Slavoj Žižek, o filósofo mais sério do mundo.

A história das relações entre o marxismo e a psicanálise pode ser entendida como uma série de diferentes amarrações entre os dois campos, manobras por vezes acrobáticas e que podem ser catalogadas de acordo com os nomes de diferentes pensadores – Reich, Marcuse, Althusser, Deleuze e Guatarri, Laclau etc. De forma quase invariável, o que está em jogo tanto em sua vertente freudo-marxista quanto nos casos mais heterodoxos é a proposta de complementar a crítica da economia política com uma teoria do inconsciente que pudesse dar conta de certos fracassos inexplicáveis da Esquerda: por exemplo, a obscura relação entre revolução e totalitarismo, ou entre o conhecimento e a alienação.

Slavoj Žižek, mesmo sendo tomado hoje pelo acrobata da vez, não pertence a essa série. Por mais paradoxal que pareça essa afirmação,   trata-se de um ponto decisivo para a Esquerda – e, principalmente, para a Esquerda brasileira.

Essa diferença fundamental, que afasta o filósofo esloveno das concepções teóricas de maior circulação na reformulação da Esquerda atual, acaba também por afastar o grande público da dimensão crucial de seu projeto. Certamente, parece estranho afirmar que o pensamento Žižekiano não é bem conhecido: afinal, trata-se de um filósofo de grande popularidade, cuja crescente bibliografia é ainda acompanhada de filmes, entrevistas para rádios e canais de televisão, materiais de jornal e palestras pelo mundo. No entanto, é justamente a popularidade do autor que vem reforçar essa afirmação: por exemplo, em sua última passagem pelo Brasil, era visível seu desconforto com as risadas do público, que achava graça tanto de suas piadas quanto de seus comentários sobre uma nova leitura do cristianismo. De fato, uma das condições de seu apelo popular é a fama de “crítico cultural” e de polemista – isso é, o excessivo interesse tanto da mídia quanto do grande público pelo caráter anedótico de seus exemplos e, cada vez mais, pela apresentação pessoal do filósofo.

É claro que a relação entre a massificação de seu pensamento e a neutralização de seu potencial crítico poderia ser apresentada como um problema totalmente desassociado da ruptura com as variações do freudo-marxismo, ou mesmo lido a partir dessa vertente. Poderia – caso não pudéssemos também observar que essa neutralização vem recobrir precisamente aquilo que opera essa ruptura: o retorno ao idealismo alemão, em especial, à filosofia hegeliana. As consequências da profunda releitura de Hegel realizada por Žižek passam em silêncio, sob as risadas histriônicas e as críticas dirigidas à sua heterodoxia marxista e lacaniana.

Seu retorno à Hegel, realizado através da obra do psicanalista francês Jacques Lacan, tem como pilar fundamental a elevação do conceito freudiano de pulsão de morte à dignidade de uma categoria filosófica. Isso é: ao invés de tratar o fracasso da adequação de uma coisa a si mesma, assim como o paradoxal fracasso de que essa inadequação venha a ser total, como produtos de forças externas sobre um objeto – a psique humana, incapaz de apreender o real; o Estado opressor, que distorce as representações da realidade, etc. – essa inconsistência é tida como ontológica, constitutiva do ser enquanto tal.

Seguindo Lacan, Žižek defende que é no confronto com essa impossibilidade incontornável que o sujeito é constituído – afirmação cuja consequência principal é distinguir a crítica ideológica de uma crítica da alienação em representações que ocultariam do sujeito as verdadeiras relações entre causa e efeito, pois o sujeito é produzido justamente por uma alienação fundamental, causa da impossibilidade tanto de apreender a coisa como ela é quanto de se desvencilhar completamente do real. Portanto, a ideologia não é uma operação que aliena alguém de alguma coisa, mas que aliena alguém da própria alienação: o que é ideológico é a substituição de uma alienação constitutiva por uma alienação constituída, mais suportável e cuja superação é, em última instância, inconseqüente. Na crítica ideológica žižekiana, não se trata de questionar o que está por trás de um dado discurso, escondido por um véu de interesses diversos, mas qual é a mentira mais fundamental que precisa permanecer operante de modo a permitir que o sujeito fantasie, por trás desse discurso, uma realidade completamente constituída, onde a subjetividade não teria por correlato esse insustentável decentramento de si mesma. Ideologia, conclui Žižek, não é o semblante como tal, é a economia das suposições daquilo que seria totalmente distinto do semblante, o não-ideológico.

Nesse sentido, o materialismo Žižekiano busca reabilitar a dimensão mais abstrata do idealismo alemão, pois não reduz simplesmente o fenômeno às suas bases concretas, imaginando encontrar na matéria um porto seguro contra à tortura da linguagem – ao invés, afirma que é necessário levar em conta a materialidade das próprias representações, a causa intrínseca da fragilidade das significações. Trata-se, como diz o filósofo ele mesmo, de uma ‘reversão materialista de Marx’.

No lugar de uma nova junção entre a concepção psicanalítica do sujeito e a concepção marxista da ideologia – operação que, de acordo com Žižek, acaba sempre por esconder os impasses de uma sob a lógica da outra – seu projeto filosófico se baseia na conceitualização de uma disjunção produtiva entre os dois campos, de modo a identificar como o real opera, através de sua própria negatividade, a constituição tanto da dimensão individual quanto social. As consequências dessa posição teórica para o campo da política são extensas, e ainda muito pouco exploradas. Torna-se, por exemplo, essencial reformular a pergunta “quem aliena o sujeito?” de modo a separar a alienação no sentido que Marx dá ao termo da alienação no sentido freudiano, pois todo projeto político que organiza indivíduos sob a bandeira da emancipação precisa distinguir a liberdade pessoal da liberdade social – ao contrário, estará apenas se servindo de uma causa comum para alimentar a fantasia de que é possível conquistar uma “inteireza” subjetiva que, por definição, não existe.

Como mencionamos acima, é precisamente a reformulação žižekiana do sistema filosófico de Hegel, responsável pela construção do conceito-chave de uma negatividade que parasita o ser de forma constitutiva, que desaparece quando Žižek é tratado como um crítico cultural que transitaria pelos mais diversos campos do saber de forma pontual, amarrando seus comentários através de seu poder retórico. A rigor, quando se considera as bases filosóficas de seu projeto, é preciso afirmar que Žižek tem apenas um objeto de estudo, cujos traços se deixam reconhecer em qualquer situação em que se encena, no registro das representações, a operação que constitui a representação como tal – ou seja, em qualquer formação discursiva, posto que o discurso precisa recobrir tudo, inclusive a fantasia de sua própria constituição. É por esse mesmo motivo que é impossível culpar a massificação de seu pensamento pela pouca repercussão da dimensão sistemática e ontológica de suas considerações: as piadas e os exemplos que Žižek usa em seus livros, entrevistas e palestras não funcionam como metáforas para objetos mais técnicos, que estariam ausentes, caso o filósofo não passasse de um polemista, ou escondidos do grande público, caso se tratasse de um filósofo no sentido tradicional. Se aceitarmos a tese fundamental de que a representação em si tem uma dimensão material, então é preciso entender que os exemplos não representam o objeto da filosofia Žižekiana, eles o apresentam. Não faz sentido, portanto, considerar que a difusão midiática distorce ou “reprime” o objeto de seu pensamento, pois esse objeto nada mais é do que o real funcionamento das distorções da representação ela mesma. O reconhecimento dessa diferença fundamental, que transforma o lado engraçado de Žižek na mais séria de suas ferramentas didáticas, não é responsabilidade nem dos meios de comunicação e nem pode ser reduzida a um “tique” pessoal do filósofo – é tarefa daqueles que desejam se engajar com sua proposta.

Dissemos acima que essa tarefa tem um valor especial para a Esquerda brasileira, hoje em pleno processo de reformulação. De fato, uma contradição evidente no coração de nossa cultura permanece um impasse na construção de uma frente partidária forte e de verdadeira vocação emancipatória: ao mesmo tempo em que vivemos hoje imersos na catastrófica indistinção entre o que é a política e o que é a corrupção e manifestamos nossa indignação com essa situação, vivemos também imersos no discurso de que ser brasileiro é acima de tudo ter acesso a uma liberdade, uma alegria que não pode ser enquadrada por nenhuma representação social e que está, de certo modo, para além da lei. Ora, qual seria uma posição consequente no terreno político, visando lutar contra essa terrível sutura do oficial com o oficioso, e que levasse em conta que, na nossa identificação mais espontânea como brasileiros, damos grande valor à transgressão da lei? Se individualmente nos revoltamos contra a corrupção, coletivamente ainda nos reconhecemos através da prevalência do informal sobre o formal, do favor sobre o dever, etc – um impasse que, sem as ferramentas conceituais que possam formulá-lo corretamente, torna impossível construir uma alternativa sólida ao modelo atual da maquina política e eleitoral.

Notemos, no entanto, que esse impasse fundamental ressoa diretamente no problema que identificamos anteriormente no tratamento dado a um dos maiores expoentes da filosofia ocidental. Ao reduzirmos suas colocações à categoria de comentários engraçados sobre o mundo contemporâneo – piadas que fazem graça da lei – acabamos por reduzir um discurso que realmente oferece um novo ponto de partida para a crítica ideológica ao produto “pop” dessa própria ideologia. Do mesmo modo, o que causa em nós a desconfiança do rigor filosófico aparece também como a desconfiança do rigor em geral, como a necessidade de nos mantermos sempre a uma distância jocosa do poder – não seria essa própria distância que acaba por reduzir a disciplina política ao produto “alienado” da lei vigente?

É justamente na obra de Žižek que encontramos os meios para entender o papel da transgressão e do cinismo na manutenção da lei, e para entender que a disciplina, quando consente à subjetividade, é a única operação capaz de desestabilizar uma configuração ideológica. Mas, para tal, é preciso antes aprender a reconhecer a diferença entre uma tentativa sistemática de circunscrever um objeto muito gozado – essa coisa que nos escapa em nossa própria constituição – do jeito supostamente “gozador” de um pensador.

Não é a toa que a filosofia žižekiana é tão difícil: sua dificuldade não é aquela dos catedráticos e do jargão opaco – é a dificuldade que advém ao sermos convidados a dar um passo inicial que, principalmente para nós brasileiros, parece ir contra nossa própria identidade. Mas nessa dificuldade reside também a grande generosidade de seu projeto filosófico, pois a necessidade de darmos esse primeiro passo permite que o trabalho do pensamento seja elevado de início à categoria de uma luta com aquilo que, em nós, sustenta o mundo tal como ele é.

Texto publicado na ‘Revista Socialismo e Liberdade