Nota #6 [18/06/2012]

Nota de Início

“Todo começo é difícil em qualquer ciência”, já salientava o velho Karl. Diante de uma realidade tão complexa, não tenho a pretensão de esperar por um conteúdo simples, de fácil compreensão. Demos o primeiro passo de uma jornada séria com pretensões audaciosas, que de certo requererão esforços múltiplos. Todavia, a exposição do projeto em nosso primeiro encontro aclarou todas as minhas dúvidas abrindo espaço para um forte contentamento em fazer parte de um projeto tão peculiar.

A proposta do Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia se destacou na minha percepção em particular, por sua generosidade e sinceridade, características que eu nunca havia vislumbrado em outros projetos “similares”. Outrossim, só me resta, enquanto participante devolvê-las fazendo jus a perspectiva deste nosso círculo.  Sigamos, então!

Nota #5 [18/06/2012]

INTRODUÇÃO

O CENTRO DE ESTUDOS DA IDEIA E DA IDEOLOGIA, se configura  como um centro para a formação teórica de militantes políticos através do estudo sistemático de filosofia política.

Serão estudadas as filosofias de Alain Badiou, Jacques Rancière e Slavoj
Žižek no que tange à reformulação do projeto comunista.

Nosso trabalho ira se materializar através de reuniões semanais presenciais, nas quais a produção de textos e notas de trabalho pelos participantes são esperadas e também entendidas  como material de trabalho, alem da futura mas não longínqua transmissão do conhecimento produzido para outros participantes. Tal didática se encontra implícita nos trabalhos dos filósofos em cuja leitura está calcado o estudo do Circulo e cujo método de investigação será por nos seguido.

Sao propostas três atividades distintas pelo CEII: seminários e publicações direcionadas aos integrantes filiados do PSOL; seminários e publicações destinadas para o público em geral; e por fim convites para que representantes das parcelas da população exponham suas idéias dentro do CEII.

SOBRE AS PREMISSAS FUNDAMENTAIS

O pilar fundamental sobre o qual se embasa o CEII e o qual acreditamos sem restrições é que  sim, existe partido político que não apenas para e pela função eleitoral.
E neste contexto do delimitar das funções e dos porquês da política que a diferenciação do voto com conhecimento  para o voto simples aparece.

O voto com conhecimento é aquele constituído por um núcleo que a máquina eleitoral não consegue mensurar. E` o voto que crê num programa propriamente político, não num programa de contagem de votos. E o voto com a consciência da necessidade da mudança.

Conhecer algo que ainda não esta implementado na política hoje, mas que  já existe como ideia, como teoria política e cuja implementação depende do próprio reconhecimento de sua urgência. Dai a necessidade do aprendizado, do estudo, do conhecimento do diverso, não apenas como oposto, como inverso ao status quo, mas principalmente como alternativa possível.

Já o voto simples, seria aquele que começa junto com a campanha eleitoral, aquele que decide na urna o destino de um país no contexto do modelo político-econômico vigente. O voto simples é o voto unitário, aquele que ratifica a política vigente, voto que efetivamente não faz diferença; ao contrario, potencializa a inércia do caos corroborando  o presente.

Nota #4 [18/06/2012]

O texto do projeto faz referência a dois tipos de voto: o simples e o com conhecimento. É evidente que tornar o voto com conhecimento numericamente maior é um dos objetivos do projeto, uma vez que o voto simples é considerado como uma forma de manutenção do presente enquanto o voto com conhecimento se apresenta como uma possibilidade de mudança. No entanto, como ter certeza de que estamos realizando um voto com conhecimento? Como saber se realmente somos sujeitos políticos ou apenas eleitores? É possível um engajamento político fora da ideologia?

As produções internas e externas aparentam ideias mais claras, contudo a produção universal (talvez a parte da produção mais importante) parece uma ideia menos clara que necessita de mais elaboração para se tornar concreta.

Nota #3 [18/06/2012]

A motivação para participar do Círculo de Estudos da Idéia e da Ideologia nasceu de algumas afinidades que atestei ao ler o projeto que o mesmo defende. Talvez aquela com a qual mais irrestritamente me conectei ao tomar contato este foi a da tentativa [a esta altura dos acontecimentos, infelizmente, ousada] de forjar um grupo de estudos referenciado política e ideologicamente, sob uma intenção partidária, que, no entanto, assume como compromisso [político e ideológico] não submeter a teoria à prática. Não submeter a primeira à segunda, pessoalmente, me parece o maior desafio que hoje constitui a efetividade da “hipótese comunista”. Até onde domino, por certa familiaridade no interior do debate [e não apenas naquilo que este produz para além de seus limites mais particulares], o que distingui o legado marxiano na longa história do socialismo é a conjugação entre teoria e práxis – de onde emana sua potência. Ou seja, a reciprocidade entre estas e não supressão de uma sob a outra. Reciprocidade que garantiu, por exemplo, que Marx tenha realizado uma crítica materialista à dialética hegeliana ao mesmo tempo em que impôs ao materialismo de Feuerbach uma crítica dialética – algo que por vezes, acredito, tenha se perdido sob o jargão da “ação pragmática”, da “urgência da organização revolucionária”, “das condições objetivas” etc. Exceder os limites conceituais do materialismo e esvaziar o conteúdo filosófico da dialética, ao menos em termos marxianos, é retirar a objetividade que esta tradição de pensamento objetiva.

Orientado por certa aproximação teórica com o legado marxiano bem como com aquele marxismo que dentro do marxismo penso ser o mais marxista, ainda que não exista um “marxômetro” [sic] para tal, e pela opção ideopolítica que há em mim, pessoalmente, me incomoda supor que existam poucos espaços como o CEII. Isto é, em que o pensamento possui seu espaço como tal e não como expressão ou subexpressão da militância; onde a consciência não é um epifenômeno da realidade e/ ou dela deslocada; onde a teoria não se supõe como legitimadora de práticas, mas como atividade que ultrapassa instrumentalismos; onde o sujeito mediante estudo, por definição, extrapola o objeto – mais do que estabelecer uma relação patológica ou circular, por assim, dizer com o mesmo. Igualmente me espanta que o estudo aos marxistas organizados não seja encarado, com firme propósito, como um processo coletivo tal qual a organização e militância política – partidária e/ ou não. Me constrange que tenhamos um propósito político concreto [fundar uma nova sociedade] tão total e universal com uma capacidade de abstração e de penetração intelectual tão estreita da realidade – assim como me chama atenção que alguém imagine que a penetração prática da ação humana no mundo seja similar a interação concreta de um macaco, pré-determinada, com seu ambiente [há um deve-ser que não é uma hipóstase, que é tão real quanto impalpável na relação do homem com a realidade].

Por estas coordenadas é que formulo o descompasso do pensamento marxista diante do mundo contemporâneo, digamos assim. A ausência deste em determinados debates, acredito, ser responsável pela incapacidade de nos reorganizamos coletivamente e de nos engajarmos como sujeitos nas tarefas em que acreditamos necessárias. Há uma lacuna da crítica orientada pelos referencias do “materialismo histórico” que foi preenchida pela inércia irracionalista do pensamento pós-moderno, que sedimentou o apagão crítico que nas últimas décadas temos vivenciado e efetivado a materialidade do capital em termos tão “caducos”. Acho que restituir a capacidade crítica é uma tarefa concreta da ordem do dia – ou, talvez, “inverter” a décima primeira tese sobre Feuerbach, que Marx formulou, admitindo que não conhecemos, pros fins que metamos, as conexões presentes deste mundo. Penso que, mais ou menos, neste “ponto”, o professor Leandro Konder esclarece melhor o que quero dizer:

“(…) Na medida em que os marxistas deixarem de efetuar estudos realmente esclarecedores quanto à alienação política, quanto à alienação religiosa, quanto à alienação nas artes etc., eles estarão contribuindo para que o conteúdo do conceito marxista de alienação fique limitado, no consenso geral, à alienação econômica. Estarão, portanto, se acumpliciando, na prática, com aqueles que procuram deliberadamente deformar a conceituação de Marx e se esforçam por reduzir a área de significação abrangida pelo conceito marxista de alienação, com o objetivo evidente de forçar uma refutação do marxismo nos termos em que poderia se comodamente refutado qualquer economicismo (…)” (KONDER, 2009, 45)

Destaco ainda que diante dos méritos contidos nos pressupostos do CEII há um de envergadura artística: pactuar disciplina e “ausência de pressa” [como descrito no item 4.6 – Tempo]. Introduzir com Lênin o princípio de ação partidária negando dogmas partidários como um fundamento da formação política de um militante político num partido formalmente instituído é uma tarefa titânica como necessária. Disso, creio, num nível significativo, dependerá a capacidade política de o PSOL ser portador do [ou daquele] projeto societário que seria portador – ou de qualquer organização que vise à superação do existente. Mas, acredito, ainda mais sobre uma organização formalmente instituída como o PSOL, no caso, que saber equacionar enquanto partido socialista o tempo de trabalho, paciente e determinado, com as determinações eleitorais e formais de ser um partido numa democracia liberal é uma tarefa complexa: exige não ser displicente com o processo eleitoral e formal da democracia posta nem complacente com esta e com a tarefa de por aquilo que não está posto [existente]; saber que o eleitor não é o sujeito político, por definição, ao mesmo tempo em que o sujeito político não pode, nos termos postos, ausentar-se da condição de eleitor.

Nota #2 [18/06/2012]

Na primeira reunião do grupo debateu-se o projeto do CEII. Do conteúdo do texto, gostaria de destacar um ponto sobre o qual guardei maiores questionamentos: a diferenciação entre as duas modalidades de voto mencionadas no projeto: o voto simples e o voto por conhecimento. Pelo que foi falado na reunião, aquele primeiro tipo de voto seria o que temos mais frequentemente em nossa sociedade. Trata-se dos casos onde o indivíduo participa da disputa política apenas na urna e considera que desse modo atuou até onde era esperado, até onde os eleitores costumam se envolver. O voto, neste caso, representaria a única expressão da ação do indivíduo no processo de escolha política.

Ao contrário do voto simples, apresentou-se a ideia do voto por conhecimento – no qual o sujeito compartilha de uma gama mais ampla de informações sobre a disputa eleitoral, está mais envolvido, participativo das atividades que precedem o pleito, entre outros fatores. O ponto que gostaria de destacar se refere ao fato de que, no caso do voto por conhecimento, supõe-se que o “maior conhecimento” do sujeito o coloca numa posição diferenciada daquela do voto simples e, sendo assim, caberia então investigar maneiras de medir esse “conhecimento”, descobrir como se dá em detalhes esse processo de escolha que seria – supostamente – mais qualificado do que o primeiro caso.

As questões sobre as quais quero me debruçar se referem precisamente ao movimento de busca, de procura, de um “algo mais” que qualificaria e, portanto, diferenciaria o voto por conhecimento. Entretanto, se faz necessário perguntar: até que ponto um voto que se decide dessa ou daquela maneira pode ser tomado como diferenciado de qualquer outro se, no fim das contas, trata-se de “votos”? Não estaríamos ignorando o fato de que, dentro da democracia representativa, o voto é mesmo o máximo até onde pode chegar o eleitor comum?

Nota #1 [18/06/2012]

O que eu estou fazendo aqui?

O que nós viemos fazer aqui?

Descobrir a finalidade que justifique a existência desse grupo é a primeira questão que me surge nesse primeiro encontro. Acredito que nossos objetivos pessoais sejam um ponto de partida interessante para definirmos o objetivo do círculo, tendo os objetivos do Mais-Um destaque especial por pautar o que permanece no âmbito individual e quais interesses tornam-se de todo o grupo.

Minha primeira impressão do círculo é que ele é uma escola para militantes do PSOL. Não uma escola, pois dispensa esse caráter extremamente vertical das instituições modernas, mas um círculo de estudos, onde mestre e aprendiz estabelecem uma relação horizontal de aprendizado mútuo.

Mas aprender o quê?

Vim aprender a me organizar politicamente. Busco o embasamento teórico e a experiência prática que instrumentalize  a ação política, de forma que ela não se aliene de seu próprio objetivo, conformando uma ação irrelevante.
Nesse círculo, é do meu interesse exercitar e articular os dois momentos da práxis revolucionária: ação e teoria.
A referência inicial ao Que Fazer? do Lênin aponta que há uma preocupação dentro do círculo quanto ao papel do intelectual orgânico no partido revolucionário. Essa é uma preocupação que vai ao encontro dos meus objetivos pessoais, pois meu perfil acadêmico e meu contato com a obra de Antonio Gramsci me levaram a essa questão há algum tempo.

Compor um grupo de pensadores que funcionem como intelectuais orgânicos do Partido Socialismo e Liberdade, tornando-se uma das orientações à ação política do partido me parece ser um dos objetivos desse círculo de estudos.
Temos um papel como intelectuais orgânicos e exercê-lo é nossa responsabilidade, sobretudo do Mais-Um, que conduzirá nosso processo de construção do círculo.

Devemos nos tornar um polo autônomo de pensamento dentro do PSOL, conformar uma ideologia político-partidária que amarre os membros do nosso partido, mas principalmente que vincule nosso partido aos grupos sociais que visamos representar. O PSOL deve ser capaz de governar para além de suas bases, uma vez que se propõe defensor de parcelas marginalizadas da sociedade. Naturalmente, devemos tentar tornar esses grupos parte da base de nosso partido, mas nossa atuação deve transcender esse pragmatismo político e deve estar sintonizada com uma ideologia própria. Devemos lutar também por aqueles que não se sentem representados por nós e instrumentalizar a luta nesses diversos grupos. Achei especialmente interessante nossa preocupação em trazer parcelas marginalizadas da sociedade, as quais pretendemos defender devido a uma vinculação política, mas não necessariamente partidária, para que não nos alienemos do nosso próprio objetivo democrático de representar politicamente os excluídos. Esse tipo de vínculo social que transcende o mero pragmatismo político-partidário deve ser uma ética que garanta a expansão e a coerência daqueles que pensam e lutam pelas parcelas marginalizadas da sociedade: lutar por mais do que apenas os seus. Assim poderemos buscar solucionar a crise de representatividade que se impõe às democracias atualmente, decorrência da captura do Estado pelo grande capital, limitando nosso sistema político à injusta plutocracia que atualmente vigora.
O CEII não deve se preocupar com as urgências do processo eleitoral e responder a uma Guerra de Posição, mas ser um ator constantemente ativo na Guerra de Movimento levada adiante por nosso partido, na busca por um número crescente de votos com conhecimento, que legitimem não apenas uma eleição, mas a transformação estrutural que buscamos.

Nesse círculo, buscaremos articular a militância ao conhecimento: compor uma ideologia/ética político-partidária que reúna os sujeitos políticos em torno de si e materializá-la através da militância estratégica. Deve ser parte do trabalho partidário a fidelização a essa ideologia/ética e não a uma verdade política, pois esse conceito extremamente positivista e conservador não parece em acordo com a metodologia histórico-dialética e com nossos objetivos transformadores.
As derivações lógicas que resultam no nome do círculo (página 7) também não ficaram claras para mim. O que é ideia e o que é ideologia, nessa perspectiva?

Me parece que ideia é um objetivo político, um porvir expectado que estabelece o sentido de um grupo. Essa ideia estabelece uma relação dialética com a realidade, que surge de forma orgânica. Sendo assim, nossa ideia não pode ser confundida com uma verdade, limitando-se a ser o objetivo político de alguns. O comunismo honesto não necessita de uma ideia comum, mas de uma ética comum para lidar com as diversas ideias. Trabalhar com verdades nos aproxima do doutrinamento e nos afasta da transformação orgânica, plural e democrática. Devemos lembrar que socialismo e liberdade são dois ideais de igual peso para o nosso partido.

Venho a esse círculo para me tornar um intelectual orgânico do PSOL.