitrário. É sempre arbitrário porque, mesmo que se retorne passo-a-passo o processo de constituição de sua forma, algo da atribuição de um valor escapa ao entendimento neste processo. Vê-se isso na própria fabricação do dinheiro, como sendo a máxima representação da forma-mercadoria. Não só pelo seu processo de fabricação estar completamente perdido, e por ele mesmo não possuir  como valor do que ele mesmo diz se representar (uma moeda de um centavo é custa mais do que um centavo para se fabricar, e uma nota de cem custa muito menos do que cem). E mais do que isso, porque o dinheiro assume em si mesmo as propriedades que a mercadoria deve possuir: seu caráter imutável e passível de ser trocada por qualquer outra mercadoria.

Sabemos que há um mistério quando falamos de mercadoria. Um mistério que se presume ser solucionado quando se retrocede o processo de constituição da mercadoria (trabalho empenhado, tempo, materiais, e assim por diante). Mas mesmo assim, quando se chega neste ponto, a homologia ao método freudiano se explicita: a análise da mercadoria nestes termos se assemelha à análise dos sonhos no que tange o seu conteúdo latente. Quando se pensa os porquês dos sonhos, e se chega a conclusão por associações e por lembranças de aquilo pertencer a um registro de resíduo diurno, retroceder o processo de forma-mercadoria coloca-se nesse mesmo patamar. Isso não chancela de forma alguma a homologia dos métodos. Na verdade eles dizem de uma ordem outra que não é a pergunta que é feita por ambos os autores, que poderia ser resumida na seguinte questão: o que faz com que as coisas se apresentem destas formas (mercadorias e sonhos)? O que é movedor de um processo contingente, arbitrário (produtos -> mercadorias / desejo inconsciente -> sonhos), em algo que tomamos como necessários?