Referências 17/12/2012

ceii 17122012.001

 

Sobre a noção de abstração real:

SOHN-RETHEL, Alfred Trabalho Manual e Espiritual – disponível aqui

– introdução à noção de abstração real: O que é abstração real?

– introdução a alguns problemas levantados pela noção de abstração real: O que é abstração real mesmo?

– sobre autonomia da forma social, abstração real e topologia: Abstração Real e Autonomização do Valor

Sobre a noção de sujeito transcendental:

KANT, Immanuel Crítica da Razão Pura (Fundação Calouste Gulbekian, 1997)

Sobre a operação do “como se” [als ob]:

VAIHINGER, Hans A filosofia do Como Se (Argos, 2012)

Sobre a “corporalidade imaterial”:

SANTNER, Eric Royal Remains: The People’s Two Bodies and the Endgames of Sovereignty (University Chicago Press, 2011)

Sobre a ciência newtoniana e suas categorias fundamentais:

KOYRÉ, Alexandre Do Mundo Fechado ao Universo Infinito (Forense, 2006)

ROSSI, Paolo O Nascimento da Ciência na Europa Moderna (Edusc, 2001)

Sobre a “Outra Cena”:

FREUD, Sigmund Bate-se numa criança: Contribuição ao conhecimento da gênese das perversões sexuais – disponível aqui

 

 

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-17122012

 

 

Nota #4 [03/12/2012]

Nesta nota, gostaria de começar com as ideias de Freud. Primeiramente, não devemos confundir desejo inconsciente (Expresso pelo trabalho do sonho) e pensamento latente, como fiz numa reunião anterior. O pensamento latente pode ser expresso sem grande resistência pelo analisando e é composto de ideias que não possuem nada de sexual, pois são completamente normais e se apresentam ao paciente no seu dia a dia. O desejo inconsciente nada tem a ver com o pensamento latente, uma vez que ele se mostra pela forma do sonho; ou seja, por meio do trabalho do sonho (Que realiza “deformações” como o deslocamento e a condensação) é que o desejo inconsciente se mostra, e não pelos pensamentos latentes que supostamente seriam a origem do sonho. É por isso que a questão principal na análise dos sonhos é a forma. Assim, não devemos cair na tentação de imaginar que o fundamental nos aparece como algo oculto “por trás” da forma, pois o segredo está na própria forma.

Neste ponto, podemos relembrar a operação homóloga de Marx para com o fetichismo da mercadoria: “O caráter misterioso que o produto do trabalho apresenta ao assumir a forma de mercadoria, donde provém? Dessa própria forma, claro”. Contudo, aqui encontro alguns problemas, pois por que o valor do trabalho tem que aparecer sob a forma de mercadoria?

Nota #3 [10/12/2012]

Nesta nota, abordarei mais os aspectos do fetichismo da mercadoria de Marx do que a análise dos sonhos de Freud, pois o último já foi discutido em minhas últimas notas. Em seu texto “Como Marx inventou o sintoma?”, Zizek descreve dois processos que ambos os autores realizam em suas respectivas análises: primeiro devemos pensar que há um segredo oculto pelo objeto, depois podemos realizar que não há um segredo oculto “por trás” da forma pela qual o objeto nos aparece, pois o segredo está na própria forma.

No caso de Marx, a suposta essência oculta da mercadoria residiria no fato de que o valor desta não reside na mera contingência do mercado, da relação entre oferta e procura, mas sim no tempo de trabalho (Acredito que se trate do tempo de trabalho socialmente necessário, mas não está explícito no texto). Em seguida, Marx afirma que, apesar de termos demonstrado que não há acidentalidade alguma na determinação dos valores das mercadorias, isso não altera de modo algum o modo como seus valores são determinados. Isso significa dizer que, mesmo que o valor de troca de uma mercadoria deveria ser, na verdade, determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário, seu valor continua a ser determinado pela contingência da oferta e da procura?

Na segunda etapa da análise da mercadoria de Marx, devemos perceber que o segredo oculto da mercadoria não é que seu valor seria determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário. O que há de verdadeiramente enigmático na mercadoria é a sua própria forma, o processo (Homólogo ao trabalho do sonho) pelo qual a mensuração do trabalho se expressa no valor da mercadoria. Em Freud, a forma que os sonhos assumem é uma forma de escapar da censura, de modo que o desejo inconsciente se manifeste de forma a não acordar o sonhador. Mas e em Marx? Por que o valor do trabalho só pode aparecer na forma-mercadoria?

Nota #2 [10/12/2012]

Sobre o “fetichismo da mercadoria” que Marx analisa, me parece, que podemos formular mais ou menos o seguinte: A mercadoria é coisa trivial e sua trivialidade consiste no fato de advir do trabalho. Isto é, do dispêndio de energia humana que se encerra nela. Logo, é, literalmente, um produto do trabalho, um objeto produzido por um sujeito dotado da possibilidade finalizar, de idear, produzir.

Sua produção dá-se, a partir das capacidades humanas, em função de, como objeto, servir à satisfação de necessidades humanas.  Resultado do “trabalho concreto”, uma vez que emerge do intercâmbio entre homem e natureza, a mercadoria como produto, nesse sentido, é um valor de uso. Contém em si o caráter eminentemente de objeto que serve a alguma necessidade humana.

À medida que a mercadoria, dado o desenvolvimento do ser social [sociedade] e, por conseguinte, a complexificação das necessidades humanas (do estômago ou da fantasia), consolida-se como expressão de uma forma social, de um tipo de trabalho que envolve mais e mais homens, a mercadoria passa a figurar outra realidade, por assim dizer.

A mercadoria, seu caráter misterioso, se expressa na própria forma da mercadoria – segundo Marx. Ou seja, aquilo que ela oculta está revelado, se bem entendi, quando ela aparece como tal. Como a mercadoria indiferencia seus produtores, como sua forma social assume tal característica nas relações sociais capitalistas, uma vez que a igualdade dos trabalhos humanos é a igualdade das mercadorias. A igualdade dos produtores torna-se verificável na quantidade de produtos trocados, não entra em jogo o que estes operam na produção destas, quais qualidades subjetivas objetivaram para a realizarem. As mercadorias então se trocam e usam os produtores como meios para se trocarem.

“(…) A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalhado; por ocultar, portanto, a relação social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total, ao refleti-la como relação social existente, à margem deles, entre os produtos do seu próprio trabalho (…)” (p.94).

Nestes termos, é que a mercadoria como coisa produzida dá-se, na troca, como coisa autofeita, por assim dizer. No mundo das mercadorias, no universo, na lógica das trocas, a relação social entre os homens é obscurecida pela relação entre as coisas. Pois, a relação de valor entre os produtos, oriundas do trabalho privado, do trabalho concreto produtor de valores de uso para fins da satisfação direta daquele que o produziu, portanto, independente de outros produtores, só se dá no momento da troca da mercadoria. Parece-me que, sob esta forma, o único momento social do trabalho [nesta sociedade] é o seu resultado [mercadoria] – não como tal, mas aquele inscrito no ato da troca. O processo coletivo/ social que resulta em produtos se colapsa ou submerge. O que há de interação, portanto, de coletividade/ sociabilidade (intenção, sentido, teleologia, consciência, etc), de relação propriamente é encarnado pela mercadoria – dado por ela como próprio a ela.

Nota #1 [10/12/2012]

Em que lugar a metodologia de Marx é homóloga a de Freud em relação aos seus objetos de interesse? Temos visto em Freud que o sonho, apesar de seu conteúdo  “místico” (digo místico, porque na própria cultura o sonho é considerado algo enigmático, encobridor de uma mensagem, de um bom ou mau augúrio), o que importa não é o que ele quis dizer com suas formas estranhas, muito diferentes dos devaneios diurnos, mas sim o trabalho efetuado nas deformações do sonho, e isso nos dá pistas de um trabalho inconsciente.

Em Marx, a mercadoria é colocada num mesmo estatuto quanto à análise: qual é o trabalho (social) realizado para que a mercadoria ganhe sua forma? Diferente do sonho, a mercadoria é vista na cultura como algo banal e essencial às necessidades humanas, e achamos que temos um domínio sobre elas no que tange ao poder de consumi-la. Mas o que Marx nos desvela é que a mercadoria possui uma aura de mistério, em que quando ela é posta no jogo social, para assim passar a categoria de mercadoria, ela se autonomiza  e passa a possuir relações intrínsecas a sua condição de mercadoria com as outras mercadorias e conosco. Marx nos diz:

É evidente que o ser humano, por sua atividade, modifica do modo que lhe é útil a forma dos elementos naturais. Modifica, por exemplo, a forma da madeira, quando faz dela uma mesa. Não obstante a mesa ainda é madeira, como prosaica, material. Mas logo se revela mercadoria, transforma-se ao mesmo tempo em algo perceptível e impalpável. Além de estar no chão, firma sua posição perante as outras mercadorias e expande as ideias fixas de sua cabeça de madeira, fenômeno mais fantástico do que se dançasse por iniciativa própria (MARX, 2002, p.93. Grifos nossos).

A mercadoria  excede sua condição de produto. O trabalho que a produz é constituído pelo dispêndio de nervos, músculos, suor, e o tempo para produzi-la, mas só isso não basta, é necessário que ela entre num jogo social para se estabelecer como mercadoria, revelar-se como tal. Revelar-se significa tirar o véu, fazer conhecer o que era secreto ou ignorado. Quando Marx evoca este verbo, ele nos induz a pensar que algo da mercadoria é uma aparência que encobre uma essência.

Em Freud,  fazendo uma aproximação rápida, temos o sonho como uma manifestação  aparente de uma essência da verdade do inconsciente. Mas a essa verdade só temos acesso pela via da aparência, e jamais teremos acesso a essência propriamente dita, pois ela se inscreve no campo do impossível. De que ordem é a verdade encoberta pela mercadoria? O que ela nos denuncia que merece que seja passível desta análise? Quando Marx nos diz que a mercadoria  “tem ideias fixas”, poderíamos dizer que ela pensa, e se assim for, sob qual categoria de pensamento ele nos coloca?

Freud, S. A Interpretação dos Sonhos. Edição Comemorativa dos 100 anos. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

Marx, K. O Capital: Crítica da Economia Política, livro I volume I. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2002.

Referências 10/12/2012

QUADROS 10122012.001

Sobre a diferença entre inconsciente, pré-consciente e consciência (primeira tópica freudiana):

FREUD, Sigmund O Inconsciente (1915) – disponível aqui

Sobre o inconsciente como externo:

LACAN, Jacques Seminário XI: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise (Jorge Zahar, 1988)

-> aula X: “A Presença do Analista”

Sobre a arquitetura do primeiro livro do Capital:

HARVEY, David A Companion to Marx’s Capital (Verso, 2010)

-> ver também suas aulas sobre o volume I: http://davidharvey.org/reading-capital/

JAMESON, Fredric Representing Capital (Verso, 2011)

ROSDOLSKY, Roman Gênese e Estrutura do Capital de Marx (Contraponto, 2001)

Sobre o papel do trabalho abstrato na teoria de Marx:

POSTONE, Moishe Time, Labor and Social Domination (Cambridge University, 1993)

Sobre a automatização e o trabalho:

MARX, Karl Grundrisse (Boitempo, 2011)

-> “fragmento sobre las máquinas”, disponível em português e em castelhano

Sobre a dialética da quantidade e da qualidade:

CARLSON, David Grey A Commentary of Hegel’s Science of Logic (Macmillian, 2007)

HEGEL, G.W.F.Ciência da Lógica (Barcarolla, 2011)

Sobre a relação entre alienação e religião em Marx:

FEUERBACH, Ludwig A Essência do Cristianismo (Vozes, 2007)

MARX, Karl & ENGELS, Friedrich A ideologia alemã (Boitempo, 2009)

-> ver as famosas “Teses sobre Feuerbach”

Sobre a operação de “Fundierung” (fato<->função):

HUSSERL, Edmund Logical Investigations (Routledge, 2001)

-> Conceito de Fundierung aparece no segundo volume, na meditação sobre o todo e as partes.

ROTA, Gian-Carlo Fundieruing as a Logical Concept – disponível aqui

WITTGENSTEIN, Ludwig Investigações Filosóficas (Vozes, 1994)

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-10122012

Nota #3 [03/12/2012]

É retomando a pergunta feita por Zizek (1999) que inicio uma tentativa de articulação de pensamento: “como foi possível que Marx, em sua análise do mundo das mercadorias, produzisse uma noção que se aplica à análise dos sonhos, dos fenômenos histéricos e assim por diante?”.

Demos um passo atrás e fomos em Freud para ver como sua análise dos sonhos se procedia, para então partir para um ensaio da análise das mercadorias para ver o que Zizek chama de homologia metodológica.

É no capitulo sobre “O Trabalho do Sonho” que Freud (2001) nos mostra sobre seu método.  Encontramos, quando Freud expõe sobre uma pergunta se as faculdades mentais trabalhariam de forma integral no sonho ou apenas parte dela, uma resposta aparentemente contraditória: ambas (no que diz respeito à qualidade da resposta – ela trabalha inteiramente e parcialmente na formação dos sonhos). Essa resposta nos aponta para uma peculiaridade de natureza no que diz respeito ao processo onírico, e que não teria como pensá-lo desta maneira diretiva.

Além disso, Freud é categórico quando nos diz de uma irrelevância para a psicanálise quanto ao conteúdo manifesto do sonho, o “rebus” do sonho: “por mais que os pensamentos oníricos levantem questões interessantes e enigmáticas, estas questões não têm, afinal, nenhuma relação especial com os sonhos e não precisam ser tratadas entre os problemas destes” (p.490). Em nota de rodapé para esta citação, Freud retoma mais uma vez que os sonhos são uma forma particular do pensamento e que o trabalho do sonho que cria esta forma e, é ele mesmo, a essência do sonho.

Sobre o trabalho do sonho, Freud nos diz: “o trabalho do sonho não é apenas mais descuidado, mais irracional, mais esquecido e mais incompleto que o pensamento de vigília; é inteiramente diferente em termos qualitativos.” (p. 490. Grifos nossos). Trata-se de um trabalho de uma natureza racional e irracional, que comporta essa contradição que acusa uma divisão. Divisão esta que aponta para um pensamento inconsciente (aqui é a máxima do conceito de inconsciente freudiano como aquilo que não é passível de consciência, posto que perderia sua condição de impossibilidade – segundo a modalidade lógica de Aristóteles).

Retomando a homologia proposta por Zizek sobre a análise das mercadorias,  pensemos nos seguintes aspectos: a mercadoria ultrapassa o seu valor-de-uso, ou seja, ela contém mais do que um produto para satisfazer uma necessidade humana; seu caráter misterioso não está diretamente relacionado ao dispêndio de trabalho necessário para realizá-la; a mercadoria tem uma forma social. Como em Freud, o conteúdo manifesto dos sonhos diz menos do que o trabalho dos sonhos; as suas articulações feitas pelo conteúdo latente não estão relacionadas diretamente ao pensamento que suscitou o sonho e o trabalho de transformação para o conteúdo onírico é o que diz do inconsciente. Essa passagem aligeirada e diretiva nos dá pistas desta homologia que precisa ser mais bem elaborada e explorada. E o melhor modo para isto é levantando as próprias críticas, inquietações e reflexões: existem nos dois objetos de análise (mercadorias e sonhos) uma ideia de transbordamento, em que num primeiro momento, ambos poderiam representar mais do que si mesmos? O processo de trabalho diante do produto realizado (feitura de um produto e um sonho sonhado), mesmo que se recolha a posteriori, ainda não diria desse algo que escapa? Ambos os processos (da mercadoria como forma social e do sonho como pensamento inconsciente) denunciam um modo de operar inerente às suas estruturas? Como escapar então do pensamento de que é apenas por meio desses produtos que poderemos chegar à essencialidade de suas operações, e atentarmos exatamente ao processo pelo qual elas seriam apena o produto?

Freud, S. A Interpretação dos Sonhos. Edição Comemorativa dos 100 anos. Rio de Janeiro: Imago, 2001.
Marx, K. O Capital: Crítica da Economia Política, livro I volume I. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2002.
Zizek, S. “Como Marx inventou o sintoma?” In: Um mapa da Ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999.

Nota #2 [03/12/2012]

Seguindo a leitura de Como Marx inventou o sintoma?, de acordo com o programa zizekiano, no sentido de examinarmos as posições compartilhadas no método de Freud e Marx para a observação do “mundo dos sonhos” e o “mundo das mercadorias”, respectivamente, fomos A Interpretação dos Sonhos do pai da psicanálise.

Partindo do suposto que na análise do sonho, segundo Zizek, para Freud inexiste uma noção de “conteúdo”, de “cerne oculto”, de “substância” por trás da forma que figura o sonho; de que, portanto, a ideia de interpretação do sonho não implica numa qualidade de desvelamento que nos apresenta dada “verdade”, temos o seguinte:

Pensando “sobre o trabalho do sonho” [p126], Freud pondera que é possível distinguirmos “duas funções isoladas na atividade anímica durante a formação do sonho: a produção dos pensamentos oníricos e sua transformação no conteúdo manifesto” [idem]. O que, me parece, significa que no trabalho, na arquitetônica, na dinâmica do sonho existem dois processos que são qualitativamente diferenciados, cuja articulação resulta no sonho.

Os pensamentos oníricos, se bem entendi, o pensamento manifesto do sonho, se refere à narrativa, à significação do sonho, àquilo que expressa o nexo entre as imagens em nosso sonho e seu encadeamento no mesmo. Trata-se de uma operação absolutamente racional, dotada de sentido no interior do próprio sonho. O conteúdo manifesto, digamos, seria a imagem destes pensamentos oníricos. Trata-se da “cena” propriamente, das coisas, dos objetos. De como este pensamento onírico, no sonho, aparece – são os “símbolos”, digamos.

O que Freud parece insistir é que nesta estrutura posta [conteúdo manifesto + pensamento latente] parece haver uma tendência de tomarmos o CM como uma forma que se observada com atenção acessamos seu conteúdo – localizando-o no PL. No entanto, o PL, a significação do sonho, a narrativa que estrutura e encadeia as imagens em nossa cabeça em estado de sono são “inteiramente racionais e formados com dispêndio de energia psíquica”. Nesse sentido, me parece que, para Freud, a observância do sonho nele mesmo revelará o sentido deste e nada mais. Ou seja, ao se trabalhar sob o binômio forma/ conteúdo baseado na articulação entre CM/ PL no sonho não acessamos o inconsciente propriamente. O pensamento no sonho dá-se numa dimensão particular, sem dúvida, mas absolutamente racional. Pois o PL por mais que, do ponto de vista do pensamento de vigília, pareça “fantástico” na verdade é uma forma de pensamento em nível consciente/ pré-consciente que apenas se traduz de forma específica [dilatada] em nosso estado de sono. Me parece que o PL é um tipo de pensamento do sonho. Fundado num acontecimento qualquer, capturado por nós, em nosso dia a dia, que se plasma no sono de modo polifórmico. Identificável na plasticidade das imagens que são executadas durante o sono. Na ampla variedade de formas que nele, potencializadas pelo estado de sono, se apresenta.

“O trabalho do sonho não é apenas mais descuidado, mais irracional, mais esquecido e mais incompleto do que o pensamento de vigília; é inteiramente diferente deste em termos qualitativos e, por essa razão, não é, em princípio, comparável com ele” [p127]

O pensamento no trabalho do sonho, verificado na articulação e nos nexos entre o CM e PL, sem dúvida possui uma forma distinta daquela de quando estamos acordados. A energia psíquica tende a realizar, no trabalho do sonho, alterações de padrões de ordem muito complexa. Que deformam, é claro, aquilo que temos em mente no pensamento de vigília, quando acordados, mas também as próprias imagens [já “distorcidas”] que se verificam no sonho.

“esse produto, o sonho, tem, acima de tudo, de escapar à censura, e com esse propósito em vista, o trabalho do sonho se serve do deslocamento das intensidades psíquicas a ponto de chegar a uma transmutação de todos os valores psíquicos. O pensamento tem de ser reproduzidos, exclusiva ou predominantemente, no material dos traços mnêmicos visuais e acústicos, e essa necessidade impõe ao trabalho do sonho uma consideração à representabilidade, que ela atende efetuando novos deslocamentos” [p127]

Sendo o esforço de Freud [ZIZEK, p.300] a eliminação da ideia de que o sonho é um distúrbio proporcionado pelo sono, que trata de pensamentos em confusão e sem sentido algum; ou mesmo de que deveríamos na observação do sonho procurar algo que nele seja um conteúdo propriamente, algo que seria seu “sentido oculto”, me parece que a pergunta seria [já que devemos centrar atenção nessa forma ela mesma do sonho] por que sonhamos de determinado modo.

Isto é, por que no infinito de formas de sonhar, sonhamos de determinado modo? Me parece que o inconsciente, o desejo, estaria neste lugar. Mas ainda não sei se é o caso.

Nota #1 [03/12/2012]

Se colocássemos a pergunta do quanto “conhecer” e quanto “se reconhecer” precisamos realmente, com certeza seria Hegel o primeiro que nos viria à cabeça para responder esta pergunta. Com certeza também, a questão do sonho entra na mesma perspectiva pois, em parte conhecemos o sonho que tivemos e, por outro lado, nos também reconhecemos nele. E, se colocarmos então a pergunta do quanto podemos nos reconhecer naquilo que conhecemos, aí então as coisas complicam ainda mais. Porém, me parece inevitável, seja por Hegel, Marx ou Lacan e Freud, que o “exercício” válido é exatamente o de aprender a conviver e lidar com este movimento de “conhecer, se reconhecer, ser” que temos todos inevitavelmente.

A reunião do dia 3 foi na sua maior parte uma exposição brilhante daquilo que a “academia” filosófica européia expõe como “busca da verdade”, seus meandros e seus detalhes. O primeiro monólogo de uma hora nos mostrou um apanhado das possibilidades conhecidas para unir Freud a Marx, com gráficos e a definição das formas e pensamentos de unir os dois que certas “escolas” européias desenvolveram.

No princípio até me empolguei pois adoro Lacan, adoro a topologia e a matemática e realmente me sinto “em casa” nestas questões. Depois, fui me perguntando sobre o que andamos fazendo aqui… Vivo na Europa há mais de 20 anos e continuo abismado o quanto o pensamento eurocêntrico ainda sobrevive a todos seus impasses, agora muito mais nutrido principalmente pelas “periferias”, os não europeus que tanto querem chegar a este pensamento, do que pela própria Europa.

Com certeza houve e há no pensamento europeu, ou melhor, nos seus pensadores, uma “qualidade” de idéias e discernimentos muito interessantes e úteis a todos. Porém, volta a pergunta: quanto “conhecer” e quanto “se reconhecer” precisamos?

Em dois mil anos de pensamento filosófico europeu “de esquerda”, que eu me lembre agora, a única proposta concreta e “solução” até hoje apresentada foi uma frase: “trabalhadores uní-vos”. E desde então é exatamente esta a única frase, a única solução que todo o pensamento europeu conseguiu formar que repetimos incessantemente, pois outra parecemos não conhecer, ou pelo menos, esta “filosofia de esquerda” parece não conseguir formular.

E volto à pergunta: até quanto precisamos conhecer e quanto disto deve ser “se reconhecer”?

E assim vamos estudando idéias e conceitos deste pensamento tão fabuloso e vamos nos enriquecendo com ele, sem dúvida! Porém, enquanto o monólogo for o da filosofia européia, enquanto os termos e conceitos forem os já espostos entre estes pensadores, enquanto quisermos chegar nós ao pensamento deles e não trazer eles à nossa realidade, enquanto continuarmos eurocêntricos, mesmo sem saber seremos apenas os bons reprodutores de um pensamento que, como alternativa ao mundo que vivemos, ainda não produziu, e dito as palavras de Zizek e outros, não produzirá solução alguma!

Por isso, se é o sonho uma “analogia, uma “homologia” ou uma “metalinguagem” para a reunião, talvez o mais importante é que nos lembremos a “meta” da “linguagem” e que finalmente aprendamos a introduzir o que temos em nós de “se reconhecer” (racional e irracional?), nossas “burrices” e nossas realidades sociais naquilo que buscamos conhecer, transformando assim conceitos e idéias naquilo que temos como realidade e não fazendo da nossa realidade aquilo que aprendemos como “idéias maiores”. Clarisse Lispector dizia que “quando penso no que sinto acabo sentindo o que penso”. E aí está, existe uma tênue linha entre o conhecer, o se reconhecer e o ser que é difícil de ser seguida, porém, acho extremamente necessário aprender a inventar este próprio caminho para qualquer “círculo” de idéias que não queira simplesmente andar em círculos.

Referências 03/12/2012

ceii 03122012 I.001

ceii 03122012 II.001

 

Sobre homologia entre mais-gozar e mais valia:

LACAN, Jacques Seminário XVI: De um Outro ao outro  (Jorge Zahar, 2008)

-> aula III, “A topologia do Outro” (homologia, causa comum, objeto a)

-> aula XIX, “Saber poder” (o campo do Outro, em-fôrma de a)

Sobre a história do freudo-marxismo:

JAY, Martin The Dialectical Imagination: A history of the Frankfurt School – 1923-1950 (University of California Press, 1996)

Sobre a história do Cercle d’Epistemologie:

PEDEN, Knox e HALLWARD, Peter (ed) Concept and Form, vol. 1 and 2 (Verso, 2012)

-> site do Cahier Pour L’Analyse (revista do grupo): http://cahiers.kingston.ac.uk/

Sobre o sujeito na psicanálise e a lógica formal:

MILLER, Jacques-Alain La Suture: Élements de la logique du signifiant  disponível, em inglês e francês, aqui

-> crítica de Badiou à Miller, também publicada nos Cahiers: Marque et Manque: à propos du zero – disponível em inglês e françês, aqui

Sobre o método e o conflito, em Marx e Freud:

ALTHUSSER, Louis Freud e Lacan – Marx e Freud (Graal, 2002)

-> ‘Marx e Freud’ disponível em inglês online: http://pt.scribd.com/doc/45660538/Marx-and-Freud

Sobre a relação não-complementar entre Hegel, Marx e Freud:

ZIZEK, Slavoj For they know not what they do (Verso, 2002) – disponível, em inglês, aqui

-> sobre dialética e lógica significante: prefácio da segunda edição, “Enjoyment within the limits of Reason alone”

-> sobre o nó formado pelos três autores: introdução, “Destiny of a Joke”

Sobre a noção de espaço lógico:

BADIOU, Alain Logics of Worlds (Continuum, 2009)

-> Livro II, Secção 4: Grande lógica e lógica ordinária

WITTGENSTEIN, Ludwig Tractatus Logico-Philosophicus (EDUSP, 2001)

Sobre as invariâncias topologicas da esfera e do toro:

BARR, Stephen Experiments in Topology – disponível aqui

Sobre a diferença entre Razão e Entendimento em Hegel:

HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito (Vozes, 2002)

-> Prefácio, §53-§67 –  disponível aqui

Sobre metapsicologia e metafísica:

BALMES, François Lo que Lacan dice del ser (Amorrotu, 1999)

Sobre a relação entre entre valor-de-uso e valor-de-troca:

MARX, K. Capital, vol.I (Civilização Brasileira, 2008)

-> Capítulo I.

Videos da EGS (Zizek, Badiou, Rancière, etc): https://www.youtube.com/user/egsvideo?feature=g-all

Gravação da Reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-03122012